
Sou um sujeito OBSOLETO!
“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.” (Blade Runner – Lágrimas na chuva)
Venho de uma escola que entrou em franca decadência, rumo à extinção, pois estamos chegando ao fim de forma melancólica, estamos sendo substituídos por um máquina (IA), com certa alegria (de alguns de nós) e festa, quase toda nossa antiga produção intelectual, até essa tão simples de escreve uma nota, um artigo rápido para blog, uma revista, um artigo científico, mesmo os de maiores fôlego como um livro, tudo isso está sendo tomado pela “facilidade” do que se chama IA (Inteligência Artificial).
A minha escola mental é de uma técnica japonesa de “escrever à mão” (Tegaki – 手書き), antes eu era apenas um “devorador” de livros, revistas, bula de remédio, tudo que trouxesse conhecimento, filosófico ou técnico. Quando comecei a trabalhar numa empresa japonesa vi como eles valorizavam a codificação (alfanumérica, binária, hexadecimal), as anotações, os registros como uma arte de escrever a mão, depois poderiam ser transferidos para os computadores, até impressos. Mas a memória, a documentação, o que pudesse indicar o caminho era guardado para que o caminho pudesse ser refeito em qualquer lugar e quando necessário.
Durante a década de 1990, com a chegada dos computadores pessoais, com aqueles grandes discos flexíveis, mesmo assim aquelas anotações precisas de programações, codificações feitas em folhas quadriculadas, com todas os endereços das tabelas (ainda lembro, iniciada, para minha área, começava em 4.000.000), delas, seu mapa de memória, quantas indexações e caracteres poderiam ser preenchidos sem derrubar o Sistema Operacional (OS).
A substituição por níveis mais elaboradas de programações, com linguagens de homem-máquina mais simples, não se perdia o que tinha por debaixo, o nível elementar de tabelas e códigos (Hexa) que nos permitia, em emergência, programa diretamente na “memória”, economizando passos mais complexos.
Nas evoluções de softwares que aprendi depois, com suecos, americanos, mais ainda com os chineses, os fundamentos de conhecer programação, ler números, códigos, os tais escovadores de bits e bytes, foram um diferencial e referência para resolver problemas, por onde passei, visto que todo e qualquer software têm bugs, mesmos os mais belos, eficientes e que parecem que nos superarão, por suas incríveis capacidades de se auto verificação e auto correção.
Dessa escola, sem nunca ter abandonado (na mentalidade) fui estudar Direito. O mundo jurídico, em sua parte instrumental, tem uma lógica de códigos, leis, manuais, formulações, que são extremamente parecidas com softwares em geral, pois o elemento comum é o gênero, o conceito feito por codificação de ideias, que se expressa em números (tabelas, indexação), ou por letras, formulações não matemáticas, mas filosóficas que respondem à outras perguntas, sociais ou políticas, muitas vezes econômica, ou forma de reter conhecimento sobre funcionamento da sociedade.
A herança, mental, do “escrever à mão”, muito mais do que uma obrigação que se tinha, ele gera uma visualização real e concreta das coisas que parecem abstratas, ela fixa conceitos, cria memória e método de ir e voltar, quando não se tem uma saída óbvia, nem mesmo se pode pensar de que não haverão novas questões e perguntas novas que serão feitas a qualquer tempo e temos que tentar responder, até mesmo encontrar um meio de solucionar por dedução e lógica, um remédio jurídico para essa dor.
A armadilha posta ao mundo atual, não importa se na engenharia ou no Direito, na Medicina ou na econometria, é achar que as máquinas darão respostas para tudo, de forma rápida e eficaz, com zero erro. Ao mesmo tempo, confiar que o que veio de resposta está correto, sem que se precise analisar, afinal a máquina pensa melhor que nós . O pressuposto, e um dos problemas, é que se precisa saber com exatidão o que se vai perguntar, aos “front ends” da IA, e estes precisam ser alimentados com perguntas coerentes, nem falo de corretas, para devolver de forma organizada as suas respostas de milhares de pesquisas.
Para além deles, a IA precisa conhecer muito sobre cada área, absorver conhecimento, nos conhecer, aprender com o que produzimos e puder emular o que pensamos, de certa forma imitar um comportamento, lógico, previsível e quase sem falha, não cabendo sutilezas emocionais e subjetividades.
Essa alimentação necessária e decisiva para a IA, pode nos levar a uma preguiça intelectual fatal para nossa forma de vida, pois passamos a confiar cegamente naquilo que recebemos como resposta de uma máquina que não tem uma neutralidade de ideias, muito menos ideologia ou vontade política, riscos de padronizar os humanos num nível hierárquico de pensamento, excluindo diversidades de pessoas, níveis de conhecimento, desenvolvimento social, de saúde e emocional.
Passa-se a tomar as respostas, como VERDADE, pois as máquinas não erram, a ciência, a tecnologia, carregam respostas TÉCNICAS precisas, não manipuláveis por ninguém. E ainda aparecem Deus ex machina e corrigem nossa ignorância sobre tudo e qualquer coisa, não sobrando lugar para dúvidas ou questionamentos, imaginemos, no limite, que para determinada questão formulada a resposta seja mat-se ou mate alguém? Qual freio teremos.
Por fim, não menos importante, é que vejo a tecnologia, seus avanços uma maneira de superar graves problemas humanos, dores, trabalhos repetitivos, morosos, cansativos, pesados. A IA pode ser uma aliada em pesquisas, em organizar estudos, corrigir trabalhos, mas ela não poder ser, do meu ponto de vista, o juízo moral de nossos dilemas, aquela que dará tudo aquilo que nunca tivemos, pois temos tudo aquilo de que mais precisamos:
O cérebro.
Dele as mãos e os movimentos, a consciência que nos distinguia das demais criaturas, as ideias, o conhecimento, uma utopia que, inclusive, pensou na IA, não o contrário. Como nos lembra, as palavras finais do Blade Runner:
– É uma pena que ele não viver. Mas que vai?