O Agente Secreto: Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, um encontro genial no filme vencedor.

A dupla vitória no Golden Globe de O Agente Secreto (melhor filme em língua não inglesa) e de Wagner Moura, melhor ator de drama, repetindo Fernanda Torres, é algo grandioso para o Brasil, um feito para história. A trajetória de O Agente Secreto desde o Festival de Cannes é algo extraordinário e reconhecimento de um filme forte, dolorido e que resgata a memória e traumas, os prêmios darão maior visibilidade ao cinema nacional e sua narrativa original para o mundo, no mesmo momento em que o Brasil resistiu ao tarifaço de Trump, há um sincronismo interessante para o momento mundial.
O alerta central do filme é de que não se pode esquecer os monstros, os ditadores e seus canalhas que hoje se fazem de tontos, vendendo uma época cruel, como se tivesse sido boa. Aliás, o discurso do Kleber Mendonça filho de que é preciso contar a história do que vivemos hoje, um apelo aos jovens cineasta e que é crucial para o mundo, dominado pela extrema-direita obscurantista, negacionista e que tem seu ápice em Donald Trump, rompendo definitivamente qualquer perspectiva civilizatória, a Arte precisa resistir.
Wagner Moura retoma a potente fala de Kleber e dar a dimensão dessa resistência: Memória e Traumas. É necessário lutar contra o esquecimento (o negacionismo) e ao mesmo tempo enfrentar os traumas das sociedades autoritárias, quando não se combate, eles voltam mais forte e mais mentirosos, enganadores, sem nenhuma sutileza, isso se deu no Brasil após o Golpe e no governo genocida de Bolsonaro, das 715 mil mortes, boa parte dela fruto da irresponsabilidade e do desdém com a COVID-19, em seu último suspiro, a tentativa de um novo Golpe e agora com a farsa da Anistia aos golpistas.
A vitoriosa carreira de Wagner Moura, tanto no Brasil, quanto no mundo é um exemplo de que o Brasil e os brasileiros são criativos, talentosos, a nossa música já dizia isso, outras artes são possibilidades, literatura, artes plásticas e o cinema que vai e volta. Wagner Moura constrói uma história consistente, sem ser o estereótipo do latino, do “diferente” convidado para animar os salões estabelecidos de Hollywood, ou outros.
O cineasta Kleber Mendonça filho é um artesão, o seu cinema parece uma obra em em construção. O Agente Secreto é um momento especial, mas parece resultado, não inauguração de um novo Kleber. Ele vem da sua trajetória e parece uma colagem linda de seus filmes anteriores.
Aquarius é tocante demais e conta uma resistência individual e de suas lições. Bacurau é uma experimentação de sociedade disruptiva, realismo fantástico. Retratos Fantasma é a razão do cinema, de como nós vimos a primeira vez, seus personagens que grudam na memória afetiva e eletiva. O Agente Secreto é uma fusão de todos eles, mas com dimensão nacional e universal, traz o debate sobre Poder, Ditadura, a autoridade boçal que massacra as pequenas histórias de resistência (como Aquarius) agora coletiva. O mundo Bacurau é trazido para a capital (perna cabeluda), o cinema homenageado mais uma vez e é muito lindo, ver o desenrolar dentro do Cine São Luiz.
Mais, O Agente Secreto é um filme nordestino raiz, uma história de Recife e que é universal, feita em casa, reconstrução maravilhosa de época e uma declaração de amor ao cinema, o Diretor é de Pernambuco, o Ator principal é da Bahia, o elenco composto por cearenses, pernambucanos, potiguares, paraibanos. os coadjuvante são sudestinos. É uma homenagem ao nordeste que é um dos pontos de maior resistência da democracia no Brasil, em pelo menos 20 anos.
O que nos parece ser onde o Brasil é mais brasileiro!
PS: Pessoalmente, a identidade com o filme se completou recentemente quando voltei ao Cine São Luiz (de Fortaleza) e vi o documentário do Felipe Barroso sobre Maria Luiza Fontenelle, a primeira prefeita do PT numa capital.