Crise 2.0 : A Resistência é possível?

 

 

 

 

As crises precedentes

 

Depois de dar um panorama econômico e ideológico sobre a atual crise, que denomino de Crise 2.0, vou elencar e tratar da resistência de países, classe trabalhadora, estudantes e povos contra as consequências cada dia mais funestas deste modelo que se esgota.

A grande novidade da atual crise foi que seu eixo se deslocou dos países periféricos para o coração do sistema capitalista mundial: foi um retorno à crise do petróleo da década de 70, que gerou as três posteriores:

1) Crise das dívidas externas: assolou o “terceiro mundo” nos anos 80, a chamada “década perdida”. Países como Brasil e México foram duramente castigados. Depois de receber grandes subvenções nos anos 60/70, estes países foram cobrados sem dó nem piedade nos anos 80;

2) Crise dos Tigres Asiáticos: Na década de 90 os países centrais apresentaram a conta dos investimentos aos seus “laboratórios”, quase os levando à falência total;

3) Crise russa: Depois da queda da Economia de Estado (não a considero socialista, menos ainda comunista), a Rússia entrou desenfreadamente no ultraliberalismo: a queima do patrimônio estatal, o Estado esfacelado e o endividamento levaram ao default da dívida;

Notadamente nessas três crises, os países centrais (EUA, União Europeia e Japão) sofreram o impacto, mas de forma colateral, não perdendo o controle do jogo: suas economias foram preservadas e a duração da crise mundial provocada por cada uma delas foi relativamente curta.

 

A Crise 2.0


Este reexame das últimas crises é importante para entendermos a dinâmica totalmente diferente da Crise 2.0. O fato primordial é onde ela surgiu: nos EUA. Em segundo lugar, sua longa duração, três anos, sem tendência clara de solução nos próximos dois anos. Agora, a Crise 2.0 atingiu em cheio a Europa. O que parecia circunscrito aos países mais periféricos da Zona do Euro, Grécia, Irlanda e Portugal, expandiu-se e já atinge Itália e Espanha, que, juntas, detêm 1/3 do PIB da Europa.

A Crise 2.0 gera dois movimentos cruéis: A) Aumento do número de desempregados e miseráveis; B) Brutal transferência de riqueza do Estado para os mais ricos.

 

A) Aumento do número de desempregados e miseráveis

 

Vejamos isto em números:

Taxa de Desemprego

EUA 9,1%

Irlanda 14,4%

Espanha 21%

Portugal 12,2%

Alemanha 7,3%

Grécia 15%

Zona do Euro 9,9%

Na Espanha a taxa de desemprego entre os jovens de 18 a 25 anos chega aos 40%; a Itália tem o 3º pior salário médio da Zona do Euro, sendo o 3º país mais rico – a atual geração italiana é mais pobre do que as duas anteriores. A Grécia entrou numa paralisia brutal de serviços desde março de 2011: em apenas 1 ano e três meses, sua dívida não rolada passou de 40 bilhões de euros para 179 bilhões, tornando-se impagável. A dívida italiana atingiu o pico de 103% do PIB: seus títulos a vencer chegam a 200 bilhões de euros, e com a crise política e econômica alguns bancos querem “antecipar” cerca de 1,8 trilhão de euros.

Nos EUA o número de desempregados aumentou em 3 anos em 6 milhões, atingindo 14 milhões de trabalhadores. O número de pessoas que recebem o bolsa família (food stamps) saltou de 36 milhões em agosto de 2008 para 46,2 milhões em setembro de 2011, e o custo passa de 100 bilhões de dólares (comparando, o Bolsa Família no Brasil custa 6 bilhões de dólares).

 

B) Brutal transferência de riqueza do Estado para os mais ricos

 

A despeito da crise, os dois últimos anos foram pródigos para o clube dos bilionários nos EUA: houve um acréscimo de 31 novos. A concentração de riqueza atingiu patamares inacreditáveis: as 400 famílias mais ricas do EUA têm a mesma renda de 155 milhões de americanos mais pobres. Apenas 737 empresas no mundo detêm 80% de tudo que é produzido – este é o outro lado da crise, fácil de ser explicado. No início da crise, em setembro de 2008, o FED pediu ao Congresso 700 bilhões para “dar” aos bancos e cobrir 5% do calote da dívida interna, de 14 trilhões. Depois pegaram gosto pela “redistribuição” do dinheiro público e gastaram 5 trilhões em 3 anos, com retorno de apenas 3 trilhões do processo de salvamento, que incluiu bancos e empresas, mas nada para os trabalhadores.

Um dos muitos planos de Bush/Obama criou um fundo de 200 bilhões para gastar em obras públicas, uma espécie de PAC, para aumentar em 500 mil o número de funcionários do Estado (nos EUA eles são 22,5 milhões). Segundo Paul Krugman, não mais que 125 milhões de dólares foram gastos nessa tarefa; os pequenos e falidos municípios receberam 4 bilhões deste fundo. Entende-se por que aumentou o número de desempregados e miseráveis.

Apenas nestes últimos 4 meses, 10 trilhões de dólares foram queimados na ciranda financeira mundial – as ações em bolsa das empresas passaram de 57 trilhões para 47 trilhões. A especulação continua a todo vapor, apesar do agravamento da crise.

 


Os movimentos de resistência à Crise

 

 

O Brasil cumpre relevante papel na atual Crise 2.0. Além de não ter sucumbido, como aconteceu em 97, na crise dos Tigres, e em 98, na crise russa, ele conseguiu agrupar uma nova ordem de países que não aceitam mais pagar a conta. Mas vamos voltar um pouco e entender o que fez o Brasil.

 

O Brasil e o neoliberalismo

 

Nenhum projeto político ficou imune à lógica neoliberal. O do PT de Lula se adaptou a este mundo, mas, por uma condição particular de extrema miséria e às doses cavalares do receituário neoliberal aplicados aqui, já se começavam a gestar iniciativas tímidas de fazer algo diferente da política dominante.

Dois fatores, para mim foram fundamentais:

1) Diminuição da dependência americana, busca de novos parceiros comerciais;

2) Rompimento com a política de privatizações, que preservou o Banco do Brasil, a CEF e a Petrobras;

Mesmo sob críticas ferozes, Lula buscou, desde 2003, remar lentamente contra a maré. Fez uma excelente política externa, coordenada por Celso Amorim, aproximando o país da China e da África e promovendo uma aliança estratégica com a Europa, em particular, com a França.

A segunda política, a de parar as privatizações, salvou um pouco do patrimônio público e deu margem de manobra para impulsionar uma política de desenvolvimento incentivado pelo Estado.

A Petrobrás, que quase fora privatizada por US$ 3 bilhões em 1999, em janeiro 2003 tinha seu patrimônio avaliado em US$ 20 bilhões; em janeiro de 2010 ela valia US$ 200 bilhões, e movimenta cerca de 10% do PIB, sendo hoje a quarta maior petroleira do mundo. Os ganhos do Pré-Sal podem definitivamente tirar o Brasil da miséria endêmica.

 

O Brasil e a grande crise

 

Aos primeiros sinais da crise, Lula falou que ela seria uma “marolinha”. Quase foi massacrado pela mídia e seus acólitos no parlamento. Porém ele jogou todo seu patrimônio político no combate à crise e enfrentou-a de peito aberto, com o significativo pronunciamento no Natal de 2008.

Lula jogou todas as suas forças e recursos do Estado para que o Brasil fosse pouco atingido pelos efeitos da crise. Importante lembrar que os coveiros (Miriam Leitão, Sardenberg, PSDB e DEM) torciam entusiasmados pela possibilidade de derrotar o governo. Todo dia festejavam um número ruim. Em abril, chegaram a dizer que o desemprego explodiria em 2009, que a geração de novos empregos seria nula. No parlamento, a ‘“marolinha” era motivo de chacota, os programas eleitorais de DEM/PSDB/PPS repetiam as piadas sobre a crise.

Logo em junho a situação se inverteu, o pior passara, o crescimento seria ZERO, mas no mundo todo, em média, seria de -4%, ou seja, estávamos no lucro. A previsão de geração de emprego foi de 1 milhão.

O Brasil impulsionou o G20, grupo que passou a ter voz ativa na OMC e a fazer frente às demandas dos países centrais por maior exploração dos recursos destas nações e a imposição de seus interesses de privatização e invasão de seus produtos.

Ontem a presidenta Dilma foi recebida num jantar em Bruxelas na reunião dos presidentes e primeiros-ministros que discutem uma saída para a crise e querem apoio do Brasil e dos BRICs para que invistam suas reservas cambiais na compra de títulos europeus, amenizando a crise.

 

A luta direta

 

 

O país mais atingindo pela crise, sem dúvida, é a Grécia e para variar a classe trabalhadora foi “convidada” a pagar a conta. Os planos do governo, como sempre, punem os trabalhadores, cortando previdência e aposentadoria, flexibilizando mais ainda o emprego. Os trabalhadores gregos têm respondido de forma ativa, com grandes manifestações e greves. Sob constante ameaça de perder o “status” de integrante da Zona do Euro, a Grécia é o país da região que paga os piores salários. A resistência é heroica, lembra seu passado mitológico.

A Puerta Del Sol em Madri é o símbolo de luta e resistência dos trabalhadores e do povo espanhol. Ocupada desde maio, expandiu para todo o país e a Europa que as medidas de mais ajustes não serão aceitas. A combinação de desemprego e falta de perspectiva política levou a este amplo movimento a juventude, setor mais atingindo pela crise.

As rebeliões de Londres em julho, uma onda que misturava protesto e vandalismo, mostrou que a luta é a saída para as regiões mais excluídas do país, apesar da repressão violenta, do corte de comunicação via celular. Foram momentos que puseram a nu a situação precária que a classe trabalhadora inglesa enfrenta.

A recente ocupação de Wall Street é mais um indício de que a resistência chega ao coração do sistema. O amplo empobrecimento, os seguidos planos que salvam a pele dos bilionários não são digeridos pacificamente pelos trabalhadores e os estudantes.

As famosas manifestações da “Primavera Árabe”, que teve seu auge no Egito, foram para a Europa, mostraram ao povo que só a luta direta pode enfrentar a Crise 2.0. As ações dos governos, até hoje, foram para salvar os mais ricos, relegando aos trabalhadores, aos jovens e aos estudantes o ônus da crise. A classe trabalhadora luta e resiste em condições bastante precárias.

 

0 thoughts on “Crise 2.0 : A Resistência é possível?”

  1. É muito difícil resistir, mas tem alguma coisa mudando. o povo tá se enchendo do atual sistema e olhando pra trás eu só vejo como solução as idéias de Karl Marx. O capital não pode mais reger o mundo. A maior parte das riquezas do mundo estão nas mãos de poucas pessoas, eu diria uma meia dúzia mesmo. E o povo tá querendo pegar o que é dele de volta e por direito. Essa mudança não será agora, mas eu acredito que ainda vou estar vivo pra ver isso. O Hino da internacional ainda vai ser ouvido nos quatro canto do mundo. Não se trata de romantismo e nem de utopia, mas os últimos acontecimentos me leva a crer nisso. Abraços

  2. A resistência é possível, mas a quem resistir? Essa informação sozinha, “Apenas 737 empresas no mundo detêm 80% de tudo que é produzido”, já é avassaladora. Os governos só têm ouvidos para elas. #Comofaz? Tomara que o apelo que Lula fez ontem aos líderes europeus tenha algum impacto. Os Estados Unidos já estão perdidos mesmo, coitados, entregues ao fundamentalismo, mas a Europa pode ter uma saída. Tomara.

    1. Marizinha,

      Minha camarada em armas, resistir, infelizmente, é o que nos sobrou, as constantes mudanças e transformação do capital impõem mais desafios aos trabalhadores e ao povo, a brutal concentração também passa a ser um enorme problemas para o capital.

      Arnobio

  3. Caro Arnóbio,

    Apesar de tudo, acredito que a resistência é possível – e que a disputa de espaço e a guerrilha de contrainformação contra a mídia corporativa ocupam um lugar central nesse combate.
    Pois a mídia, atualmente, pouco mais faz do que vocalizar, difundir e procurar legimitimizar as demandas do capital, com o qual, na era do capitalismo infotelecomunicacional, está profundamente imbricada.
    É uma guerra que dificilmente venceremos, mas que devemos continuar lutando, em nome das pequenas batalhas vitoriosas e, sobretudo, da manutenção da resistência.

    Um abraço e parabéns pelo belo post!

    1. Maurício,

      Uma referência para mim na hora de escrever, seus textos sempre cheio de charme e conteúdo me ensinam muito. Cada dia mais a batalha pelo informação e contra-informação exige de nós uma resposta, a questão desta crise ainda não é plenamente assimilada pela blogsfera, que não percebeu o tamanho dela e as mutações que causará no mundo.

      Arnobio

  4. Muito bacana o texto. Importante ressaltar pegando o clima de Crise 2.0 e ressaltar a importância do mundo globalizado e das discussões descentralizadas, em parte pelo mundo 2.0 em que vivemos, de globalização à interações por mídias sociais.

    Quanto ao aspecto financeiro, o Brasil vem cada vez mais se deslocando à frente dos BRIC’s – mesmo ainda ficando atrás de China e Índia por sua grande efusão e formação de profissionais capazes de impulsionar suas economias com mais afinco. Agora, o fato é que para um desenvolvimento real, nosso governo precisa criar alavancas que nos tirem dessa zona de influência dependente de exportações de petróleo e commodities, criando assim cidadãos mais conscientes de sua importância e, por consequencia, uma sociedade realmente preparada para a promoção do desenvolvimento social.

    1. Átila,

      O mundo está cada dia mais complexo, em menos de 8 anos o Brasil passou de devedor com pires na mão à credor. Mas temos muito, mas muito a percorrer, valeu pelo comentário ajuda muito no debate,

      Arnobio

  5. Não sei, mas acho que temos que ser além de Karl Marx, não sei se valorizar somente os trabalhadores não vai ser outra repreenão também. O Estado ele vai sempre privilegiar alguém, independete se é no sistema capitalista ou no socialista, mas ele irá. Como disse Milton Santos: “Vamos recomeçar o debate da civilização”.

      1. Concerteza, concordo com você de ser uma refêrencia, mas não pode ser a única. Minha crítica seria em cima de se tomar ele com uma única salvação para o que vivemos. Existe tantas outras que pode se complementar com ele. Então por que não pensarmos de forma mais ampla e não cai em outro (talvez) “erro”. Não sei como seria um socialismo, e como voce, acredito que a Russia não viveu um socialismo, mas valorizar uma outra classe seria só inverter a piramede.
        Abraços, Lucas Ferreira Pimentel

  6. Caro Arnobio, parabenizando pelo bom texto, queria complementar com os dados sobre o desemprego nos EEUU, em matéria assinada por Por John Saxe-Fernández para o Opera Mundi:
    ……
    O desgaste social e econômico interno é evidente: por quarenta meses seguidos, o desemprego crônico se manteve acima de 9%, como revelado pelo BLS (Bureau of Labor Statistics), cuja metodologia, que considera “ajustes sazonais” e outras manipulações, maquia a realidade para que ela não pareça tão ruim.

    A manutenção de um desemprego nesses níveis por um período tão longo não é registrada desde o final da Segunda Guerra Mundial e é comparável à Grande Depressão.

    Segundo John Williams, “a gravidade extraordinária e a duração dos choques econômicos dos EUA, durante os últimos três ou quatro anos, têm desestabilizado os ajustes sazonais usados nos cálculos do BLS, em algumas séries estatísticas.” Após 1994, houve ajustes na metodologia. Williams lembra que de acordo com o procedimento estatístico utilizado atualmente, depois que alguém está desempregado há mais de um ano, não está mais incluído nas contas do governo!”

    Desta forma, “se o desemprego fosse calculado como antes de 1994, então o verdadeiro número de desempregados seria de 22,2%”.
    …..
    Abraços
    Savio1954

    1. Savio,

      Esta crise está muito próxima do mergulho de 1929, tanto em extensão quanto no estrago causado. A pergunta fatal: Sem ambiente para uma guerra total como em 39, sem um risco eminente do Nazi-fascismo, que Nação comandará este novo século? China? República da América do sul?

      Arnobio

  7. Pergunta difícil, Arnobio.

    O mais lógico seria inferir a China que é a dona dos produtos acabados no mundo e o Brasil pelas imensas riquezas de matérias-prima e produção de alimentos (mas precisaria acelerar os níveis de desenvolvimento humano, principalmente educação).

    O poder bélico ainda é um fator de desequilíbrio. Guerras como a do Iraque ou mesmo intervenções como a da Líbia e agora da Síria podem ser repetidas (Venezuela? Irã? Brasil?) e postergar a falsa liderança atual.

    Se a China assumir cada vez mais um papel moderador não belecista, (embora intervencionista no controle dos insumos) poderá neutralizar os atuais senhores da guerra.

    Neste contexto o Brasil poderia até ser uma liderança, com certeza compartilhada com outros países (BRICs?, Noruega?, Suécia? Turquia? Alemanha? EEUU? Reino Unido?), diferente, portanto, do modelo até agora vigente, que foi fruto de espólios de guerras.

  8. Eu espero que o capitalismo não prove ter- como o gato – 7 vidas e que já esteja agonizante!A gente não pode perder a esperança e tem que resistir sempre!Quanto ao Brasil, graças ao governo Lula, passamos da vexatória situação de mendigos,a um país respeitado internacionalmente.
    Arnóbio, já estou me tornando muito repetitiva, mas ando adorando estes seus posts. Maravilha.Vierei fã de carteirinha! Parabéns mesmo!!!

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