E la nave va...

Essa fala impertinente, cheia de soberba, é bem a linguagem dum lacaio dos deuses. Vós sois moços; recente, o poder que exerceis; imaginais, por isso, viver numa torre acima dos sofrimentos; já não vi eu dois reis expulsos dela? (O Prometeu Acorrentado – Ésquilo)
A tela se abre e todas as dores estão nela em branco, agora preenchidas com estas letras — sabe-se lá por que, para que ou para quem. Elas apenas saltam, como lágrimas que descem por um rosto que vai envelhecendo rapidamente, sinal de que o nosso tempo se foi. Mas teimamos em permanecer. Seria apenas para mais sofrer?
Claro que há contradições entre pensar sobre si e, mais ainda, em agir. A soma geral é de que alguma coisa boa, entre tantas sombras, dá sentido para que se continue; no entanto, as enormes incertezas do porvir vão pressionando. É como se a águia viesse comer o fígado para que ele se recomponha, dia a dia, no açoite do mar, na prisão da luta para sobreviver.
Assim, vamos enfrentando e resistindo num mundo careta, em que figuras medíocres, com seu fanatismo, ameaçam esmagar o que se construiu de civilização: utopias, imperfeições, criações incríveis, sonhos, possibilidades. No limiar do maior salto tecnológico, paradoxalmente, a humanidade se vê dominada por essas sombras das trevas medievais e seus valores insanos, estreitos, de negação da vida e do amor.
O uber-poder distópico que promete um admirável mundo novo é, ao mesmo tempo, o mundo da prisão e das restrições políticas e ideológicas, submetido a hipócritas teocratas com suas carinhas de bunda — aparentemente inofensivos, mas malditos em seus propósitos cruéis de um planeta submerso nas práticas anti-humanas de castigos religiosos, de um Deus punitivo e mau, cuja redenção é a nossa destruição como raça.
O punhado de trilionários navega por cima e entrega o destino político aos piores demagogos, que falam em nome de Deus, de religiões e de seitas medíocres cuja fé é baseada em MEDO e DOR. Todos os livres dessa ordem são perseguidos e expostos por essa horda de canalhas. Eleitos por quem? Pelo poder invisível da tecnologia, das big techs e de suas redes (anti)sociais, que nos corroem e corrompem.
É esse o nosso destino final?