A democracia usurpada no Brasil, reflexo do Novo Estado do Kapital

A democracia usurpada no Brasil é o reflexo do Novo Estado do Kapital.

“Religionum animum nodis exsoluere pergo”
(Esforço-me por libertar o espírito dos nós das superstições – Tito Lucrécio Caro (De Rerum Natura, I, 932)

Durante seis meses, em 1996 morei no Japão e tive a oportunidade de viver num modelo de sociedade em que os valores ocidentais de democracia e de política não tem nenhum impacto na vida das pessoas. As corporações econômicas, até as mafiosas, têm mais influência no cotidiano do que as instituições tradicionais de governos ou sindicatos.

Essa experiência serviu para olhar mais atentamente para onde o mundo ocidental caminhava, haja visto que os “laboratórios” de Japão, Coreia do Sul, Cingapura foram bem sucedidos, pois, de certa forma, culturalmente os valores democráticos não fazem parte de suas histórias milenares. Alguns deles passaram diretamente do feudalismo para o ultracapitalismo High Tech.

O que se aprofunda, nesses tempos “modernos”, são as contradições de classes em luta, não se anunciou um novo sistema. A luta de vida e morte do Capital(K) contra o Trabalho é pela maximização da Taxa de Lucro, não existe um distensionamento dela. Na época da revolução da microeletrônica, dos sistemas digitais, ao contrário do se pensa, nunca fomos tão explorados, o tempo necessário para remuneração do trabalho produtivo é cada vez menor.

A produção de riqueza material atingiu seu pico de Superprodução em 2005(EUA), 2007 (UE) e 2010(BRICS), o que levou a consequente crise mundial, de forma global, em todos os blocos econômico. A crise tem um duplo caráter: É o fim de um ciclo, mas, ao mesmo tempo o início de um novo, neste interregno há o espaço para Revolução. Tema amplamente explorado no meu livro  Crise Dois Ponto Zero – A Taxa de Lucro Reloaded.

Com a eclosão da maior e mais grave crise do capitalismo, desde 1929, que denomino de Crise 2.0,  tem significados que vão além das consequências econômicas, principalmente os seus impactos sociais, na vida dos trabalhadores e da sociedade em geral. O peso é mais grave na mediação da sociedade, com o esgotamento da  Democracia e da Política.

As mudanças tendem a ser mais terríveis do que antes, pois há, no meu conceito, uma mudança de paradigma, um Novo Estado foi parido pela grande, Estado de Exceção (que vira REGRA – (Estado de Exceção: O Sequestro da Democracia), ao mesmo tempo há uma tendência à barbárie social ampla, dos 99%, coexistindo com os  guetos de extrema riqueza, cada dia menos partilhada, inclusive no coração do Capital (EUA e UE).

O mundo se tornou significativamente pior, a democracia representativa se esgota de forma rápida, a combinação de desilusão com a nenhuma alternativa gestada, leva à dispersão geral.  Os grupos autônomos surgidos nestes últimos anos não compreenderam os caminhos desta nova ordem Estatal, que busca esconder a ação do Estado com o ultraliberalismo, quase um semi-estado, mas na verdade é um Estado muito mais forte, de exceção, sem democracia, povo e representação.

A horizontalidade exigida pelas multidões, se casa, em essência, com os desejos da burocracia, numa dominação de massas de forma mais eficaz, pois se suprime a representação e seus intermediários ( Partidos, Sindicatos, Organizações) tidos como desmoralizados, tudo se diluí em “movimento” em “Redes”(M15, 5 S, Sustentável,Tea Party) e “Indignados”, facilitando enormemente a cooptação e o combate de ideias.

Por um lado, durante a Crise, se amplia o espaço para o questionamento global do Kapital, e também permite o surgimento de novas formas de lutas, pois as formas de organização dos explorados são dinâmicas, respondem ao nível de consciência e de elaboração que a classe trabalhadora acumula, para enfrentar a luta de classes.

Por outro, dialeticamente, sem que os trabalhadores avancem, o Kapital reagirá de forma violenta, pois a saída da crise só acontece com uma ampla queima de forças produtivas (desemprego, corte de salários, direitos sociais, diminuição de plantas produtivas). A tensão social se amplia, os governos se fragilizam enormemente, nessa crise em especial.

Democracia (a Política) passa a ser um “estorvo”, os velhos políticos ou as velhas formas de representação são tragados pelo caos, esta aparente desordem esconde o “Novo”, um estado controlador, espião, policial que consegue galvanizar as revoltas não contra si, mas contra a própria democracia, vide Egito, Turquia, Ucrânia e agora no Brasil.

As massas perdidas gritando contra as instituições, contra os políticos, mas não contra o Estado. Aliás, este, ganha força com as propostas de intervenções das “forças da Ordem” ou o surgimento de um Batman, de um herói que ajude a criar mais uma “máscara” e proteja o Estado Gotham City”. (Escândalo de Espionagem e o Estado Gotham City).

Todas as “novidades” do Governo Golpista de Temer, não podem ser vistas como novas, já há um largo conhecimento de onde surgem e ao que se destinam. O impacto do Golpe e a venda de que não se constituiu uma ruptura na Democracia, também faz parte desse pacote de Trevas, que se impôs no mundo, agora experimentada aqui.

O Estado Gotham City está batendo na nossa porta, vai arrombar, há como resistir?