O Golpe de Estado jogou o Brasil no abismo.

O Golpe de Estado jogou o Brasil no abismo.

“Por isso te detenho e prendo como a embusteiro universal, que exerce arte ilegal proibida pelo Estado. Prendei-lo logo”.  ( Otelo, O Mouro de Veneza, William Shakespeare)

Dia de domingo é para viajar em ideias e metáforas incômodas. A vida imita a arte, mas ganha ares trágicos, revendo o Batman, o Cavaleiro das Trevas Ressurge, não posso deixar de atualizar o que escrevi naquela momento, trazendo para nossa realidade (Brasil), o Estado Gotham City (Estado de Exceção: O Sequestro da Democracia.) que nos ameaça.

Os personagens e situações típicas de ruptura da democracia, que tanto me incomodou na época, estão presentes aqui, até parece uma profecia do que vivemos hoje no Brasil.

O primeiro insight era que “Bane (o combatente da corrupção), o anti-herói, toma o poder em nome do povo, uma caricatura de “socialista” ou dos “Occupys”. Todos são convidados a tomarem o poder, mas ali, na visão tipicamente de criar um caos, uma barbárie, com tribunais de exceção com um louco, Dr Crane, como juiz supremo, a condenação se dá em segundos, morte ou morte, pois o exílio é o caminho da morte“. Mas a ideia está incompleta,

Bane é muito mais, ele é a ideologia recente do “novo” do “anônimo”, do herói digital, aliás, ele mesmo, assim se define: “Ninguém se importava quem eu era até que eu pus a máscara”. Ora, a máscara, já analisamos na Questão do Herói, a nova identidade como traço essencial, não restando duvida que a indumentária é para chamar para si todas as atenções. Alguém lembra quem usou a máscara e divulgou no instagram?

O herói vindo do oriente, do estrangeiro, vem para conquista de uma cidade, para, em tese, libertá-la e que ela se devote ao seu culto, o que é parte mais ampla  do mito do herói, tema recorrente da mitologia grega, romana ou oriental. O próprio Bane reflete e fala que “Assumir o controle de sua cidade. Eis o instrumento de sua libertação!” e complementa dizendo “Não importa quem nós somos… O que importa é o nosso plano”. No diálogo com seu aliado rumo ao poder ele é bem mais direto quando o milionário percebe o tamanho de suas ambições ele diz: “Você é pura maldade!”  calmamente, Bane, retruca: “Sou o mal necessário”.  Aliás, ele se apresentará como o “purificador”, o salvador daquela cidade corrompida, daquela sociedade egoísta e miserável.

Mas a parte mais intensa e o cerne do filme é como Bane se torna o herói dos revoltados, o líder das massas, aquele “anônimo” que convoca os coxinhas contra os políticos, contra o Estado, contra a corrupção, contra tudo, adesão é instantânea e irrefletida, o brilhante discurso é feito em frente à prisão Blackgate (Guantanamo? Curitiba?) símbolo da violência e do Estado de Direito em nome da “guerra ao terror”, ali se prendeu sem direito a julgamento justo, revisão de pena ou progressão de regime, então Bane vai lá e faz seu palco teatral, é perfeito, primeiro destrói o antigo “herói”, Harvey Dent, desmascarando-o, depois convocando as massas para destruir o poder real e formal, ouçamos:

“Vocês foram presenteados com um falso ídolo para impedi-los de destroçar esta cidade corrupta.(…)Aceitam a demissão de todos esses mentirosos? De todos os corruptos?”. “Nós tomaremos Gotham dos corruptos! Dos ricos! Dos repressores de gerações, que as oprimiram com mitos de oportunidade, e a devolveremos a vocês… o povo. Gotham é sua! Ninguém irá interferir. Façam como quiserem. Comecem invadindo Blackgate e libertando os oprimidos! Apresentem-se, aqueles que desejam servir. Pois um exército será formado. Os poderosos serão arrancados de seus ninhos decadentes e lançados no frio mundo que nós conhecemos e suportamos. Tribunais serão convocados. Despojos serão repartidos. Sangue será derramado. A polícia irá sobreviver, aprendendo a servir à verdadeira justiça. Esta grande cidade… ela perdurará. Gotham sobreviverá!”

A revolta explodiu pela eficiência da mensagem de Bane, o “Gigante” acordou e passou a apavorar a cidade, publicamente diz que vai limpar a cidade e entregar o poder ao povo, nas falas internas, ele apenas buscava o caos.

Uma visão messiânica que se vê em Gotham City (EUA, Brasil, na verdade o Estado de Bem-estar Social), o símbolo do pecado, uma espécie de Sodoma ou Gomorra, que a “Liga das Sombras” ou seus herdeiros, acham que sua destruição vai “purificar” e reequilibrar a humanidade, uma compreensão política muito parecida com os extremistas, estilo Tea Party ou grupos que negam a democracia, os partidos e as organizações sociais. Impressionante como Bane tem identidade com as “ordens” anônimas  que surgiram na internet nos últimos tempos, os valores e a revolta são similares, as soluções, também.

Até um governo de farsa, como o que temos no Brasil, ali também estava em curso. Estamos no limiar de ruptura  institucional, fim da Democracia e da Política, é tão real, ainda que feita em nome do “povo” e da “justiça”.

Tempos Sombrios.