É seguir por uma estrada que tem fim, pode ser qualquer um!

Beyond the horizon
Of the place we lived when we were young
In a world of magnets and miracles
Our thoughts strayed constantly
And without boundary
The ringing of the division bell had begun
(High Hopes – Pink Floyd)
Olhar para frente, jamais pelo retrovisor, confiar de que vamos conseguir superar qualquer coisa e seguir, foi o que desafiou Orfeu na saída do Hades, mas ele não resistiu para saber se Eurídice o seguia. Não muito diferente, depois, a mulher de Lot, ao saírem de Sodoma e Gomorra, ela não resiste e vira uma pedra de sal. A mensagem é idêntica, não olhe para trás, o mundo está à frente, o passado, não volta, o que sentimos hoje, não conserta o que fizemos no pretérito.
Esta lógica do seguir em frente não pode também nos fazer indiferentes ao que nos rodeia: as pessoas e as suas microtragédias, os desacertos do cotidiano ou as desavenças próprias da nossa medíocre/espetacular trajetória. Falar de si, por mais egoísta que seja, pode ser um alento para as dores que cada um em particular sofre, mas não consegue efetivamente expressar, outros o fazem por si e por quem apenas silencia.
A relação intelectual que se estabelece entre o homem comum com as grandes obras, em grande medida, é fundamental para mudar a percepção da vida, mediando, real e fantasia, numa relação dialética que nos eleva à outros campos, em que a mente e o intelecto dominam dores e emoções, pois a reflexão é plenamente oxigenada pelas ideias mais elaboradas. Ora, não por outra que, especialmente em perdas extremas, as mais próximas, amadas, que dilaceram o ser, por exemplo, Hamlet perde o pai, ainda jovem, ou, quanto a nós, que uma filha foi tirada, uma inversão de lógica do ciclo da vida, se é que existe de fato, pois, uma vida, inicia-se, com a certeza de seu fim, breve ou longe, alguns atos podem ser cumpridos, em curto tempo, então, por conseguinte, o tempo, não nos pertence.
Algumas vezes me sinto na cena das revelações de Édipo Rei, e os verso do Corifeu batem na minha mente seguidamente:
“aos muitos males que nos feremagora vêm juntar-se novos!”
Açoitam-me!
A literatura continua sendo meu refúgio, a necessidade de trazer os versos, as frases para o que vivo, encontrar um sentido amplo para tudo pelo o qual passamos e sentimos, sem nos perdermos pelo caminho. Para mim, não tenho como conviver com a mediocridade alheia, a pobreza de espírito. Acabou sendo uma lição, assim como quem desce ao inferno, jamais pode olhar para trás, Psiquê foi instada a seguir em frente, assim como Orfeu, sem olharem para trás. Lot também recebeu a ordem de não olhar para trás.
Vamos em frente!
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river
Forever and ever