A Odisseia de Nolan!

Finalmente assisti ao grandioso filme de Christopher Nolan, o maior diretor de cinema dos últimos 20 anos, capaz de trazer para a tela a realidade cruel do mundo real — cada vez mais ficcional, disruptivo, cujo poder se concentra para um punhado de homens que destroem sonhos e vidas, o verdadeiro “Cavalo de Troia” (seria a Internet – Redes Sociais?) é o sequestro de corações e mentes num mundo idiotizado em que a apatia predomina
A leitura da Odisseia, por Nolan, é absolutamente surpreendente pelo formato quase de aula magna, com imagens portentosas captadas por um olhar crítico e cujo norte é a humanidade, a civilização, o que sobrou do Estado de Direito e dos direitos à vida e à dignidade. É o discurso de um texto milenar com a sensibilidade do que se avançou pelos séculos de conquistas civilizatórias, que de repente está ameaçada de desaparecer pela ação direta da extrema-direita selvagem, obscurantista, da religião única que quer apagar as diferenças e os valores humanos.
De certa forma, me vi 35 anos atrás. O filme avança e eu refaço minha própria viagem, voltando a pouco depois de uma das maiores rupturas da história da sociedade moderna: a queda do Muro de Berlim. Naquele início dos anos 90, o triunfalismo do neoliberalismo nos impôs uma realidade dura em que apenas os clássicos me fizeram ficar de pé. Agradeço aos gregos, aos romanos; percorrer a longa Idade Média e chegar ao Renascimento, à revolução industrial e ao capitalismo, tudo isso precisava de leitura e interpretação para refazer nossos sonhos.
Aquela Odisseia, a Ilíada, a Divina Comédia, que me fizeram reposicionar o cérebro e a paciência histórica… Menos de 20 anos depois, a queda de Wall Street e uma nova mudança radical nos trouxeram para o ultraliberalismo. Na convulsão de 2008, Nolan nos legou a trilogia do Batman, o Cavaleiro das Trevas, anunciando um mundo de longa decadência, como no Estado de Gotham City.
A Odisseia não é apenas o retorno para Ítaca, pois o mundo já não é mais o mesmo. As leis de Zeus (o Estado-Poder) estão em queda, os costumes, a alta cultura e o conceito de humanidade foram perdidos. Assim, a visão da Odisseia é a melhor metáfora de 2026: o mundo das Big Techs, do UberPoder de Trump e das corporações, da Máquina de Guerra (real e virtual), dos homens do mar que atacam Ormuz, Caracas, Gaza, quem sabe Brasília ou Pequim? O espetáculo da Odisseia está no que se assiste, no texto reto, nas idas e vindas, nas reflexões e arrependimentos de Odisseu e de Menelau. A destruição de Troia é a senha para a perda de um mundo multipolar (lá do passado, como poderia ser hoje em Gaza, Iraque, Irã) e de aceitação das diferenças, crenças e utopias.
Um daqueles filmes fundamentais para a vida e resistência humana.