Como desacelerar no caos?

Ao peso destes tempos
Temos que obedecer.
Dizer o que devemos;
Não o que é bom dizer,
O mais velho sofreu mais;
Nós jovens, garanto,
Jamais veremos tanto,
Nem viveremos tanto.
(Rei Lear – W. Shakespeare)
Por mais que alguns não acreditem, ou mesmo pensem que se trata apenas de artimanha (minha), no entanto, efetivamente meus passos são mais curtos e lentos, mais cuidadosos, mais preocupado com o presente do que com o futuro, pois o tempo que me resta é menor do que o vivido, então, por essa compreensão da natureza (sua dialética e seus ciclos), sabendo, ainda, que se vive num mundo cada vez mais complexo, veloz, irracional, e que, para se (sobre) viver, hoje, tento procurar ser bom de verdade naquilo que pode garantir minha (sub) existência (material), como objetivo central para que possa ter dignidade até o fim.
Houve alguns grandes marcos na minha que tiveram relações diretas com acontecimentos históricos, num tempo em que havia energia para acreditar de que poderia fazer alguma diferença para os processos humanos, sei, cada dia mais, que isso não passava de uma tola arrogância, que rapidamente você vai entender que nossa participação é importante, faz bem para vida, para o bem comum, mas ela é (ainda bem) diluída no corpo geral do que é o movimento da humanidade, em sua vivência de luta contra sua própria natureza e existência como tal, nada mais que isso. Em outra mão, constato que a velocidade (impulsionada pela tecnologia digital) pode nos libertar, não obstante, no presente instante, faz o oposto, nos aprisionar em ansiedade de ter e dar resposta urgentes, para o nada.
Todos os grandes momentos que vivi (e vivo), alegres ou tristes, cômicos e trágicos, são lembrados como a síntese de mim, que se revela apenas a consciência de si, do ser pensante, e nos fizeram objetar o sentir do que era a vida, sua magia, luz, como também que ela tem sombra e escuridão, não importando muito quem você é “na fila do pão”. Cada um vai vivendo sua existência com mais ou menos expectativa de que dias melhores virão, mas depois de um tempo, eles apenas acontecerão e você estará pronto, como me lembra meu bardo inglês: “O importante é estarmos prontos (…) pois … o resto é silêncio”.
E nada volta!
Ora, o que se fez em determinadas situações e decisões, certas ou erradas, quase sempre fizemos o que acreditávamos ser o melhor, não que tenha sido, muitas coisas poderiam ser diferentes se a decisão fosse outra, mas no final, olhando em retrospectiva, foram adequadas, se resolveram de toda sorte. Nesse sentido, não fico preso ao passado, carregando fardos e culpas, pois não ajudam a viver o que é o presente, menos ainda o que resta de futuro. Não corro o risco de Orfeu, nem da mulher de Lot. Por outra mão, quem tinha que gostar de mim, ter afeição, amor, fez/faz tudo isso, então estar de bom tamanho, o mais é da vida e ela segue independente de qualquer sentimento pessoal, ela fluirá sempre.
Daqui a pouco o ano vira em mais um ano, ou um a menos, o relógio se inverte para todos nós, o que importa é saber o seu tempo, lugar e espaço. Outros virão!
Desgraçado do tempo em que os loucos guiam os cegos. Faz como eu te digo, ou melhor, faz o que bem entender. O importante é ires embora.
(Rei Lear – W. Shakespeare)