O mundo sombrio, quase caótico e buscamos luz!

No começo da década de 10, em 2011, o cineasta dinamarquês, Lars von Trier, trouxe ao mundo uma das suas mais importante obra, o filme, Melancolia, talvez o mais incompreendido de seus filmes. Ele é uma viagem radical pela mente humana, no sentido mais destrutivo/construtivo que é se ver frente ao fim do mundo, aquele que é um desejo corrente que carregamos em nosso DNA, no inconsciente coletivo, mesmo que a noção do FIM seja íntima e que se dará no individual, em regra, não obstante que haja uma tensão coletiva intrínseca de que esse fim seja de toda a espécie.
No filme, as irmãs Claire e Justine, estão diante da possibilidade da hecatombe, o que ali poderia ser uma alegoria do fim das ideologias (socialismo e social democracia vs Liberalismo – o vencedor) que dominaram a Europa por séculos, que se anularam na queda do muro de Berlim, e passam a enxergar no fim dos tempos, a destruição do planeta a sua catarse, ninguém venceu. Uma irmã contempla o porvir serenamente, nada mais importa, que assim seja, enquanto a outra, se rebela, pela não aceitação do que é certo virá em breve, algo como se as bombas nucleares da guerra fria tomassem vida e autonomia, pelo fim.
Desse tempo, vivenciei alguns anos intermináveis, como os de 89, 90, 91, parecia que tudo aquilo era um enorme pesadelo, destruindo sonhos e utopias, alguns companheiros espanaram, não deram conta de tantas porradas, o tamanho do buraco ideológico, de refluxo daquilo que sonhávamos e desmoronou, simbolicamente identificado com o fim das sociedades do Leste, mas não só por ela, tudo associado, o fim da URSS, um mundo inacreditável e aparentemente inaceitável, nos meus 20, 21, 22 anos, era como se começasse de novo, e de novo, a mesma sensação repetida desde então.
Trazer uma perspectiva pessoal, real, talvez ajude a discutir essas questões gerais, com um contraponto individual, o que produz sobre um, ou a cada um de nós. A inquietação sempre me toma, em tantos momentos da vida, não imaginava que isso se daria aos 50, mas parece que não vou parar de sentir a sensação da adrenalina, da necessidade de fazer alguma coisa, ou que preciso realizar algo mais. Impossível apenas ficar quieto, contemplar, isso não é para mim. Por toda minha trajetória é um eterno movimento, ir, sair, buscar, revirar.
Aparentemente são dois sentimentos oposto, Melancolia vs Inquietação, entretanto, penso que sou a síntese dos dois, ou que eles se complementam, um ocupa o silêncio do outro. A inquietação leva ao ciclomotor, o que resulta no cansaço, a melancolia vem para preencher o descanso, o pensar, o elaborar, serve para despertar e começar um novo ciclo, quase um Sísifo, descansar é carregar pedras.
No meio dessas reflexões sombrias, quase vencido pela tese do meu amigo Miguel Nicolelis, de que o cérebro corre alto risco de colapsar, se tornar primário com as formas binárias de pensar impostas pela assim chamada “Inteligência Artificial”, em que, como diz o mestre Nicolelis “há apenas o Zero e o UM, não permitindo uma zona cinza entre os dois campos”. De certa forma, é uma possibilidade de destruição humana, daquilo que lhe é mais original, o cérebro.
O cineasta canadense, Denys Arcand, tinha feito o espetacular, “O declínio do Império Americano”, com profunda discussão filosófica sobre aqueles anos de influência do Reagan-Thatcher, guerra fria“, ainda em 1986. Depois, em 2003, ele trouxe, uma espécie de continuação dolorida, em “As Invasões Bárbaras”, sendo este um balanço sobre o sentido da vida, as escolhas militantes, seu fim e sobre aquilo que fizemos, ou que não fizemos, talvez uns dos melhores filmes políticos que já assisti.
As reflexões voltaram hoje, quase um déjà vu, a encruzilha é a mesma, para militância e o mundo em catarse.