A profusão de manchetes ruins, são transformadas em festa pela mídia.

A profusão de manchetes ruins, são transformadas em festa pela mídia.

Em 1917, John Reed, jornalista norte-americano, descreveu de forma absolutamente espetacular os primeiros dias da revolução russa, vale a leitura de cada página, pelo relato dos acontecimentos históricos, sob o ponto de vista de um estrangeiro, com a sensibilidade e o sentimento que ali se fez história.

Obviamente não tivemos uma revolução no Brasil, mas uma importante ruptura na institucionalidade burguesa, com o golpe em curso. A liderança golpista, tendo à frente o trio Temer-Serra-Cunha é o reflexo de uma virada ideológicade forças políticas para Direita e extrema-direita. O grande deslocamento do PT rumo ao centro combinado com a sua aliança de centro-esquerda que também aglutinou as forças de centro-direita, empurrou o PSDB e parte do PMDB, para a Direita, tendo como aliados a extrema-direita.

Chegamos ao fim de um processo, no Brasil, que foi aberto com as jornadas de junho de 2013, iniciado pela esquerda, mas em seguida, completamente capturada pela Direita. A situação do governo, após junho de 2013, se tornou complexa e com poucas certezas, exceto a que todos os inimigos antipetistas se uniram numa guerra sem trégua, com farto espaço para atacar visando derrubar o Governo Dilma, apostaram, primeiro, em manifestações violentas, que criem a sensação de Caos.

Depois na desmoralização da Copa como preparação do processo eleitoral, por fim, com a derrota nele, foi quebrar a âncora da Economia, o Pleno Emprego. Todos os males da economia (a maioria são reais) foram colocados à mesa como se fosse a responsabilidade única por séculos de desmando, sem levar em consideração que o mundo ainda estava mergulhado em Crise, desde 2008.

Para a grande burguesia, beneficiada nos últimos anos, o petismo caducou, já não serve. Tentaram por vias eleitorais e perderam, por bem pouco, mas perderam. Entretanto, a via escolhida agora é de mudar o comando, por bem ou por mal. Chega de intermediários, de programas sociais, de combate à miséria, querem TUDO.

O processo do impeachment (Golpe) foi combinado com a presença ultraconservadora nas ruas. Com patrocínio ostensivo da mídia e seu ódio a qualquer força de esquerda, ao que pese o governo conservador do PT. Assistimos no Brasil uma ação de força espetacular no Parlamento poucas vezes vista.

O Deputado Eduardo Cunha, velha raposa da época do Collor, com longa experiência parlamentar, formou uma enorme bancada de interesses mesquinhos, a antes dispersa base, conhecida como “baixo clero”, ou no passado como centrão, encontrou seu “General”.

Cunha impôs duras derrotas à Constituição Federal, como demonstramos várias vezes ano passado, em votações de Emendas Constitucionais, Cunha fez votar duas vezes a matéria. O desenrolar da conjuntura foi piorando, as constantes mentiras de Cunha o levaram ao conselho de ética, como o PT não o apoiou, sua vingança foi trabalhar diuturnamente pelo impeachment, qualquer um pedido que aparecesse com ou sem fundamento legal. Mesmo denunciado ao STF, Cunha conduziu o processo e impingiu uma acachapante derrota ao governo. O STF demorou quase seis meses para analisar seu afastamento, só feito, liminarmente.

A queda do governo petista foi feita por um golpe rápido e certeiro, tramado publicamente, a conspiração era feita sob os holofotes e vivas da mídia canalha, incentivando o conservadorismo e a criminalização das principais lideranças do PT. Tudo transformado em escândalo permanente para criar um clima de mais ódio.

As bases do governo Temer-Serra-Cunha foram dadas por Temer no áudio “vazado”, apontavam para medidas extras para agradar o Kapital, ainda que o ajuste principal já tenha sido feito, com os dados da Economia apontando recuperação em março e abril de 2016. Mas as medidas de “choque e terror” são feitas para causar impacto e tentar impor uma derrota mais ampla aos trabalhadores.

Esses primeiros dez dias, sem dúvida, abalaram o Brasil. O governo Temer-Serra-Cunha já se mostrou pior do que imaginado, pois suas medidas já demonstram o claro viés anti-povo, na prática. A estranha aliança “liberal” de Direita e extrema-direita já produziu um sem números de manchetes impactantes na desconstrução de uma sociedade que pretendia ser plural. Os ataques que não precisam do congresso já estão sendo feitos com graves reflexos na Saúde, Educação, moradia e Cultura.

A pior fase da Crise econômica efetivamente já tinha sido superada, com a desvalorização do Real, cerca de 40% do seu valor, foi a maior queima de Kapital já feita em tão curto espaço de tempo. O desemprego sobe rapidamente, o preço relativo dos salários e das mercadorias também caiu, a condição fundamental para que um novo ciclo se reinicie estão dadas, faltavam às condições políticas para azeitar o Kapital. No horizonte teremos: quebra do ensino público gratuito, o fim do SUS, ataque às aposentadorias e a retomada violenta das privatizações como as do Banco do Brasil, CEF e Petrobrás.

Do ponto de vista puramente econômico não há mais o que ajustar, mas sempre o Kapital tentará impor mais perdas, pois está em pleno ataque, gostemos ou não, a luta de classes é isso. Manda quem tem mais força, resiste quem pode. A intelligentsia (Serra/Meireles e Ilan) vai coabitar o governo com a brutalidade (Alexandre de Moraes) e a pouca cultura dos representantes da extrema-direita, como Mendonça, Ricardo Barros, Marcos Pereira e outros. O retrocesso cultural é imenso, a praga medieval do reacionarismo religioso radical é a tônica principal desse governo.

A lição que fica é que a crise não é para sempre, nunca foi. Porém foi usada contra o governo e os trabalhadores, mas os reflexos políticos continuarão imprevisíveis. O Governo do PT foi, objetivamente, um entrave à liberdade do Kapital. Nesse novo patamar do neoliberalismo redivivo (O Estado Gotham City/ Estado de Exceção – como regra), a democracia é um estorvo, ou um mero detalhe, o triunvirato vencedor (Temer-Serra-Cunha) bem o sabe.

Para piorar o quadro, eles contarão com o judiciário para enjaular as principais lideranças de esquerda, para criminalizar a política e a qualquer um que pense diferente, aqui nos incluímos (blogs, intelectuais, militantes) nos possíveis perseguidos, seletivamente ou de forma aberta.

Novos atores surgem para resistir, poucos de nós tem a respostas de como aglutinar, de como agir numa conjuntura de retrocesso. Precisamos nos unir e pensar, refazer os caminhos, para um nova utopia, novos tipos de organizações e práticas políticas.

Conformar um espaço amplo que venha aglutinar os partidos e as frentes, mas principalmente que incorpore esses movimentos difusos que surgiram nas redes sociais e ganhou as ruas, mesmo que em menor escala do que aquels dominados pela Direita. O embate ideológico será nas ruas e nas redes e será sem trégua. Cabendo a nós, velhos militantes, nos somarmos ao que virá, sem tentar impor nossos velhos métodos de organização.

O golpe foi dado, o que nos cabe é nos unir pela democracia e contra o retrocesso, a repressão aberta ou seletiva que ameaça o Brasil.