Do fim, e o final que não acaba.


Pequenas fotos achadas numa carteira velha.

E por você ter sido tão especial, Letícia, sua passagem aqui pela terra foi tão rápida.

A questão/afirmação seria apenas uma boa ilusão, quem sabe uma mentira que contamos para nós mesmo, com a ideia para nos confortar, tentar aceitar (ou não) tudo de tão triste que passamos a viver, sobreviver, depois que ela partiu.

Esses últimos dias de enormes dores e saudades, uma espécie de filme mental, vai para frente e volta, rebobinando automaticamente, como uma viva lembrança de alguém que não lhe dirá mais uma única palavra, boa ou não, apenas teremos a repetição do que se ouviu um dia, que não se pode esquecer, e que tudo se reduz à imagem, sem som, até escurecer, como se um letreiro escondido do cinema, fosse descer aos olhos.

Li, outro dia, um lamento de um colega advogado, nele estava uma oração de Santo Agostinho sobre a Morte, o texto  escrito em homenagem à outro colega que partiu em meio dessas quase quinhentas mil vidas ceifadas pela pandemia e pela responsabilidade do pior governo de todos os tempos, mais cruel e insensível, desumano, ou qualquer adjetivo que possa expressar.

A referida oração começa afirmando que:

“A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.”

E ao final (talvez), nos conta, duas coisas, presença/ausência e da necessidade de seguir em frente

“Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente, 
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.”

É uma dificuldade absorver tais lições de Santo Agostinho, não por insensibilidade, longe disse, é a devastação que provoca em nós que ficamos, e de não seguir em frente não parece uma opção simples. Claro que a vida continua bela e linda, talvez não para nós que ficamos sem uma filha, a lógica (se houver) da vida foi quebrada, todas as dores se somam como uma derrota da vida, não dela, sim, nossa.

Sinto, mas não sigo, outras vezes sigo, nada sinto, apenas um vazio, um silêncio que ensurdece e pira.

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