As Revoltas Capturadas pela Direita e a Alternativa Marina.


As famosas revoltas como a dos Indignados espanhóis não impedem a captura conservadora.

As famosas revoltas, como a dos Indignados espanhóis, não impediram à sua captura conservadora.

“Ímpio caçando (brutos não, mas homens),
Com guerra e hostil engano a todos fere
Que à sua tirania não se curvem”. ( Paraíso Perdido, John Milton)

Nos últimos quatro anos, o mundo foi sacudido por várias “revoltas” populares, em todos os continentes, elas são produtos direto da Crise 2.0, uma reação a ela, mas que, contraditoriamente, resultou num reforço ao projeto de sufocar a Democracia, com resultados significativos para a Direita. Um clima de geleia geral, de descontentamento, aparentemente sem direção e organicidade, pelo menos publicamente, mas que foi muito bem manipulada pelas forças conservadoras.

A “Primavera Árabe” que sacudiu o Egito e derrubou o regime ditatorial de Hosni Mubarak, que estava a 32 anos no poder, com eleições manipuladas. Em apenas 18 dias, amplas massas populares se uniram em protestos gigantescos no Cairo, na Praça Tahrir. Dia a dia as manifestações cresceram, começando com os estudantes, depois com a adesão dos trabalhadores em greves, a queda foi rápida e decisiva. Como também foi rápida a queda do regime que o sucedeu, da Irmandade Muçulmana, que não ampliou a Democracia, foi abatida por um golpe militar, jogando mais uma vez o Egito nas trevas.

A Espanha lançou o movimento dos “Indignados” , na Europa, por meses sublevados na Plaza del Sol, em Madri e com revoltas nas principais cidades do país, derrotaram completamente o governo do PSOE, liderado por Zapatero. Entretanto o movimento gestado nas manifestações, o 15 M foi incapaz de lançar qualquer alternativa, na época, o que facilitou a ampla vitória do PP, com uma liderança de extrema-direita, Rajoy. Apenas em 2014, é que uma parte dos “Indignados”, do 15M, se constituiu numa plataforma eleitoral, o Podemos, com uma importantíssima vitória eleitoral. Ainda que pese a manutenção de um governo ainda mais traidor e que tem aplicado os mais duros ajustes contra os trabalhadores espanhóis.

Esta onda de manifestações aportou no Brasil, nas famosas jornadas de junho de 2013, o que se iniciou com um protesto em São Paulo e Rio de Janeiro contra aumento das passagens de ônibus, mas que se generalizou por todo o país, pois a Crise 2.0, também tinha chegado aqui, os exuberantes números da economia estavam minguando e a paciência contra o governo parece acabada, em particular nas classes médias das grandes cidades.

Os amplos protestos colocaram em xeque a capacidade do governo petista de se manter no poder, todas as “contas” passadas, como “mensalão”, como os acordos pela governabilidade ( sem eles não gere o país, o estado ou um município), a corrupção (ainda que mais combatida), as frustrações com pouco avanço na Democracia e participação popular. Este conjunto de coisas tinha sido postas de lado, até então, pela sensação de bonança econômica, mas quando os ventos da Crise 2.0 se tornam presentes, a impaciência e a revolta ganhou o combustível.

Naquela época, ainda intuí achando que o tal “gigante”, com uma cara conservadora, se materializaria num Joaquim “Batman” Barbosa, pela sua ação midiática e demagógica durante o julgamento do “Mensalão”, mas a figura histriônica não conseguiu reunir os elementos e os apoios necessários, pois o temem pela visão ditatorial, além de um racismo velado, na própria burguesia e classes médias. O candidato da oposição tradicional, Aécio Neves, não juntaria o perfil para ser o herdeiro das revoltas, longe disto.

Neste contexto, sobrou Marina e sua Rede, o Partido “anti-partido”, em alguma medida, ela e seu grupo galvanizaram para si o desgaste do governo do PT, não é vista tão distante dos projetos significativos dos últimos 12 anos, mas também não é comprometida com “tudo de errado que está aí”. A sua incapacidade de registrar um partido, o que é uma tarefa relativamente simples no Brasil, acabou inviabilizando sua candidatura. A adesão da Rede ao PSB, para resolver parcialmente o problema, é revelador na estratégia de “nova política”.

Os ventos das manifestações também atingiram no fim do ano passado a Ucrânia, talvez o melhor laboratório e a mais visível ação das forças conservadoras que detonaram estes processos de revoltas, inclusive aqui no Brasil. A Praça Maidan, em Kiev, foi ocupada em novembro de 2013, por grupos que protestavam contra o governo eleito de Víktor Yanukóvytch. Liderados por grupos neofascistas e anti-Rússia, por três meses seguidos, em meio ao frio extremo, paralisaram a capital, entrando em conflito armado com a parte leste do país, culminando com a derrubada do presidente.

Logo a seguir a Crimeia se separou da Ucrânia, uma eleição nacional elegeu um presidente de Direita, o empresário bilionário, Petro Poroshenko. A coalizão de extrema-direita, que usa símbolos nazistas, tomou conta do país, entrando em guerra civil com o lado leste rebelde, que quer integração coma Rússia. O novo governo, ao invés de ampliar a democracia, que em tese era a razão dos protestos de Maidan, fez o oposto, fechou o parlamento e dirige o país com poder ditatorial. Todo este poder é apoiado e recebe suporte dos EUA/UE através da OTAN, inclusive, em meio aos protestos, figuras públicas dos EUA, como Mcain, além do diretor da CIA, estiveram em Kiev dando seu “apoio”.

O que depreendo destas observações é que há um centro organizador que deu dinâmica e mantém os grupos e contatos em todos estes países, com apoio material e logístico. Segundo, o resultado prático é um programa conservador, de Direita, que se impõe pela força. O Ultraliberalismo acaba servindo de ponte entre aparentes extremistas de Esquerda e Direita, a pauta comum tem como base central o questionamento da Democracia e da Política. O aparente desejo de mais participação popular não se provou prática, basta ver, por exemplo, a agora candidata Marina, defende: BC independente, revisão da CLT, questionamento de políticas públicas, mudança do Pré-sal (que inclusive dará mais dinheiro para Saúde e Educação). Onde esta pauta foi decidida? Era o que se pedia nas ruas em junho de 2013?

Marina, a exemplo de Poroshenko, ou de Rajoy, representa a onda conservadora, de reação a qualquer avanço político, com uma base programática extremamente alinhada com os EUA, em particular com o “Novo Estado”, que denomino de Estado Gotham City. O kapital não admite mais intermediários para implementar seu projeto, sua necessidade de realizar o novo ciclo, iniciado imediatamente na explosão da Crise 2.0, pois ao mesmo tempo que um ciclo se fecha, sem a revolução social, outro se inicia, sendo coerente com o que Marx nos legou.

A poucos dias das eleições gerais do Brasil, não resta dúvidas, sob minha ótica, o caminho que elas podem nos levar: caso haja uma vitória de Marina, seria entrar diretamente no “Novo Estado”, uma tragédia aos trabalhadores, um grande feito aos grandes bancos internacionais, a parte dominante do Kapital. Quebraria os acordos de Mercosul, BRICS ou de qualquer política alternativa, ainda que dentro da lógica do capitalismo.

Os signos destas manifestações foram e são conservadoras, os grupos de esquerda são extremamente minoritários, o que se reflete inclusive nos seus números eleitorais. O PT ficou no meio do caminho, agora parece acordar para realidade, terá tempo de virar esta onda?

Documentario Praca Tahrir 18 dias de revolucao incabada no Egito

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=dV9x_0eBuVg[/youtube]

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