O epílogo é a parte mais dura de uma leitura.

Deparo-me com os velhos livros que cansei de ler, alguns por dezenas de vezes, como, por exemplo, Hamlet. Sempre sinto que o leio pela primeira vez, ainda que saiba de cabeça, página a página, as suas falas. O sentimento é de novidade nova, um surpreendente que assusta e impressiona, ainda hoje.
Faço algumas visitas para rememorar como eles chegam ao fim, naquele absurdo momento em que somos obrigados a fechar a última página, ler a última frase e cair em transe por tudo o que ficou. Há uma dor pelo fim, sem entender por que não se disse mais. Por mais perfeito que seja o todo e tudo o que foi escrito, nosso egoísmo e inconformismo pedem mais…
A lição moral de Hesíodo ao filho chega ao fim:
Às vezes um dia é madrasta, às vezes mãe.
Feliz quanto aos dias e próspero aquele que, isso tudo
sabendo, trabalhar sem ofender os deuses,
tomando às aves auspícios e evitando transgressões.
(Os Trabalhos e os Dias — Hesíodo)
O castigo de Creonte, o mau intérprete dos desejos dos deuses, provoca a morte não apenas de Antígona, mas de seu filho Hêmon:
A desmedida empáfia nas palavras
reverte em desmedidos golpes
contra os soberbos que, já na velhice,
aprendem, afinal, a prudência.
(Antígona — Sófocles)
Dante, guiado por Virgílio, vence os nove círculos do Inferno, preparando-se para uma nova jornada:
Depois da longa caminhada subimos, ele primeiro e eu atrás, passando por uma pequena abertura na pedra para, enfim, rever as estrelas. (Inferno — Dante)
Os dez jovens, livres da peste, retornam às suas casas depois de suas fantásticas e criativas histórias durante uma pandemia terrível:
E que as amáveis senhoras, com Sua graça, fiquem em paz e se lembrem de mim, se algum pouco lhes tiver valido a leitura destas novelas. (Decameron — Boccaccio)
Adão e Eva, expulsos do Paraíso, vão pelo mundo para gerar a humanidade:
Dando-se as mãos, os pais da humana prole,
Vagarosos lá vão com passo errante,
Afastando-se do Éden, solitários.
(Paraíso Perdido — John Milton)
O tormento do velho rei acaba. A generosa partilha não foi compreendida pelas filhas; ao contrário:
Do tempo triste somos os arrimos; digamos tão-somente o que sentimos. Muito o velho sofreu; mais desgraçada nossa velhice não será em nada. (Rei Lear — Shakespeare)
O Mouro Otelo, traído por seu subordinado mais próximo, Iago, e induzido ao ódio, perde tudo. Mata e morre; nada mais valia:
A vós compete, senhor governador, dar o castigo a este biltre infernal. Marcai o dia, o lugar e a tortura. Oh, rigorosa! De bordo escreverei para o senado, relatando tudo isto, angustiado. (Otelo — Shakespeare)
O amor juvenil, intenso, enganoso e fatal, não sobreviveu em vida, mas se eternizou e vive até hoje:
O sol, de luto, nem quer levantar.
Alguns terão perdão, outros castigo;
De tudo isso há muito o que falar.
Mais triste história nunca aconteceu
Que esta, de Julieta e seu Romeu.
(Romeu e Julieta — Shakespeare)
E na maior e mais sofisticada de todas as tragédias — aquela em que o personagem ganha autonomia, pensa, reflete, vacila, sonha, teme a vida, teme a morte e diz tudo sobre a nossa psique, nossos dilemas e dores mais íntimas —, Fortinbrás o eleva:
Levai os corpos.
Esta cena final
Convém mais ao campo de batalha. Aqui vai mal.
Ide! Que os soldados disparem.
(Hamlet — Shakespeare)
Cada um deles conta sobre o que somos e o que vivemos; eles nos matam e nos fazem viver através deles.