Sob o domínio do virtual!

Homeland (Netflix) é uma excelente série sobre espionagem (CIA, NSA e FBI), grupos internos secretos, brigas pelo poder nas agências, complexas relações internacionais (ataques, crimes, guerras, intervenções diretas e indiretas) e a política interna dos EUA. São 8 temporadas, cada uma com 12 episódios. É longa, ok, mas vale cada segundo.
Vamos ao que interessa: em um determinado episódio, nono da 6ª temporada, uma empresa de fachada de tecnologia faz contratação em massa de ex-agentes, programadores de software/hardware, nerds de internet, geeks e todo tipo de trabalhador da área de TI e Segurança da Informação (SI).
Instalados em uma sala gigante, um amontoado de computadores está paralisado por uma falha no programa que administra milhares de “perfis” de redes sociais — todos verossímeis, com “histórico de vida”, parecendo quase reais. Após um novo contratado resolver o pane e reativar o sistema, acende-se um supertelão de NOC (Network Operations Center) que projeta todas as redes sociais (X, Instagram, Facebook, LinkedIn, WhatsApp) e os perfis falsos ativos.
As centenas de “trabalhadores”, administradores de perfis falsos, vibram. Um coordenador grita:
— Vamos lá, detonem, demonstrem revolta, interajam nos grupos e mostrem toda a nossa raiva!
A empresa tem como missão atacar a presidenta eleita dos EUA porque ela quer romper com a comunidade de informações e com a indústria da guerra. Um setor da CIA contratou a empresa — algo comum, já que a NSA e a CIA costumam ter empresas de tecnologia trabalhando como terceirizadas. Neste caso, porém, era um contrato fake para defender interesses escusos. Até a presidenta é monitorada por eles: suas conversas, seus telefones e e-mails.
É uma lição bem didática. Parece ficção, mas é real demais e muitos não acreditam. Serve para entendermos como eles influenciam e manipulam as redes sociais, direcionando todo e qualquer debate político. É assustador.
Esse episódio é de 2017 (a série foi ao ar de 2011 a 2020). Imaginem como a coisa se sofisticou nesses anos recentes? A extrema-direita usa e abusa desse expediente; inclusive, fez um ataque massivo para tentar destruir o STF. A campanha de Flávio Bolsonaro teve reforço de empresas dos EUA ligadas a estrategistas políticos americanos, cujos especialistas vieram ao Brasil para dar suporte e inflamar o debate nas redes sociais. É nítido demais.
O que se percebe é que o mundo está muito perto de uma ruptura histórica — é o que sinto na minha longa experiência com tecnologia. A IA (Inteligência Artificial), hoje impulsionada por debates geopolíticos globais, é o limiar de um tempo sem volta. Quem domina as Big Techs são exclusivamente os EUA (Google, Meta, Microsoft, Apple e NVIDIA), e o mundo corre o risco de se tornar refém deles nessa corrida que não é propriamente tecnológica, mas sim geopolítica, em um mundo cibernético sob controle dos EUA.
Isso não tem nada de apocalíptico, é REAL. O recado global é explícito e sem rodeios, feito Donald Trump, na ONU, mudando inclusive o nome de IA para SI (Super Intelligence), deve ter patenteado..
É possível resistir? No Brasil, se o extremismo vencer, será o fim do mundo como o conhecemos. Esse é o desafio mais importante da história do país.