O belo e denso documentário, Prefeita.

O documentário PREFEITA, de Felipe Barroso, sobre a eleição e gestão de Maria Luíza, é absolutamente necessário para história da Esquerda brasileira, das mulheres, do povo cearense e da cidade de Fortaleza. Exatamente 40 anos depois da mais surpreendente vitória eleitoral do Brasil, nada indicava que pudesse haver uma virada de uma eleição ganha por Paes de Andrade e/ou Lúcio Alcântara, os dois nomes da burguesia local.
O documentário traz ao debate político duas questões fundamentais: As Eleições e a Gestão. Apresentada em ordem invertida, foi fundamental para envolver quem assiste, para não se render às lágrimas, como a própria Maria, que estava no banco à frente do meu, que sorte, a minha. Dessa forma como o filme traz, pode, assim, se captar a densidade das lições históricas que ainda são inconclusas na Esquerda cearense e brasileira.
A gestão da quinta maior cidade do Brasil, já naquela metade dos anos 80, a primeira eleição para as capitais, o país mergulhado na crise econômica por conta da dívida externa, com inflação galopante, falência completa da ditadura, dirigida por um idiota, o General Figueiredo, que preferia “o cheiro dos cavalos, ao do povo”, saído de uma eleição indireta presidencial, cujo eleito morreu antes de assumir Tancredo Neves, dando lugar ao ex-líder da Arena, José Sarney.
Essa falência econômica e política, com o agravante de que as prefeituras não tinham orçamentos definidos, dependiam das verbas dos governos estaduais e do governo federal, a situação da gestão de Maria Luíza teria enormes dificuldades para prosperar, isso é evidente nos longos e contraditórios depoimentos de José Genoíno e Jorge Paiva (uma espécie de guru da prefeita), ambos dirigiam o grupo político em que Maria Luíza militava na clandestinidade, que se rompeu no dia da posse.
Soma-se a esse cenário, a inexperiência política e administrativa do PT, que no caso era quase um biombo, dessa luta intestina das duas tendências, PRC (Partido Revolucionário Comunista) e PRO (Partido da Revolução Operária), assim como da esquerda no governo, com todas as mazelas externas (administrativa) era tragado pela luta interna. Jorge Paiva diz que o governo era um caos porque se alimentou dos movimentos sociais, mas a máquina do Estado impedia atender as demandas. Por outro lado, Genoíno opina de que o governo poderia ser de acúmulo de forças, não apenas de enfrentamento.
O sectarismo geral e irrestrito foi uma marca da gestão, a luta entre os grupos, ainda de reflete nas falas acusatórias ao PT no documentário, mais, hoje ainda há pouca capacidade de reflexão crítica, autocrítica, de prática e métodos do grupo que comandou a prefeitura e as ações de Maria Luíza, quase sempre de forma unilateral, as conclusões negativas de Jorge Paiva, diz muito sobre uma concepção messiânica e longe do marxismo.
Aliás, essa vertentes continuam vivas, em outro patamar, nos governo Lula e Dilma, agora Lula III, as tensões no PT (plenamente adaptado ao Estado/Governo) e em menor grau com o PSOL (longe da radicalidade do PRO), mas que traz, em essência, os debates sobre os limites das administrações, ainda que se consiga avanços sociais, com um mundo ainda mais complexo, sob hegemonia da extrema-direita.
Aqueles debates em que tomamos parte nos anos 80, refletiam séculos de luta de classes, de rupturas, sobre o Estado burguês, sobre a Democracia burguesa e ausência de correntes ideológicas com capacidade de influência de massas e de transformação, por dentro e por fora da máquina burocrática do Estado. De certa forma, o PT se estabeleceu e segue dominante nessa frágil institucionalidade burguesa mundial, diante da hegemonia política da extrema-direita, parece até radical.
A outra parte do documentário é absurdamente sentimental, pois trata da extraordinária campanha popular da deputado estadual Maria Luíza que é dissecada com imagens, com depoimentos e personagens que fizeram história, sem saber que faziam história, os organizadores, os “marqueteiros”, a incrível convicção que Maria demonstrava em casa comício, lembro de um no bairro da periferia em que eu morava, José Walter, ela em cima de um caminhão discursando para poucas pessoas, mas dizia: “Nós vamos nos eleger”, isso me impactou profundamente, ela perdeu as sandálias no palco improvisado, eu levei para minha casa.
A campanha de Maria é um caso raro de rebelião silenciosa de uma cidade, os números das pesquisas eleitorais, mostrava o candidato do PMDB, Paes de Andrade com quase 50% dos votos e o do PFL, Lúcio Alcantra com mais de 30%, no melhor cenário, Maria aparecia com 5% das intenções, o que era uma evidente mentira, a cidade pulsava pela quase mambembe campanha, cheia de bom humor, de ideias e de radicalidade. Ao fim, Maria teve 36%, Paes, 30% e Lúcio, 24%, não havia segundo turno.
As imagens das ruas, no dia das eleições, o povo cercou o ginásio Paulo Sarasate, onde se contou os votos, não dando chance de que se fraudassem os resultados. A virada ainda na primeira parte da contagem, depois a carreata sem fim pela cidade, termina de forma apoteótica no Teatro José de Alencar, é para chorar muito, remontar imagens, sons, depoimentos, energia de uma época, um trabalho imenso de Felipe Barroso, um documentário para enriquecer a história da esquerda brasileira.
Maria Luíza continua encantadora, viva, plena, o peso da idade não lhe tirou o brilho, a energia, nada diminuí sua enorme importância política para todos nós, entendendo criticamente o que se fez, foi grande, intenso, não olhemos pela lógica burguesa do sucesso, mas pelo grau de humanidade e amor ao nosso povo, a luta do cearense contra sua sina.
Obrigado, Maria Luíza!