Dino e Aristóteles: Os invejosos dirão que é IA

“Uno é o mito, mas não por se referir a uma só pessoa, como creem alguns, pois há muitos acontecimentos e infinitamente vários, respeitantes a um só indivíduo, entre os quais não é possível estabelecer unidade alguma.” (Ética a Nicomaco – Aristóteles)
Coisas do passado que reverberam no presente nos apontam para um futuro incerto e estúpido, que emula sapiência quando, na verdade, é cada vez mais IA: Ignorante e Artificial. Obrigado, Ministro Flávio Dino, pela oportunidade de lembrar os tempos difíceis de estudos e como a filosofia e a lógica foram e são importantes para a minha vida — tanto na tecnologia quanto no direito. Bem distante do vasto conhecimento de Sua Excelência, arrisquei algumas ideias para este texto.
O jovem príncipe da Macedônia, Alexandre, filho de Filipe II, foi mandado para estudar com Aristóteles aos 13 anos, em 343 a.C., permanecendo por três anos como aluno do sábio grego na cidade de Mieza.
Ali, o jovem Alexandre teve aulas de filosofia, retórica, política, medicina, ciências naturais e literatura. Ele leu, inclusive, uma cópia da Ilíada de Homero, obra que levou consigo em suas campanhas militares. A Macedônia era um pequeno Estado no norte da Grécia. O contato com essa civilização gerou em Alexandre uma forte admiração pela cultura helênica, que ele posteriormente difundiu por todo o seu império.
Findos os estudos — combinados com práticas físicas de exercícios para treinamento militar, defesa e guerra —, quatro anos depois, já feito general, ele assumiu o comando do pequeno reino em 336 a.C., após o assassinato de seu pai. Dali, em apenas 13 anos, conquistou “o mundo”: um império gigante que nasceu de um país minúsculo.
Os ensinamentos de Aristóteles foram fundamentais em todos os campos em que Alexandre atuou, moldando seu modo de ver o mundo e a vida em meio às guerras e conquistas de sua breve existência. Ele morreu antes de completar 33 anos. Uma das curiosidades sobre sua história é o desejo que Alexandre, o Grande, teria deixado claro para o momento após a sua morte (seja isso fato ou lenda, vale conhecer):
- Que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos mais importantes da época;
- Que fossem espalhados, no caminho até seu túmulo, todos os tesouros conquistados, como prata, ouro e pedras preciosas;
- Que suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.
Um de seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a Alexandre quais eram as razões de tais pedidos, e ele explicou:
- Quero que os mais eminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles não têm o poder de cura perante a morte;
- Quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem;
- Quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas vejam que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos.
O Papa Francisco, um homem sábio e profundo conhecedor de Aristóteles, costuma repetir que “a vaidade é a osteoporose da alma”. Em uma famosa homilia na Capela de Santa Marta, em 22 de setembro de 2016, ele disse: “A vaidade é camuflar a própria vida. E isto adoece a alma, porque há quem camufle a própria vida para parecer, para aparecer, e todas as coisas que faz são para fingir, por vaidade. Mas, no fim de contas, o que ganha?”.
Nesta semana, no plenário do Supremo Tribunal Federal, o ministro Flávio Dino citou Aristóteles algumas vezes. Li críticas a essas citações — por desconhecimento, talvez, ou, pior, sem entender a profundidade de que as velhas formulações filosóficas são fundamentais para enfrentar os desafios do presente, do hoje.
Voltando ao Papa Francisco, nesse mesmo sermão ele lembra São Bernardo, que se dirigia ao vaidoso com uma palavra muito forte: “Pensa naquilo que serás: serás comida de vermes”. O Papa arremata: “Todo este esforço para camuflar a vida é uma mentira, porque te comerão os vermes e não serás nada”.
Mas onde está a força da vaidade?
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro mas
Não compra alegria!
Há de viver eternamente
Sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia!
(Filosofia – Noel Rosa)