Suprema Corte do Brasil sob pressão da Luta Política.

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
(Versos íntimos – Augusto dos Anjos)
A defesa da democracia como valor necessário para resistir à barbárie assiste, hoje, a um duro enfrentamento na cúpula do Judiciário do Brasil. Há resistência e dores. Por vias tortuosas, tenta-se preservar a democracia. Parece dolorido — e é. Alguns têm o direito de se escandalizar com a luta (de classes), inclusive dentro do STF, mas a maior urgência é impedir que um teocrata (Moro-Mendonça) venha a dominar o Supremo como vestal da moral e dos costumes.
Nesses últimos 18 anos, desde a grande crise de 2005-2008, vivemos uma época em que a democracia virou um estorvo para o Kapital — para a sua fração burguesa dominante, composta por alguns poucos bancos e fundos, fundidos às big techs, que hoje operam no coração da produção de valor. A grande virada para o ultraliberalismo vem ao custo da destruição de Estados nacionais, da soberania e da desorganização interna, com a quebra de regimes, de histórias e de vidas humanas, além do uso indiscriminado de intervenções militares e políticas da chamada guerra híbrida.
A radicalização política trazida pelo ultraliberalismo tem como fim último a quebra do Estado e a sua redução ao mínimo — em um modelo ainda mais restritivo do que o da fase neoliberal clássica. O Estado é atacado em todas as frentes para virar um simulacro, servindo apenas como força repressiva, da violência coercitiva contra os trabalhadores e população em geral e como um consenso político sobre a inutilidade da democracia. Sob essa lógica, as instituições caras e pesadas seriam descartadas: o Judiciário seria substituído pelo tribunal das redes sociais (se já não o foi), e as eleições, por dinâmicas de Big Brother.
Essa realidade se dá em variadas dimensões e momentos, de acordo com cada país e com a sua capacidade de resistir — ou de segurar a barbárie — ao projeto central do Kapital, imposto pelos EUA por meio de intervenções, ameaças, armadilhas e apoios a grupos de traidores da pátria em todas as esferas de poder e instituições. O Brasil está sob os ataques de Trump, em apoio e aliança com o bolsonarismo, pronto para entregar as nossas terras raras e acabar com a independência comercial do país, submetendo toda a autonomia do Brasil e seus acordos internacionais aos interesses estadunidenses.
Aliás, não custa lembrar: quando o Ministro Fachin estava acuado pelo bolsonarismo nas eleições passadas (2022), o Ministro Alexandre de Moraes foi decisivo no enfrentamento, chegando a ser jurado de morte. Poucos tiveram essa coragem. Isso, obviamente, não lhe daria salvo-conduto para supostos desvios, mas tampouco justifica que ele seja massacrado pelo puritanismo de ocasião do obscuro ministro “terrivelmente evangélico”. Esse massacre conta com amplo apoio da mídia corporativa porque, no fim das contas, favorece o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, cujo passado vai sendo esquecido ou varrido para as notas secundárias do noticiário.
No entanto, parece que ainda não acordamos para a barbárie. Preferimos, apegados a princípios puros, rejeitar aqueles que, certos ou errados, podem nos ajudar a enfrentar o caos.
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!