Viver, entre dores e satisfações.

“o homem feliz vive bem e age bem; pois definimos praticamente a felicidade como uma espécie de boa vida e boa ação. As características que se costuma buscar na felicidade também parecem pertencer todas à definição que demos dela. Com efeito, alguns identificam a felicidade com a virtude, outros com a sabedoria prática, outros com uma espécie de sabedoria filosófica, outros com estas, ou uma destas, acompanhadas ou não de prazer; e outros ainda também incluem a prosperidade exterior”. (Aristóteles – Ética Nicômaco)
E Eu jamais vou te esquecer, um dia sequer, minha filha amada (em sua memória te celebro) enquanto viver, respirar tiver alguma consciência, pois você foi arrancada de nós, sem que saibamos a razão, apenas nos deixou incompletos para sempre, a felicidade será parcial e não há como se remediar algo que sentimos de forma visceral, não explicação, conforto, palavras ou gestos que mudariam o que vivemos.
Olhei para o ocaso de Brasília, lugar em que o azul é mais azul (e estou azul), então naquele momento mágico em que uma luz brilhante vai se apagar, para outra se acender mais frágil, e o o azul deu lugar ao cinza, assim como as lembranças e os cálculos de um lapso temporal que vai se distanciando, sombreia minha visão.
Uma velha canção, Somewhere Only We Know (por Lilly Allen), toca nos fones, algumas lágrimas vão perturbar o meu caminhar de volta da academia, com o corpo dolorido por exercícios e pelas tensões das obrigações de trabalho e responsabilidades e, de uma vida que segue, segue, sem respostas às questões fundamentais da filosofia, aquelas que devemos nos fazer todos os dias, parecem martelar na minha cabeça e nas minhas dores.
Nesse mesmo dia, em outra mão, vem de repente um sentimento de dever cumprido, quando se percebi que pude fazer algo por algumas pessoas, um reconectar comigo mesmo, com aquilo que sempre fui. E penso no que é fazer o bem, no sentido formulado por Aristóteles, que serve de guia para religiões, organizações políticas, sociais, que muitas vezes vira mera palavras ao vento, mas, quando (eventualmente) agimos para mudar a realidade de pessoas, é uma satisfação e um alerta de que, mesmo com dor incurável, podemos fazer algo pelo mundo, criar oportunidades e agir.
A síntese de dois sentimentos contraditórios vão moldando um novo viver, com tantas coisas que seriam tão mais belas, mas não foram, sem no entanto, destruir a minha essência ética, humana e de onde vim, sem esquecer do que fomos feitos.
Sigamos, ou não!