É voltar às origens para resistir ao desastre.

É voltar às origens para resistir ao desastre.

Dois ótimos artigos publicados no site do jornalista Luis Nassif (GGN), um do próprio Nassif (Xadrez de um período obscurantista que se espera breve) e o outro do professor de sociologia, Aldo Fornazieri (A crise e o surgimento de uma nova esquerda) , buscam jogar luzes no que será o “day after” do Golpe de Estado em curso no Brasil. São visões de cenários diferentes, mas complementares, com as quais temos concordância e trabalhamos de forma bem aproximada, aqui no blog, sobre o que vislumbramos de futuro.

É preciso agregar alguns itens, às duas análises, naquilo que julgo que há nuances de diferenças (entre mim e eles), mas que pode ajudar na síntese da conjuntura que vivemos. Vamos ao debate.

O mundo passa por uma profunda mudança, em particular no Estado, como escrevi antes: O Estado Gotham City é a síntese da Crise 2.0, ele é, ao mesmo tempo, causa e resultado da maior crise do Capital desde 1929, uma crise que denomino de paradigmática, aquela que muda e aprofunda os controles do sistema. Do ponto de vista do Estado ele começa a ser forjado no final dos anos de 1970, com a Crise do Petróleo e das Dívidas externas no início dos anos de 1980. Precisamente com Reagan e Volcker(FED) o Goldman Sachs captura o Estado para sí e começa a determinar a ordem do capital financeiro.

Os 25 anos de longo domínio desta lógica de funcionar do Capital encontrou limites na Crise 2.0 e na resistência do velho Estado de Bem Estar Social, que trava a “liberdade” total de movimentos mundiais do Capital. A Crise é o problema-solução, toda uma nova ordem pode advir dela, inclusive a Revolução. Mas, descartada a Revolução de ruptura, o Capital faz a sua própria revolução, ou melhor, impõe uma dura mudança dentro do sistema que lhe mais favorece, em detrimento dos trabalhadores e da sociedade. A “face mais visível é a repressão aberta, ou a sutil, a do controle de tudo que acontece na sociedade para melhor dominá-la”.

Esta “LIBERDADE” não é valor para todos, mas para o Capital(K), porém, ideologicamente, é preciso que a sociedade comungue plenamente com este valor, cada vez mais abstrato, a tal Liberdade. Em nome dela, e por ela, se sacrifica qualquer valor anterior como solidariedade, comunidade e humanidade. Tudo se resume numa formulação simples e inteligível, queremos força para que você tenha mais liberdade, um contrassenso que não é jamais questionado. O movimento que melhor expressou estes conceitos ultraliberais foi o Tea Party, na extrema-direita.

Contraditoriamente, na Esquerda, este valor principal, a “liberdade”, foi assimilado de forma sutil pelos movimentos de “Indignados” e “Occupies”, no Brasil, pelo tal “Gigante”. É inegável que se liberou novas energias políticas, com as imensas manifestações de junho de 2013, aqui no Brasil, cujas origens foram os insurgentes da Praça de Tahir, Cairo (Egito), ou na Plaza de Mayo, Madri (Espanha), na Praça Maidan (Ucrânia).

Chegamos ao fim de um processo, no Brasil, que foi aberto com as jornadas de junho de 2013, iniciado pela esquerda, mas em seguida, completamente capturada pela Direita. A situação do governo, após junho de 2013, se tornou complexa e com poucas certezas, exceto a que todos os inimigos antipetistas se uniram numa guerra sem trégua, com farto espaço para atacar visando derrubar o Governo Dilma, apostaram, primeiro, em manifestações violentas, que criem a sensação de Caos. Depois na desmoralização da Copa como preparação do processo eleitoral, por fim, com a derrota nele, foi quebrar a âncora da Economia, o Pleno Emprego. Todos os males da economia (a maioria são reais) foram colocados à mesa como se fosse a responsabilidade única por séculos de desmando, sem levar em consideração que o mundo ainda está mergulhado em Crise desde 2008.

O “terceiro” turno foi muito bem trabalhado pela mídia e pelos opositores nas redes sociais, uma coleção de absurdos foi transformada em verdades definitivas, cristalizando uma visão de que o “mal” para o Brasil seria Dilma e/ou o PT, a cobertura midiática na forma de escandalização seletiva, vai criando o clima de indignação bem calculada, mas a nenhuma resposta por parte do governo apressaram os fatos, a sensação de decepção e revolta, até daqueles que votaram em Dilma. No meio desta histeria coletiva há algo que possa mudar os rumos do país? As urnas não atendem os anseios, o que propõem? Matar ou caçar petistas? Entregar o governo a Temer-Serra-Cunha, sem democracia, ou um simulacro dela?

Aliás, insisto sempre neste ponto, a Democracia virou um Estorvo para o Kapital, a saída da Crise 2.0 nos parece que é sem Democracia e sem exercício da  Política. Espertamente se destampar a Caixa de Pandora e espalhar o mal e as frustrações para toda sociedade, sem que se chegue a lugar nenhum, causando mais confusões, inviabilizando governos, partidos, por fim, a própria Democracia. É este o rumo que estamos trilhando? A luta contra a Corrupção é apenas um mote, até velhas raposas corruptas foram vistas  protestando ontem, ou mesmo aquele tradicional fraudador anual do Imposto de Renda compareceu para falar mal da Presidenta. Como também tanta gente de boa-fé que compareceu e gritou contra o PT, que virou a personificação do “mal”, ou quem sabe, o espelho que não desejamos olhar, mas repudiamos assim mesmo.

Os sinais contraditórios do mundo e do Brasil, me fazem concluir, sem embargo, que o PT perdeu força criativa, de sua capacidade de se dirigir aos novos atores que surgem não que tenha perdido o elo com o Povo, mas não consegue se mobilizar e incorporar as novas demandas, sua direção envelhecida e débil, ficou dependendo da ação do Governo, não do Partido, ambos em decadência.

Entender a velocidade e ansiedade desta nova geração, não enxergando neles apenas a forma aparente de agressividade, bem próximas ao fascismo, de alguns setores. A maior expressão deles é a força pela diluição dos partidos, sindicatos e organizações civis, como se estes fossem empecilho ao “novo”, mas de que novo estamos a assistir? Há pouco espaço para erros ou vacilo, já foram cometidos todos os permitidos e não permitidos.

Há espaço de resistências e de reconstrução da esquerda, que obrigatoriamente será distante das velhas burocracias, mas que defenderá as importantes conquistas desses anos, que serão violentamente atacadas, pelo triunvirato Temer-Serra-Cunha. A oposição sem nenhuma concessão ao governo dos golpistas, denunciar todos os dias o caráter ilegítimo e ilegal dele.

Conformar um espaço amplo que venha aglutinar os partidos e as frentes, mas principalmente que incorpore esses movimentos difusos que surgiram nas redes sociais e ganhou as ruas, mesmo que em menor escala que os dominados pela Direita. O embate ideológico será nas ruas e nas redes e será sem trégua. Cabendo a nós, velhos militantes, nos somarmos ao que virá, sem tentar impor nossos velhos métodos de organização.

O golpe foi dado, do meu ponto de vista, o que nos cabe é nos unir pela democracia e contra o retrocesso, a repressão aberta ou seletiva que ameaça o Brasil.