O Cearense se basta?


Fortaleza de mar e terra, amores e vida.

Na Beira-Mar, entre luzes que lhe escondem
Só sorrisos me respondem
Que eu me perco de você
(Beir-mar – Ednardo)

O título desse post não é apenas uma pergunta, ainda que haja uma interrogação, ele pode ser uma afirmação, uma autocrítica, uma crítica, sobre nós todos cearenses, de várias gerações, de várias trajetórias e de tantas perspectivas humanas, culturais, políticas e filosóficas, que vivemos ou que saímos e vivemos no Ceará.

Nascer no Ceará é uma dádiva, como também pode ser uma prisão.

Estou fora do Ceará há 33 anos, saí aos 20 anos, para vir a São Paulo, em 1989, com a convicção que em breve faríamos uma revolução proletária, e, São Paulo precisava de militantes políticos, de esquerda marxista, revolucionários, não petistas, pois estes já tinham optado pela administração do Kapital, sintetizando o que me motivou a migrar, além do fato de ter me apaixonado por São Paulo, em 1986, quando passei aqui uns dias, depois de um congresso.

Dito, isso, claro que não houve a revolução, muito pelo contrário, entre altos e baixo, o Capitalismo se mantém, com suas contradições, foi criando suas saídas internas para administrar suas crises cíclicas e estruturais.

Nesse sentindo, minha trajetória por essas bandas, foi de adaptação à várias realidades políticas e históricas. Trabalhei em várias cidades do Brasil quando começou a Telefonia Móvel-Celular, como também, fiquei por quase 6 meses no Japão, por oportunidades na vida conheci alguns países e convivi com várias culturas diferentes, por morar em São Paulo e ter trabalhado em grandes empresas de telecomunicações.

Saí do Ceará, sem jamais ter deixado de ser cearense, essa é a maior certeza que tenho sobre mim.

Nesses últimos anos, com a partida de meu pai (julho de 2016), a mudança de profissão, a necessidade de estar mais presente com minha mãe e, por fim, uma filha que morou por um ano em Fortaleza, voltei a frequentar a cidade com mais assiduidade e a perceber as suas mudanças, para permanecer a mesma, maior, mais ampla, mas com a mentalidade de décadas.

Numa época de rupturas e de redes sociais, que aproximam e afastam as pessoas, voltei a ter contatos mais diretos com amigos (as) da década de 1980, alguns, pela dinâmica da vida, nossas próprias mudanças de compreensão da vida e dos fenômenos, cuidou de abreviar contatos, e de outros estreitar, o que tem sido muito prazeroso e rico.

Na última vez que estive em Fortaleza, abril passado, tive uma noite numa roda de conversa com amigos, como Newton e Ecila, Assis e Leila, em que apresentei uma formulação, na verdade uma observação de quem está a tanto tempo longe do Ceará que é sobre a nossa “alma”, o ser Cearense.

O que penso é que nós nascemos num lugar muito forte e rico culturalmente, produzimos grandes escritores, poetas, artistas, comediantes, músicos, intelectuais, houve um claro crescimento econômico e de horizontes em Fortaleza, hoje a capital com o maior PIB do Nordeste, mesmo com todas as suas mazelas e contradições de uma sociedade majoritariamente pobre, mas não mais miserável como há 40 anos.

Nesse sentido, a mania de grandeza, de que tudo nosso do Ceará é maior do mundo ou melhor, por um lado reforçou essa “certeza”, por outra mão, não faz do Ceará um produto de exportação, de que ele possa ser um vetor nacional de criação, de ousadia política, e sempre me pergunto a razão, por quê?

De certa forma, a resposta está nesse sentimento de que nos bastamos, nós não precisamos nos mostrar para fora. Temos nossas praias, nossa cultura, empresas, nossos valores, quase um país à parte.

Vendo por outro ângulo, pode ser uma acomodação, uma certo medo de não brilhar, ou de não ser entendido, ou mesmo aceito. Por exemplo, Camilo Santana vez uma grande gestão no Ceará, grande administrador, mas que não buscou divulgar nacionalmente seus feitos, claro que pode ser a camisa de força da aliança com os Ferreiras Gomes, como pode ser por se “bastar”, ser um Senador a mais em Brasília.

Claro que há exceções, gente que saiu e brilhou intensamente, Chico Anísio (bem antes), Belchior, Ednardo, Fagner, Tom Cavalcante, recentemente, Halder Gomes e na política Ciro Gomes e sua verborreia, são exemplos de quem saiu de lá e se impôs nacionalmente, mas sem a mesma repercussão de outras escolas e regiões.

Ainda sobre essa globalização violenta, há um certo conforto em se apegar ao seu torrão local, ter uma referência clara de ter sua oca, principalmente se ela pode ser universal, tem peso, ainda que restrito, é uma segurança intelectual, forte e de sobrevivência/resistência.

Mas será que ser cearense nos basta?

Viva o som, velocidade
Forte praia, minha cidade
Só o meu grito nega aos quatro ventos
A verdade que eu não quero ver

 

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Share this on WhatsAppQueridos amigos, queridas amigas, amigxs e tudo mais. Infelizmente deu Positivo, não tinha como dar Negativo, era evidente demais, era uma conspiração perfeita. Todos os sintomas: Dor

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