Crise Dois Ponto Zero – O Estado Gotham City

 

Novo Estado, só sobrou a Força? Foto: REUTERS/Susana Vera


Os Velhos Estados e as Crises

 

Desde o início da série sobre a Crise 2.0, que escrevi no nosso Blog, procurei levar ao espaço virtual os principais debates sobre as ações dos vários atores envolvidos na Crise, as visões das saídas e soluções para economia mundial. Acompanhei de forma sistematicamente as declarações e discursos dos principais líderes políticos ou economistas, assim como busquei ouvir o que dizem os líderes oposicionistas, dos trabalhadores aos eventos enfrentados. Procurando entender qual a dinâmica da luta de classes, neste momento agudo, em que se abrem tantas possibilidades de saídas não clássicas, inclusive, a revolução.

Com este método, esta série, não apenas elenca os fatos, os eventos, noticiando-os, mas também rascunha teses e opiniões sobre os diversos cenários que foram surgindo nestes 20 meses de trabalho. Umas das conclusões centrais, a que cheguei, foi a mutação do Estado, parte delas foi um insigth conjunto com Sergio Rauber, no limite identificamos que os elementos desta mutação, no leste veio com a Perestroika, que varreu os regimes daquelas formações políticas. Entretanto, os eventos da Crise de 2005/2007, com a queda do muro de Wall Street, o novo “Estado” se impõe aos EUA e UE. A América Latina, já havia passado por este ajuste nos anos 80/90.

A Burguesia Revolucionária

No Século XVIII a burguesia revolucionária fez a Revolução Francesa para enterrar de vez o Estado Feudal, absolutista, centrado na figura do Rei, não que ela não quisesse um poder centralizado, mas apenas não que defendesse ainda os antigos interesses feudais. A Inglaterra já fizera sua Revolução Burguesa bem antes preservando seu “trono”, tirando deste o poder determinante. A colônia inglesa (parte francesa e espanhola) também fizera sua revolução. O que havia de comum? A busca de um novo Estado, mais ainda de novo sistema econômico que suplantasse as formas feudais de economia.

Feita a Revolução, nos principais centros do mundo, o Século XIX, nasce sob a égide completa do Capital, a conquista do Poder Político, consequência do Poder Econômico que já era predominante, a burguesia então se volta a moldar seu Estado, definir suas fronteiras, a construção de nações e destas um novo mundo.

Internamente, o novo sistema já traz a dualidade da luta de classes intrínseca: Capital X Trabalho. A incipiente classe operária ainda não madura e sofre sob a força bruta dos burgueses. Submetidos a longas jornadas, com salários que mal dar para se reproduzir, não havia ainda leis ou organizações sindicais com força para defendê-los e organizá-los. Nem assim as Crises deixavam de acontecer. Esta vinha com uma periocidade bem definida, tendo seu maior vetor às crises de escassez, em particular as de produção agrícola. O que levou Malthus a elaborar a fórmula de que o capitalismo poderia ruir por escassez.

Marx afasta de sua análise a questão da “crise de subconsumo”, ou crise de escassez, sendo a última a de 1846, que na verdade é produto da praga nas plantações de batatas e cerais que atingiu a Inglaterra em 1844, tendo péssimas colheitas nos anos seguintes. A fome e miséria nos anos seguintes culminam com a Comuna de Paris. Por volta de 1861 esta separação entre crise agrícola e crise capitalista como um todo, em especial na industria têxtil, que era o motor da economia mundial. Desde então as crises são associadas a Super Produção de Capital, sendo o marco definitivo 1871, em que os preços agrícolas não influenciam mais nas crises têxteis.

A primeira grande depressão do Capitalismo se deu entre 1873 e 1895, mesmo com alguns anos de crescimento, esta violenta crise atingiu toda Europa e Eua. A origem dela remonta a guerra de 1871 entre França e Alemanha, nas palavras de Martins e Coggiola:“A crise originou-se na Áustria e Alemanha, países que experimentavam um intenso desenvolvimento industrial devido, em parte, às indenizações pagas pela França em virtude da guerra de 1871. Também o Estados Unidos sofreu mais violentamente seu impacto. Os altos dividendos da indústria alemã incrementaram a especulação, que se alastrou para as ferrovias e imóveis beneficiadas pela grande oferta de crédito. Subitamente, porém, os custos aumentaram e a rentabilidade começou a cair.Inicialmente a crise foi financeira e estourou em Viena, com a quebra da bolsa de valores, seguida de falências de bancos de financiamento austríacos, alemães e norte-americanos. No Estados Unidos, a depressão esteve ligada à crise da especulação ferroviária. A simultaneidade na aparição de dificuldades, tanto de um lado como de outro da Mancha e do Atlântico, ilustra a integração das economias industriais em matéria comercial e mais ainda em matéria de movimentos de capitais”.(…)“A crise abriu espaço para a crescente monopolização das economias nacionais e permitiu a intensificação da expansão imperialista, acirrando a tensão entre as grandes potências capitalistas”.

Imperialismo e Revolução

Aqui se prepara um Novo Estado, que será amplamente objeto de analise de Lênin no seu “Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo”. O Estado se fortifica não apenas militarmente, mas no conjunto de instituições montadas para dar suporte à nova realidade do Capital. A Classe operária já era madura e forte, tendo enfrentado com greve o Capital. Construção de sindicatos e partidos de classe.

A guerra imperialista de 1914 eclodiu na Europa numa feroz disputa pelo mercado e territórios, a guerra é expressão última do imperialismo. As forças estatais são concentrada na industria de guerra, uma nova industria ou uma nova revolução industrial impulsionada pela metalurgia, máquinas operando a potência de energia, carvão, petróleo, muda radicalmente o mundo.

A Revolução Russa, o elo mais frágil do Imperialismo, abriu uma possibilidade histórica, aqueles abnegados revolucionários tomaram o poder e derrubaram a burguesia. Um país cheio de contradições que convivia no campo com relações econômicas feudais. A própria classe operária era minoritária no país, além do que, durante a guerra e na defesa da revolução parte dela foi dizimada. Diante deste caos econômico e social, em 1921, Lênin propõe a NEP, que é essência é o Capitalismo de Estado, sem burguesia. Aqui pode estar à chave da burocracia, ou até explicar a China atual.

No “mundo livre”, pós-guerra trouxe uma profunda desagregação, a Alemanha foi praticamente destruída, pagando um preço caríssimo pela guerra, mas na verdade a própria ideia de domínio do mundo ainda estava no ar. A segunda grande Depressão acontece neste momento, dos EUA que já apontava como a maior economia mundial, começa uma violenta queda da bolsa e quebra de empresas. Durante 4 longos anos a economia mundial fica à deriva, a solução encontrada, foram as testes de Keynes, que apostava na intervenção do Estado como regulador das Crises. Se olharmos os dois lados (URSS e EUA) vão gestar um Estado de bem-estar social, com profunda intervenção na Economia.

I – Pós-Guerra: Estado de Bem Estar Social

O motor da guerra fria

No pós Guerra várias economias centrais (EUA, Japão, Europa Ocidental) impulsionaram seus estados nacionais com ampla distribuição de renda e atendimento das principais necessidades básicas dos trabalhadores como saúde, educação previdência, aumento da expectativa de vida. Todas estas garantias foram feitas por estados nacionais fortes, que participaram intensamente das atividades da economia, centralizando o planejamento e sendo o principal indutor desta, visão de Keynes era vencedora no mundo.

Muitos economistas consideram os anos 60 e parte dos 70, os anos dourados da economia mundial, larga expansão, crescimento e mundialização do comércio. Estes anos apagaram em parte a maior catástrofe da humanidade, a Segunda Guerra Mundial. Neste contexto os EUA tomam para si a referência de crédito e dinamizador do crescimento. Garantia crédito e ao mesmo tempo comprar o que se produzia, mesmo que significasse enormes déficits comerciais. Porém garantia para si as rédeas econômicas e combatia o “comunismo”.

Crise do petróleo – fim do padrão Ouro

A famosa Crise do petróleo, de 1974, na verdade já se gestava desde 68, 69, os números de horas trabalhadas, produtividade e lucro, mostravam o ápice da superprodução. O momento da crise não foi em 1974, mas bem antes, o que se via, em 1974, já eram os efeitos da crise, que em regra é queima de forças produtivas, de capital, para que a taxa de lucro se recomponha.

Ainda antes de 1974, ou ápice da crise, Nixon, então presidente dos Estados Unidos, suspendeu unilateralmente o sistema de Bretton Woods, cancelando a conversibilidade direta do dólar em ouro. Todo os sistema de planificação monetária e conversibilidade usado no pós-guerra, que impulsionou a integração das economias ocidentais veio abaixo, seu sistema de pagamentos baseado no ouro.

O repique daquela crise se deu em 1981/82, com o início do Governo Reagan e se expressou na questão das dívidas dos países então chamados de “terceiro mundo”. Estes países haviam recebido grandes investimentos de Capital desde o fim dos anos 60/70 e a “conta” efetivamente foram cobradas pelo FMI e Clube de Paris no início dos anos 80. Aquele novo ciclo efetivamente se abre em 1983 com a maior revolução do Capital, que ajudou varrer o leste: A revolução da microeletrônica. O novo ciclo do Capital iniciado em meados dos anos 80, liderados mais uma vez pelos EUA, foi engrossado pela queda do Muro e o fim da Ex-URSS.

Em síntese: A dura crise do petróleo nos anos setenta combinado com as das dívidas externas no início dos anos 80 põem em xeque o estado de bem estar social (Welfare State) surgido do pós-guerra como contraponto ao leste europeu.

II- Neoliberalismo

Um retrato de uma época, nada gloriosa

A virada política começa com as vitórias de Reagan e Tatcher, estes impõe um duro ajuste econômico com privatizações e restrição do crédito “fácil” o que levou em 82/83 a grave crise das dívidas externas do terceiro mundo (Brasil, México e Argentina no default).

A ofensiva ideológica imposta neoliberal foi de tal monta que não havia qualquer possibilidade de “tatear” um contexto de ação econômica ou política fora desta ordem. Combateram sangrentamente as rebeliões na América Latina, como em El Salvador e Nicarágua. Usaram de qualquer método político-militar para impedir e sufocar revoluções e governos de esquerda.

Enfrentaram a antiga URSS e os países do leste europeu de forma decidida, derrotando-os impiedosamente com a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da Rússia. Mesmo governos claramente identificados com políticas de esquerda sucumbiram ao marasmo deste Tsunami interminável.

Nunca uma ideologia capitalista perdurou tanto como esta Neoliberal, que teve seu inicio com a derrota dos mineiros ingleses no Governo Thatcher, amplificado por 8 anos Reagan, que culminou com a queda do muro de Berlim, 30 anos ao todo,sendo os últimos 19 anos(89 a 2008) sem qualquer combate global ideológico.

Particularmente a defensiva política pela qual passamos com a queda do muro de Berlim, desarmou a esquerda ideológica que foi reduzida a pequenos círculos sem efetivo contato e produção política que oferecesse qualquer combate sistemático e global ao neoliberalismo. Em todos os campos sociais e políticos. A situação ficou tão ruim que Francis Fukuyama chegou a prever o fim da “história”.

Império Único, Senhor do Mundo e das Guerras

1)   Reagan e a vitória neoliberal

O ciclo neoliberal mais forte e ideológico americano deu-se durante o duro governo Reagan, que foi amplamente vitorioso na luta ideológico ao império soviético, como diz  Macbeth depois das revelações das bruxas “tudo que nos parecia sólido sumiu ao vento como nossos anelos”.

Reagan conseguiu eleger seu vice, Bush Pai, respaldado pela vitória anti-comunista, sem inimigos claros no mundo. A base da economia americana no pós-guerra era a indústria bélica, bilhões de orçamento público era gasto para deter o inimigo vermelho, com seu fim ela em si perderia a razão lógica de existir. Se não havia contraponto no mundo para que manter algo surreal como ela?

Ledo engano, a pretexto de proteger suas posições no Golfo Pérsico, em 1991, Bush invadi o Iraque, seus leiais aliados de combate anti-iraniano. A mal sucedida invasão, do ponto de vista militar, pois não derrubou Sadam Hussein, reanimou a economia, não o suficiente para garantir um segundo mandato a Bush.

2)  Clinton e os anos dourados do neoliberalismo

Uma surpresa total para EUA foi a vitória de Clinton, ex-governador de Arkansas, estado pequeno e secundário nos EUA. Com uma trajetória de militância política em causas sociais, Clinton chega a Casa Branca e lidera por 8 longos anos um dos maiores crescimentos da economia americana, sem que houvesse um grande conflito externo. Favorecido pela liderança única americana no cenário mundial impôs uma política de expansão das empresas e influência americana baseada no dólar e no mercado financeiro.

Caminhava para garantir um terceiro mandato com Al Gore, seu vice, mas foi atingindo pelos escândalos sexuais, a direita americana pudica até uma tentativa de impedimento cogitou, safando-se por muito pouco. Esta perda de confiança fez com que não tivesse a coragem suficiente de enfrentar a fraude da família Bush na Flórida.

3)  Bush Jr a volta dos senhores da guerra

O episódio de vencer, sem ganhar, levou a uma mudança completa de atitude do Governo Americano, que experimentou uma defensiva externa, questionamento e foi atacado pela primeira vez em seu solo. Os episódios do 11 de Setembro de 2001 foi uma dura resposta tardia a presença americana no oriente médio.

Novo recrudescimento interno e externo deu uma nova guerra ao Iraque a família Bush, detentora de petróleo e amplamente financiada pelos lobbies da indústria bélica. O medo extremo imposto ao estilo de vida americano deu ao Bush Filho seu segundo mandato. Este, porém foi um fiasco total, atolados numa guerra sem saída, a economia sem responder, foram 4 anos penosos, um novo “inimigo” crescendo silenciosamente(China) a financiar seu crescente déficit fiscal, culmina com um novo quase 11 de Setembro, 15/09, a quebra de todo o sistema financeiro americano.

4)  Obama, o herdeiro do império

Obama surge do nada, ganha da favorita Hillary a indicação do Partido Democrata. Uma hipótese pouco cogitada leva um negro à presidência. Vitória de um outsider total. Sem um pé na máquina partidária, dominada pelos Clintons, Obama faz um acordo cruel, entrega a Secretária de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary.

Enfrentando uma crise sem precedentes, Obama mais ou menos dividiu seu Governo em dois, no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. No front externo entregue a Hillary e os falcões mais reacionários, como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitada pelos crescentes conflitos advindo da ampla crise financeira mundial.

A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela Direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã, mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende a demanda da indústria bélica, do setor petrolífero, do militares e dos falcões de Israel.

III – Queda do Neoliberalismo – A grande Crise

Neste meio tempo, uma guerra ao Iraque, pequenas guerras na África, ajudaram a azeitar a colossal indústria bélica americana. Nos anos 90 há a incorporação definitiva da China, com seu modo de produção peculiar, Capitalista de Estado, dirigida por uma burocracia estatal violenta. A chegada e a integração da China ao capitalismo central deu fôlego vital ao Capital, pois fez entrar amplas massas no processo produtivo global, mas fundamentalmente ainda, ajudou a definir novos padrões produtivos e incrementar a taxa de lucro do Capital.

As milhares de empresas que aportaram na China, capital fundamentalmente dos EUA, em primeiro lugar, transformam o panorama global do processo de acumulação/circulação capitalista. O apogeu deste movimento se dar nos anos 2000. Em paralelo a este movimento, a indústria bélica americana, um dos carros chefe do Capital, consegue duas lucrativas guerras: Iraque e Afeganistão, que ajuda a consumir, apenas nestas guerras, mais 1,5 trilhões de dólares. Além de um orçamento anual crescente que apenas de 2001 à 2010 chegou aos 6 trilhões de dólares. Esta esfuziante marca é acompanhada do aprimoramento das Telecomunicações, Internet e fundamental o controle político e ideológico mundial.

A “Nuvem” que atingiu em títulos algo como 8 vezes o total do PIB mundial algo em torno de 430 trilhões de Dólares contra 46 trilhões de PIB, teve papel fundamental na imposição de uma nova realidade de relações econômicas mundiais. A rapidez com o Capital vai de país a país, impondo seus desejos de lucros transforma o estado/nação em mero intermediário do Capital global.

Mas atentem bem que quando irrompe a Crise em 2008, esta “Nuvem” controlada fundamentalmente por grandes bancos, como Goldman Sachs, HSBC, Mitsubishi, BNP Paribas, UBS e outros, passou por grandes fusões e quebras impressionantes como Lehman Brothers, a seguradora AIG e muitos outros que trabalhavam com taxas de alavancagem de até 40 vezes sobre seu patrimônio líquido.

  

 

A Gênese do O Estado Gotham City

 

O Novo Estado, mais do que uma metáfora

Assistindo ao último filme da trilogia do Batman, o Cavaleiro das Trevas, percebe-se que a visão ultraliberal do roteiro de Miller coincide com a visão da Direita radical dos Estados Unidos, que se mostrou recentemente no Tea Party, o Estado é “inimigo” do povo, serve apenas para manter uma burocracia corrupta e falida. O heroísmo individualista, que pune os corruptos, não os levando ao julgamento legal, ou tribunais, no limite, os elimina fisicamente. A inspiração da “Liga das Sombras”, ainda mais radical que propõe a limpeza total e ampla de Gotham City(EUA), como se fosse purificar a humanidade, de tão corrupta e decadente civilização. A doutrina do império, mesmo com seu liberalismo exacerbado não tolera os radicais, ainda que coincida o diagnóstico de que Gotham e a civilização precise de uma limpeza.

O Batman é a expressão de um estado de exceção, a Lei Dent, equivale ao Patriot Act 1, que regeu os EUA pós a queda das torres gêmeas, todas as garantias individuais estavam suspensas, o aparelho estatal visível nos filmes coincide também com a do império, só se enxerga a polícia e o poder coercitivo do Estado. As fundações privadas comandam as redes sociais de proteção, não o Estado, a Fundação Wayne sustenta hospitais, escolas e creches. A prisão de Blackgate pode ser a mesma de Guatánamo, os presos tanto numa como em outra estão sujeitos ao regime de exceção, não cabendo progressão de pena, revisão, ou qualquer prerrogativa de Direitos Humanos.

A metáfora vai mais fundo, se no segundo episódio o caos total assombrou Gotham, assim como as queda das torres gêmeas assustou Nova York, o hiato de 7 ou 8 anos de uma aparente “paz” forçada pela lei Dent/Act 1, só terminará simbolicamente com a queda da bolsa de valores, a quebra dos bancos alimentadas pela ampla especulação, ou no filme a invasão direta, com transferências de valores, da maior empresa: Wayne Enterprise. A arte imita a vida, o herói é novamente chamado, para evitar a queda total. A leitura do conflito é bem definida, o poder do capital, também pode destruí-lo.

Poucas vezes um filme de ação, aventura conseguiu ser tão instrutivo. Bane, o anti-herói toma o poder em nome do povo, uma caricatura de “socialista” ou dos “Occupys”. Todos são convidados a tomarem o poder, mas ali, na visão tipicamente de criar um caos, uma barbárie, com tribunais de exceção com um louco, Crane, como juiz supremo, a condenação se dá em segundos, morte ou morte, pois o exílio é o caminho da morte.  A bomba de Neutro, apocalíptica é armada. Nada ou ninguém será capaz de desmontar, a redenção de Gotham/Nova York, é certa, nem que seja pela sua destruição completa.

 

Os vetores visíveis deste “Novo” Estado, boa parte dele gestado pelo neoliberalismo, são: o fim do conceito do Estado de Bem estar social, ou sua redução ao mínimo possível. Segundo, a ampla privatização, com o fim da intervenção direta do Estado na Economia. Terceiro, a Educação, Cultura e Saúde perde cada vez mais seu caráter de obrigação pública e gratuita, passam a ser geridos por entes privados. O que sobrou ao novo estado é gerir as forças repressivas, aplicação de leis restritivas, quebra de direitos fundamentais, naquilo que estamos chamando de Estado Gotham City.

O Estado, que surge desta crise, começou a ser gestado nos anos 80, e teve na queda do muro de Berlim, seu maior ganho. Desde ali, não mais preocupado em atender as demandas sociais, ou fazer contraponto, ao leste europeu, sem estas obrigações amplas, a diminuição dele, o corte das garantias, virou a obsessão do Capital. A redefinição do papel do Estado, seu tamanho, alcance, foi paulatinamente sendo trabalhado, tanto do ponto de vista econômico, como político, mais ainda sobre o aspecto ideológico.

A própria retomada de um novo ciclo do Capital, nos parece, que depende vitalmente da implementação deste novo Estado, os governos seriam meros apêndices dos grandes bancos e grandes empresas, presidentes, primeiros ministros se comportam como executivos de corporações, em muitos casos, ao saírem dos governos vão efetivamente trabalhas nelas.  A forma de representação entra em contradição com a democracia representativa, o que em muitos lugares o próprio conceito de democracia começa a ser questionada, a força e repressão como opção principal, ou a aprovação de leis como Patriot Act Nº 1, ou as leis de imigração na França, dão o teor deste momento.

O Estado é capturado por agências e burocratas que não respondem aos anseios populares, pois não passam e não quer passar pelo crivo popular, os casos mais esdrúxulos são os do EUA em que o Presidente do FED, sem mandato popular é quem define o futuro do país, o Presidente Obama, efetivamente, não tem como intervir nos destinos econômicos, a modelagem do Estado não lhe permite margem de manobra. Até a indústria armamentista, de composição majoritária estatal, foi “terceirizado”, o controle do processo é do Estado, por óbvio, não se perde a força maior, da coerção e ameaça. Algumas agências, aqui no Brasil, criadas na gestão tucanas, desafiam o ordenamento jurídico, legislando sem mandato. O problema é que o Brasil, a exemplo da UE, não tem o tipo de Constituição como os EUA que permite a “livre” ação destes burocratas.

Os ataques aos direitos sociais, consagrados nas constituições de vários países da UE é o centro do conflito deste novo modelo de Estado, Portugal, Espanha, Grécia enfrentam esta grave crise com medidas que são afrontas à suas Leis maiores. As supremas cortes viraram o último recurso contras várias destas medidas, em Portugal, por exemplo, o governo suspendeu o 13º e 14º salários, devido a exigência da Troika de economia de gastos, a corte suprema condenou o governo a pagar, mas efetivamente não houve o cumprimento.

Os recentes aumentos de impostos em Portugal e na Espanha, países amplamente penalizados com os cortes levou milhões de pessoas às ruas contra os planos de austeridades, este parece ser o único caminho para limitar a ação dos governos fantoches, executivos das corporações, sem o menor apelo popular. Nos países centrais o desmonte se deu de forma mais lenta, principalmente na Europa Central.

Mas, na atual crise, este desmonte virou regra geral, os volumes de recursos gerais do Estado com centralização, arrecadação de impostos, forma integralmente entregue aos grandes bancos e empresas, apenas os EUA gastaram cerca de 5 trilhões de Dólares para “salvar” a economia, com uma ampla ampliação da base monetária, mesmo assim patina, mas com tudo o Senhor Larry Summers, um ideólogo dos Democratas, que assumiu o liberalismo extremado diz, sobre as funções do Estado: “Além disso, se não houver uma regulação punitiva, as inovações na tecnologia de informação, as redes sociais e as novas descobertas de petróleo e gás natural parecem ser fontes de investimento e criação de empregos”.

“Estamos totalmente conscientes das grandes dificuldades que os portugueses e muitos europeus estão enfrentando, mas a verdade é que o caminho do ajuste deve continuar” (“Molão”, digo Durão Barroso, Presidente da UE)(Março 2012). A frase de Molão Barroso, político da Direita de Portugal, que ajudou a afundar seu país na época de “ouro” do Euro, tomando empréstimos a rodo, sem jamais se preocupar com o dia que chegasse a cobrança, parecia que o país era rico e tudo seria para sempre. Estes países foram vítimas da lógica de endividamento sem fim, a burguesia local se encheu de dinheiro, saindo pelo mundo a comprar empresas, Portugal e Espanha, usaram o Euro para crescer fora da Europa, com as privatizações da América Latina, África e Leste Europeu.

Agora, falidos, temos que ler as “lições” de Molão Barroso, um mero burocrata sem poder, que é seguidamente atropelado por quem realmente manda na Europa, a Chanceler alemã, Angela Merkel e seus bancos alemães. Mas, não satisfeito, ele diz mais sobre a crise em Portugal: “Para Portugal voltar a crescer é preciso confiança, e a confiança só vai voltar se Portugal atravessar o difícil caminho da consolidação fiscal e reformas estruturais“, e o recado, segundo a Agência Dow Jones se estende a toda zona do Euro: “Barroso disse ainda que mesmo os países que não enfrentam problemas fiscais mais graves entendem a necessidade de fazer ajustes e citou o plano orçamentário da França para 2013, que é “extremamente rigoroso e exigente”.

O Estado Gotham City e os BRICS

 

Novos atores do “Velho” Estado

Do ponto de vista do Estado, a China usa de conceitos de economia estatal centralizada, combinando com mercado e empresas privadas, o Estado é definidor de suas ações, uma ampla e competente burocracia vai levando o gigantesco barco, com mais de 1, 4 bilhões de habitantes, sinceramente não sei que outra formação política daria conta de tanta gente e tantas contradições. Os elementos da democracia, tal qual conhecemos no ocidente, dificilmente encontraremos no oriente, isto vale para China, Coréia do Sul ou Japão, são regimes muito específicos, mas que a democracia, na forma ocidental, sirva como parâmetro. O Novo Estado se faz presente pela Força e repressão, quando exército e forças de seguranças, usa de violência, para que os trabalhadores cumpram os contratos fabris de forma aviltante.

Índia com seu regime de castas, desigual, com divisão religiosa potencialmente explosiva e os seus mais de 1 bilhão de habitantes, está sendo gerido por uma nova elite política e intelectual que tentar dar uma unidade política a um país gigantesco que não parece disposto a assumir valores ocidentais, como seus. A entrada de grandes empresas dinamizou a economia do país, mas o atraso histórico e a crise começam a minar seu crescimento. A Rússia, com seu poder energético e uma frágil democracia, dominado por uma ex-burocratas da antiga URSS, que, durante o processo de privatização ficaram bilionários, mas vivem das lutas autoritárias entre eles pelo controle do Estado e as riquezas ainda geridas por ele. Parte do Novo Estado se afirmou na Rússia, mesmo fazendo parte dos BRICS, o Estado é claramente o identificado com o Centro do Capital, até no modelo do grupo de elite que o gere.

O Brasil foi extremamente penalizado nos anos 80, devido a crise da dívida, só efetivamente se readequando na gestão Itamar, quando lançou sua dolarização, uma moeda ancorada no Dólar, aquilo que era uma tática temporária virou ancora do poder. FHC, usando do prestígio da estabilidade conduziu uma série de desmontes do Estado, rumo ao Novo Estado, muitas características do que se propõe hoje, foi implementado no Brasil, sem grande resistência, os anos de hiperinflação, desarranjo econômico foi preponderante para baixa resistência.

Vários elementos estranhos ao ordenamento jurídico local, como as famigeradas agências, forma incorporados ao Estado, uma construção artificial do modelo dos EUA, diante de uma constituição de modelo europeu. Esta “ginástica”, sem mediação, levou ao esvaziamento do Estado, em particular no setor de Infraestrutura, como Energia, Estradas, Portos, Aeroportos e Comunicações. O que levou o Brasil, nas crises cíclicas, de 97, 98 e 99, a ficar sem política de Estado, redundando no apagão elétrico e na completa dependência do FMI.

Os governos Lula e Dilma houve uma readequação da atuação do Estado, mas sem mexer ou retomar o estado, não se opondo ao “Novo Estado. Os vários avanços econômicos no Brasil, de incorporação de amplas parcelas que viviam à margem da cidadania, sem emprego ou renda, ainda não se traduziu em avanços políticos, o nível de negociação para implementar qualquer mudança nos três poderes é extremamente lento, desgastante e que emperra o salto para frente do país.

O impasse é a marca deste período, a grande crise, talvez, tenha bloqueado uma politica mais afirmativa, de ruptura com o modelo FHC, do Novo Estado, isto em parte atrasa o Brasil, o  que nos parece de extrema urgência, só assim, pode-se efetivamente chegar em outro patamar de país e nação. O que foi feito nestes últimos 10 anos, não nos parece pouco, visto que, a pouco tempo, pensava-se em atrelar o Brasil ao EUA, como forma inexorável de vencermos nossas mazelas, com o PT se mostrou o contrário, isto é MUITO.

O Novo Estado parece que se impõe de forma desigual, no mundo, do lado dos BRICS houve bloqueio e empates, não a ruptura com a sua lógica.

Estado Gotham City e os Indignados – Resistência?

 

A Negação da Negação.

 

A questão do novo estado, olhando pelo lado dos trabalhadores e do povo em geral, que tem se organizado na Europa e EUA, nos visíveis movimentos de Indignados (Occupys), entre outros. O que queremos verificar é se identificamos planos ou propostas claras de ruptura com o sistema, ou proposições dentro do sistema, que, de forma objetiva, apontem alguma saída da Crise. Por vários momentos na Série Crise 2.0, debati o papel dos Indignados e o que se propunham, de forma crítica e direta. Ainda em setembro de 2011 assim caracterizei-os:

“O país mais atingindo pela crise, sem dúvida, é a Grécia e para variar a classe trabalhadora foi “convidada” a pagar a conta. Os planos do governo, como sempre, punem os trabalhadores, cortando previdência e aposentadoria, flexibilizando mais ainda o emprego. Os trabalhadores gregos têm respondido de forma ativa, com grandes manifestações e greves. Sob constante ameaça de perder o “status” de integrante da Zona do Euro, a Grécia é o país da região que paga os piores salários. A resistência é heroica, lembra seu passado mitológico.

A Puerta Del Sol em Madri é o símbolo de luta e resistência dos trabalhadores e do povo espanhol. Ocupada desde maio, expandiu para todo o país e a Europa que as medidas de mais ajustes não serão aceitas. A combinação de desemprego e falta de perspectiva política levou a este amplo movimento a juventude, setor mais atingindo pela crise.

As rebeliões de Londres em julho, uma onda que misturava protesto e vandalismo, mostrou que a luta é a saída para as regiões mais excluídas do país, apesar da repressão violenta, do corte de comunicação via celular. Foram momentos que puseram a nu a situação precária que a classe trabalhadora inglesa enfrenta.

A recente ocupação de Wall Street é mais um indício de que a resistência chega ao coração do sistema. O amplo empobrecimento, os seguidos planos que salvam a pele dos bilionários não são digeridos pacificamente pelos trabalhadores e os estudantes.

As famosas manifestações da “Primavera Árabe”, que teve seu auge no Egito, foram para a Europa, mostraram ao povo que só a luta direta pode enfrentar a Crise 2.0. As ações dos governos, até hoje, foram para salvar os mais ricos, relegando aos trabalhadores, aos jovens e aos estudantes o ônus da crise. A classe trabalhadora luta e resiste em condições bastante precárias”. ( Crise 2.0 : A Resistência é possível? )

E logo depois, após os indignados espanhóis boicotarem as eleições espanholas, o que levou a uma ampla abstenção, o que acabou dando uma esmagadora vitória para Direita espanhola, os setores ainda mais radicais do PP se aproveitou da divisão no seio da esquerda e centro-esquerda e, mesmo sem programa, Rajoy assumiu o governo, tornando ainda pior as condições gerais dos trabalhadores e do povo espanhol, o que me levou a levantar alguns questionamentos, sobre a forma de atuação destes movimentos, Algumas questões incômodas que precisamos pensar sobre os indignados:

1)    A Primavera de Madrid/Barcelona se esvaziou?

2)    Ela desmascarou o governo “socialista”, mas também deu combustível para Direita?

3)    Movimento forjou qualquer plataforma ampla de alternativa de Poder, ou quem sabe de Governo?

4)     Quais os passos seguintes, se o novo governo é mais do mesmo?

5)     Apenas se indignar com os políticos pode levar a uma despolitização geral?

Preocupante que na Itália o desespero leva a uma aprovação de 80% ao novo Governo tecnocrata, não eleito, feito na cúpula repleto de tecnocratas ligados aos bancos. O movimento de 68 em Paris levou a um apoio maciço a De Gaule, que quase caíra, chegou a se refugiar numa base militar, meses depois foi reeleito de forma ampla.

Para mim fica claro que todos estes movimentos que questionam o poder estabelecido, mas que não se torna alternativa, nem de poder, nem de governo, acaba numa imensa frustração, alimentando assim a Direita, que com um discurso moralista, de técnicos, sem ligação com a utopia gerado naqueles movimentos, galvaniza a revolta para seus governos, fechando assim uma “vaga histórica” de período revolucionário, sem partido ou movimento que o leve até o fim. Crise 2.0: Direita, Volver!!

O que percebemos é que estes movimentos são fundamentais no questionamento geral e na resistência contra os planos de austeridade, na luta contra o “Novo Estado”, mas seus limites estão no vazio de propostas alternativas, no mês setembro de 2012, as grandiosas manifestações em Madri, se espalharam pela Europa, levantando os trabalhadores da França, Portugal, Grécia e Alemanha, com poderosas marchas e enfrentamentos. Em Portugal se fez uma greve geral, na Grécia, menos de três meses do novo governo já houve uma greve geral.

A tônica do #25S e #29S, os indignados espanhóis, foi bem captado pelo El País que assim narrou “Os Parlamentares, dentro do prédio do Congresso, ouviram encolhidos o humor e os gritos vindo para eles vindos da rua. A barreira policial, as cercas, os tanques e oficiais a pé, com cães e a cavalo, não poderiam evitar o que o som e as imagens das ruas. A começar pela simplicidade de “ladrões”, ao coro de “lá é a caverna de Ali Baba”. Os cartazes  feitos à mão de centenas de manifestantes acenando a mais forte frase:  ”Que se vão todos eles.” E outros, um sinal pequeno, com um “NÃO”, apenas um “não” na direção do Congresso dos Deputados.”

O teor da negação é o mesmo do ano passado, o que nos leva a pensar que, por enquanto, há apenas disposição de resistir, sem, no entanto, se apresentar como alternativa de poder, o que torna perigoso, uma negação generalizada aos partidos e a política, abrindo mais espaço para despolitização e boicote, o que acaba favorecendo à Direita. O caminho do Syriza, o pequeno partido de esquerda grego que ousou enfrentar as forças políticas tradicionais e disputou firmemente as eleições com um amplo crescimento, se tornando alternativa clara aos governos da Troika, Recentemente, o Syriza, dirigiu a poderosa greve geral, que parou o país, nos parece, que este é rumo certo para o povo e para os trabalhadores, que pagam a dura conta da Crise.

7 thoughts on “Crise Dois Ponto Zero – O Estado Gotham City”

  1. Prezado Arnóbio
    Prezado Arnóbio
    Prezado Arnóbio
    A “crasse mérdia” brasileira JAMAIS entenderá sua linguagem e arguta argumentação. Estão acostumados a ouvir/ler idiotices do FHC “et cataerva”…
    Eu, particularmente, só vejo um ÚNICO e RADICAL meio para solucionar a Crise 2.0: a ESTATIZAÇÃO do
    SISTEMA FINANCEIRO como um todo ( incluindo Bancos, Financeiras, financiadoras e outros “bichos”). Me parece que é este o meio correto para conter especulação financeira via derivativos e aquisições que contrariem o interesse da sociedade.
    Abraço
    Castor

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: