Crise 2.0: A baixa Soberania

 

 

 

 

“Bem vês que tenho mais carne do que ninguém e, conseguintemente, mais fragilidade. Confessais, então, que me esvaziastes os bolsos?”

(Henrique IV – Parte I – W. Shakespeare)

Uma das razões principais de ter começado escrever, quase ao acaso, por volta de Abril de 2011, a série Crise 2. 0 , que ainda se chamava apenas Crise, ou estudo de Economia Política para um mundo “novo”, foi a ausência nos blogs de esquerda (“oficial” ou dos “verdadeiros revolucionários”) qualquer suporte ao debate sobre a atual Crise. Quando em mundo encontrava apenas reprodução de textos da midiona, pior sem a devida análise.

No fundo pretendia apenas escrever alguns posts, provocar o debate, contribuir com alguma coisa, afinal tive a sorte de estudar com grandes mestres as principais obras de Marx, sobre isto falei Crise 2.0: Uma reflexão necessária, mas a coisa se tornou maior do que imaginava, a cada dia leitura de sites de economia dos principais jornais do mundo, aqui no Brasil minha referência é o do Jornal O Estado de São Paulo, talvez o que melhor cubra a questão.

Neste meio tempo comecei a refinar o método de escrever. Além de fazer um apanhado geral e crítico das principais políticas de combate à Crise, passei a “dialogar” com alguns autores/colunistas destes jornais, citando-os, concordando, criticando-os, mostrando, sob minha ótica de visão, os limites do que escrevem. Os principais aqui foram: Celso Ming, Paul Krugman, Martin Wolf. Aqui não me preocupo com a ideologia de cada um deles, mas sim o que de informação útil nos traz.

 

Soberania em Baixa: ou melhor, Sacrifício ou Morte

 

Como sempre a primeira leitura do dia é a coluna do Celso Ming, a de hoje está particularmente rica, cheia de ideologia derrotada, tentando culpar terceiros, pelo fracasso Neoliberal, isto dar mais graça ao debate. A questão é sobre Soberania ( Soberania em baixa), já algumas vezes tratadas por nós, deriva para questão do poder e Estado. Vamos ler com ele.

“Os chefes de governo já não alardeiam capacidade de exercer a soberania dos seus Estados nacionais. A crise global encarregou-se de lhes passar uma lição de humildade.

Há duas semanas, um dos mais respeitados filósofos da Europa, Zygmunt Bauman, advertia sobre o impacto a ser produzido pela ruptura entre poder e política que os novos tempos estão impondo a todo mundo”.

Parece não ter mais grandes desacordos de que a Crise 2.0 “bagunçou” definitivamente o conceito de Estados Nacionais/Soberanos, mas a linha que os liberais(neos) tomam é de culpa o Estado de bem estar social e o déficit público pelo problema. Ming nos apresenta a questão como um longo Sofisma:

“Esta não é somente uma consequência da globalização. Como no passado aconteceu com os príncipes cujo poder foi cerceado pelos seus financiadores, agora são os dirigentes políticos dos países altamente industrializados que se mostram paralisados sob o peso da enorme gastança do setor público.

No caso dos Estados Unidos, a disparada do déficit orçamentário tem a ver com enormes despesas de guerra e, também, com políticas de bem-estar social. No caso da Europa, deve-se especialmente à atual incapacidade dos Tesouros nacionais de bancar os benefícios prometidos à população nos últimos 60 anos”.

Paul Krugman já destruiu esta argumentação neoliberal, dentro dela mesma, estes estados foram esvaziados justamente por iniciativa de Reagan, Tatcher e os posteriores dirigentes dos anos 90, da ideologia do desmonte do Estado, como podem ter a desfaçatez de culpar o “Estado de bem estar social” e endividamento pela Crise? Soa, e é ilógico, chega a ser ofensivo com a inteligência alheia um liberal vir criticar aquilo que mais fizeram nos últimos 30 anos. Krugman arremata dando exemplo dos países escandinavos que resistiram ao desmonte e sobrevivem bem à Crise, lembra ele sobre o Brasil ter tomado caminho diferente em 2008, sob Lula, e também ter crescido no meio da debaclê dos Centro do Capital.

Porém no meio do artigo, Ming acerta em cheio o cerne da questão da Crise, sem embargos, ele nos confessa:

“Os novos tempos são regidos por redivisão do trabalho global (que transfere empregos para os países emergentes, especialmente para a Ásia) e pela distribuição de aposentadorias precoces num quadro de envelhecimento da população e de aumento da expectativa de vida”.

A Crise é um ápice de um ciclo, é ponto máximo da superprodução de Capital, a consequente queima de Forças Produtiva, para início de um outro. Este hiato é o que se abre a possibilidade revoluções, rupturas sociais e enfrentamentos. Enquanto a Classe Trabalhadora não se reorganizar para enfrentar, o Capital faz a “redivisão do trabalho”, ao seu modo, a busca de nova formas de recomposição da Taxa média de Lucro.

Claro que o velho liberal, Ming, dará a receita do Capital para que se supere, ou melhor aceite-se o novo ciclo:

“Em outras palavras, esta crise está re-ensinando os dirigentes políticos que o pleno exercício da soberania dos Estados só pode acontecer num quadro de equilíbrio de finanças públicas”.

 

Esta lição é bem clara e direta aos trabalhadores da Europa e dos EUA: Corte dos gastos sociais, diminuição dos Salários, alongamento do tempo para aposentadoria, rebaixamento geral das condições e abrir mão das conquistas sociais do passado, em nome do “equilíbrio das finanças públicas”, para que mesmo? para quem?

Embora já termos falado disto várias vezes (por exemplo –  Crise 2.0: Marx e a CriseCrise 2. 0: A “Nuvem” Financeira), precisamos sedimentar bem os conceitos para não nos perdermos na sedutora conversa do Capital, do “mais sacrifícios”, ou de que é inexorável que assim seja.

 

 

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