Do Caos veio a luz, a primeira vez, ao Caos retornaremos?

“Adeus, ó livros, da sapiência fontes!
Adeus, ó grande livro do Universo!”
(Paraíso Perdido – John Milton)
O que a vida reserva a cada um de nós?
Prazeres, alegrias, dores, desesperos. Qual é o metron que não se pode ultrapassar? A imensa maioria do planeta vive dos aflitos e das incertezas sobre o que irá comer hoje ou amanhã, de como irá sobreviver ou aguentar o pesado fardo da existência. Ainda que acreditem em algo que os faça seguir, a perspectiva diária teima em desmentir qualquer fé ou credo. Nestes tempos terríveis em que as trevas se aproximam de forma irresistível e ameaçam a civilização ocidental, a sociedade da informação parece namorar com a Idade Média. Fico procurando as raízes desses sentimentos tão contraditórios, desses sinais tão invertidos: por um lado, nos aproximamos do conhecimento total dos fenômenos; por outro, milhões negam as descobertas científicas de forma bestial — inclusive pessoas com alta formação universitária.
A investigação, do meu ponto de vista, deve ir ao nosso passado mais longínquo, especialmente à origem política, social e religiosa da psique ocidental. Esse acesso tecnológico amplo e veloz produz uma sensação de medo e insegurança sobre o que realmente somos, entrando em conflito com as verdades religiosas e éticas, enquanto a identidade de grupo se apaga pela rapidez das transformações. A facilidade e a velocidade com que uma mensagem circula — certa ou errada, precisa ou imprecisa — dão a ela um caráter de “verdade”. Isso cria uma incerteza profunda, até mesmo para pessoas que, em tese, detêm maior conhecimento e formação científica. Elas caem nas armadilhas e perdem o senso crítico para filtrar ou questionar determinados absurdos que viraram quase verdades, por mais estapafúrdias que sejam.
As reflexões doloridas de um fim de ciclo já não são acalmadas pelo bálsamo que vem das músicas que ouvimos, nesses momentos em que a sombra e a escuridão dominam o cenário. Foram semanas corridas, vividas intensamente e vencidas dia a dia, superando os percalços desse ambiente sufocante em que se transformou o Brasil — paquerando perigosamente o abismo (de Nietzsche) e o caos (grego).Há um corte entre os dramas e aflições pessoais e as questões gerais, numa luta de vida e morte, sem que possamos dominar o destino — o nosso e o dos demais. Não conseguimos sequer olhar com algum otimismo de que haverá luzes à frente, caso o abismo vença e nos faça cair. Assim seguimos essa dura luta interna: sem que ela nos paralise, mas também sem que nos impulsione a lutar com mais força. Parece que nada se ajusta, que não conseguimos enxergar o Norte.
A idiotia ganhou músculos e feições raivosas, a IA (Ignorância Atualizada) avança avassaladora. Pouco importa se o assunto é política, religião, futebol ou uma descoberta científica. O método foi substituído pelo achismo tolo, como se a mesa do bar tivesse virado o centro do universo. Ou melhor: o umbigo do boçal é tido como mais exato do que qualquer livro de história ou experimento científico pois, pela lógica deles, não existem mais fatos. Qualquer “verdade” sem embasamento nenhum vira dogma. Lembremos a visão do escritor e filólogo italiano Umberto Eco, ao apontar que, antes das redes sociais, os “idiotas da aldeia” tinham direito à palavra apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Mas “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.
No meio dessa confusão total e dessa insegurança, os mitos acabam virando a chave na qual as pessoas se agarram. Religiões e seitas que vendem um passado glorioso passam a dominar as mentes. A condenação moral do modo de vida moderno e a narrativa da “falta de Deus” calam forte — ainda que o cidadão não cumpra sequer um mandamento, ele se conforta pensando que um dia vai cumprir. Há ainda as reduções morais e sociais a pequenos postulados típicos do neofascismo, baseados em punição e violência de todas as espécies. Pela sensação de pressa das redes, todo o resto da vida é visto como morosidade — em especial, a justiça (e, de fato, ela o é). A atitude diante de um crime, ou mesmo de uma suspeita, é de condenação exemplar, o que facilita o surgimento de “justiceiros”, tanto no Ministério Público quanto na magistratura.
Basta ver a quantidade de programas policiais e de parlamentares eleitos vindos das forças policiais, sob a ilusão de que eles iriam ao Parlamento, ou aos Executivos, para sair atirando e resolvendo imediatamente qualquer problema. O fracasso deles é rapidamente atribuído aos “outros políticos que não querem mudar” — um discurso corrente que vira, mais uma vez, verdade absoluta. A glorificação do passado, a violência e a condenação moral dos comportamentos modernos parecem ter se imposto de forma completa, quase como um mergulho no caos. O trabalho paciente, pequeno e constante será o único caminho para romper essa realidade caótica.
Essa terrível dualidade — pensar grande e longe, em contradição com o executar pouco — torna o viver um drama; uma dor que não se mede, mas se sente. Ainda assim, de algum lugar, uma pequena lamparina se acende e emite uma fraca luz. É um aviso de que é possível continuar, de que a mudança virá e uma nova primavera há de surgir, superando este longo e tenebroso inverno.
Assim, ouvimos a música distante, incidental, e já não há tempo para nenhuma lágrima a mais. É hora de reviver, renascer, lutar e, em breve, sorrir.