A tecnologia deveria ser prioridade maior de um projeto soberano.

Poucos sabem, mas antes de o Google virar o padrão global de buscas, uma empresa brasileira criada dentro da UFMG — a Miner Technology Group, uma espécie de startup pioneira — criou o que seria o “pai do Google“: um buscador quase perfeito chamado Miner. O UOL utilizou a ferramenta em sua página principal e acabou comprando a empresa em junho de 1999. A nota da época, intitulada “Universo Online anuncia compra da página de busca Família Miner“, destacava:
“A Família Miner, que foi lançada em agosto de 98 no UOL, continuará atuando como empresa independente. ‘Mas essa aquisição fará com que tenhamos a possibilidade de acelerar o lançamento de novos produtos’, diz Ribeiro, agora executivo sênior do UOL. A Família Miner tem hoje 15 ferramentas de busca especializadas para encontrar livros e CDs (com comparação de preços), pessoas, documentos, jogos, informações sobre turismo, arquivos de áudio no formato MP3, receitas etc. Frias afirma que deverá anunciar detalhes sobre investimentos estrangeiros no site do Universo Online dentro de duas ou três semanas. ‘O UOL entende que há necessidade de acessar o capital internacional e é por isso que estão sendo mantidas conversas com eventuais parceiros americanos.'”
Quando o comércio eletrônico mal existia por aqui, a solução da Miner já embutia buscas inteligentes e ferramentas de comparação de preços. Uma clara indicação do que viria a seguir. Na virada do milênio, o Brasil era vanguarda.
Outro exemplo fantástico: você sabia que o identificador de chamadas é uma invenção brasileira? Nélio José Nicolai desenvolveu o sistema em 1977, em Brasília, enquanto trabalhava na Telebrasília. Como era comum os colegas de trabalho darem trotes uns nos outros, surgiu a ideia de criar o BINA (“B Identifica o Número de A“) para saber exatamente quem estava ligando. Isso aconteceu bem antes de o Bell Labs se apossar e patentear a tecnologia. O invento se tornou uma das features mais caras e essenciais das telecomunicações em todos os tempos, presente até hoje na telefonia celular e em aplicativos de comunicação como o WhatsApp. Infelizmente, Nélio passou décadas em disputas judiciais contra gigantes da telefonia para tentar receber seus direitos e royalties, enfrentando duras batalhas pelo registro de suas patentes.
A automação bancária do Brasil também é um marco mundial. Empresas e divisões de tecnologia — como a Itautec, o Bradesco, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e sua rede lotérica — foram pioneiras no uso de tecnologia quase inteiramente nacional. Desenvolveram soluções criativas para caixas eletrônicos (ATMs) e Postos de Atendimento Bancário (PABs) que tornaram o sistema simples, rápido e seguro. Mais recentemente, vimos o surgimento do Pix, um fenômeno mundial de pagamento eletrônico instantâneo, desenvolvido de ponta a ponta no Brasil. São exemplos claros de como softwares, hardwares e firmwares criados aqui demonstram a inventividade nacional.
Esses são apenas pequenos exemplos de como o brasileiro é apaixonado por tecnologia e criação, uma tradição que vem desde Santos Dumont, o inventor do avião. Mais do que criar, o brasileiro tem uma capacidade única de fazer a tecnologia cair no gosto popular. Há uma facilidade incrível de adaptação e uso, sem medo ou receio. O brasileiro tem curiosidade e consegue transformar inovação em negócios, sustento, lazer e modo de vida.
O Brasil ainda pode ser vanguarda tecnológica, especialmente na chamada IA (ou SI, by Trump), o que levaria o país a outro patamar no cenário global, além de ajudar a combater nossas mazelas históricas. Os exemplos acima servem para afirmar, de forma inequívoca, que não nos faltam cérebros, mas carecemos de uma Estratégia de Desenvolvimento Nacional. Esta, inevitavelmente, passa pela política e pela assimilação de conceitos fundamentais como Soberania, Unidade Nacional, Povo e Nação.
Vamos nessa? Bora Lula!