Minha Jornada: O eterno agradecimento à Escola Técnica Federal do Ceará.


Posse do Grêmio Livre “Montenegro Lima” da ETFCE, preside a primeira gestão, a da reconstrução depois da Ditadura.

Na minha jornada de vida, desde muito cedo, por necessidade, tive que optar por uma carreira técnica para entrar na principal escola pública de Fortaleza, a Escola Técnica Federal do Ceará (ETFCE) (hoje IFCE), a fama de excelência e formação de jovens para o mercado de trabalho, atraíam milhares de jovens, especialmente, da periferia da cidade.

Passar no vestibular da ETFCE era o passaporte para ter uma formação técnica e geral de grande qualidade, que podia resultar numa profissão, como também servia para ter um ensino médio que permitisse competir com os filhos da classe média na futura concorrência para a Universidade Federal ou Estadual, as duas únicas universidades públicas do estado, até então.

Entrei no segundo exame, julho de 1984, curso de Telecomunicações, na época o curso mais procurado da ETFCE. Foi um tremendo acerto.

Por coincidências da vida, meus dois últimos anos do ensino fundamental, já morando em Fortaleza, tinha sido numa escola particular, com bolsa. no Colégio Oliveira Paiva cujo proprietário era deputado estadual, Barros Pinho (MDB), progressista e tinha entre seus professores, muitos que tinham sido perseguidos pela ditadura, ali encontraram proteção e oportunidade de sobrevivência.

O ambiente ali era bem politizado, entre 82 e 83, tive meus primeiros contatos com a esquerda, congresso dos estudantes secundaristas, debates e professores que falavam sobre política, sobre o leste europeu, sobre cultura e sobre a  realidade brasileira. Para aquele garoto, vindo do interior, morando na periferia de Fortaleza, foi encantador, alguma coisa começava a fazer sentido.

Ao entrar na ETFCE, a militância política foi algo natural, a grande liberdade do sistema de funcionamento da instituição, estimulava a responsabilidade de frequentar as aulas, não por imposição, isso foi fundamental para conhecer outras possibilidades de vida, inclusive quando faltava as aulas.

Estudar na ETFCE significava não onerar o orçamento de casa, dos 5 filhos, meu irmão trabalhava e os estudos eram pagos pela empresa, eu numa escola pública, ajudamos nossos país, também nesse aspecto. A liberdade que tinha na ETFCE era a mesma de casa, meu pai era extremamente pragmático: “os estudos darão melhores oportunidades a vocês, quem quiser, aproveita, mas se não quer estudar, tem que trabalhar”. Simples assim.

A participação no movimento estudantil e a adaptação ao ensino exigente da ETFCE, tiveram um preço duro no início, perdi cadeiras, o que acabou sendo uma forma de amadurecimento, aprendi muitas outras coisas, muito além da área técnica, os grupos de estudos e as leituras de literatura marxista, filosofia, economia, ciência política, cultura e artes.

A ETFCE foi a base de todo meu conhecimento técnico e humano, as oportunidades que tive na vida, imediatamente ao concluir o curso de Telecomunicações, na cara e na coragem, vim para São Paulo, absolutamente sem dinheiro, consegui emprego, mas como era para iniciar uns 15 dias depois, foi uma dificuldade para sobreviver aquele período.

À formação técnica alinhei com os conhecimentos de lógica, de capacidade de análise, o que muito me ajudou a rapidamente assumir posições de responsabilidades e de evolução dentro da rígida empresa japonesa. Estive nos lugares certos, nas horas certas, o surgimento da telefonia celular, as oportunidades de morar em várias cidades, a experiência no Japão, tudo isso devo muito à minha escola, aos meus mestres e aos meus amigos.

A militância política, clandestina no início, pois em grande empresa não se sobrevive sendo de esquerda abertamente, só foi possível, sem falsa modéstia, pelas minhas habilidades técnicas, conhecimento e capacidade de trabalho.

É uma parte importante de minha vida.

3 thoughts on “Minha Jornada: O eterno agradecimento à Escola Técnica Federal do Ceará.”

  1. Que bela história Arnóbio! Fiz parte dessa história também como aluno, um pouco parecida com seu contexto também, e depois, como professor, agora fazendo 35 anos de trabalho em sala de aula.

  2. Grande camarada Arnóbio, fui seu colega de turma e compartilho do seu sentimento de eterna gratidão a essa instituição. Grande abraço.

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