
A virada para a extrema-direita segue um contexto mundial, mas com características bem próprias. Exceto pela Colômbia, onde havia um governo razoavelmente bem avaliado e um bom candidato que perdeu para uma “surpresa”, os demais casos precisam ser vistos como frutos de conjunturas de crises institucionais graves (Peru e Bolívia) ou de governos fragilizados (Argentina, com a hiperinflação, e Chile com a divisão ideológica sem fim).
O Brasil teve a retomada heroica de Lula à presidência e, no México, houve a consolidação da esquerda, com um avanço ainda maior sob a Presidenta Claudia Sheinbaum. Ambos os países sofrem pressões da extrema-direita entreguista e submissa aos EUA, além de ameaças diretas de Trump, com promessas de “tarifaço”. Há também um conluio das big techs e suas redes sociais com as forças mais reacionárias, gerando repercussão na mídia corporativa, que fecha espaços para os avanços desses governos.
As atuais eleições no Brasil refletem essa luta política e ideológica de forma extremamente acirrada.
Essa luta (e crise de poder) atinge os três poderes da república, com exceção do Executivo — que abriga um governo progressista em aliança com o centro e a centro-direita, mas em minoria nas duas casas do Congresso. Soma-se a isso um enfrentamento na cúpula do Judiciário que ameaça toda a institucionalidade (burguesa). Aliás, a falsidade da negação a essa institucionalidade é uma característica do chamado “antissistema”. Eles dizem negar a política, afirmando que tudo está corroído pela corrupção (o que é verdade em parte), pelos impostos e pela falta de liberdade econômica. Contudo, nos poderes regionais e quando estiveram no governo central, em vez de combater esses males, trataram de se locupletar. Fizeram e fazem governos pífios e entreguistas, mas o ônus recai sobre o governo Lula.
Essa realidade complexa se cristaliza também pela perda de diálogo e pela comunicação violenta das redes sociais. Elas são dominadas por visões ideológicas aparentemente antissistema que a extrema-direita sabe captar e capitalizar, contando com a generosa ajuda de ferramentas produzidas ou permitidas pelas big techs. A perda das redes e das ruas criou uma crise política na esquerda, que passou a viver de espasmos e de pequenas conquistas — sempre parciais e logo mitigadas por avalanches de comunicação negativa. É um trabalho de Sísifo, no qual se tem que remar tudo de novo, sempre.
As reconquistas do governo Lula — como a valorização do salário mínimo, o crescimento econômico, a geração de empregos, o aumento da renda e os programas sociais — parecem se perder em um enfrentamento irracional e ideológico. Nele, há pouco espaço para se ouvir e até mesmo para sentir as mudanças reais. Os sentimentos negativos parecem fazer esquecer a miséria absoluta do governo Bolsonaro, a fila dos ossos, do pé de galinha e os mais de 700 mil mortos da COVID-19. É um torpor que assusta e intimida.
O espaço eleitoral está sendo consumido sob esse efeito catatônico que ameaça não acordar. O projeto de um candidato desqualificado como Flávio Bolsonaro parece responder a esse sentimento de desânimo, decepção e falta de esperança.
Nesse sentido, a reeleição se tornou incerta, e a crise do STF ajudou a contaminar o ambiente, criando uma confusão política e facilitando o discurso do “contra tudo que está aí”. Esse cenário, ajudado pela guerra híbrida e por uma intervenção sutil dos EUA, favorece uma comunicação que tem a mentira como essência, sem nenhuma proposta real e escondendo seu verdadeiro propósito.
Faltando 20 dias para as eleições, depois de semanas apanhando muito, Lula começou a sair das cordas. Mas será que há tempo para um novo pacto com a maioria? Para um voto de confiança e de esperança?
É uma luta imensa, na qual não se pode cochilar, muito menos dormir.