Crise 2.0: Uma reflexão necessária

 

(monumento ao diletantimos – Londres)

“Tão sábio ele é que persuadido se acha
Que o tudo só consiste em valeroso
Do castigo escapar, fugir da pena,
Seja o modo qual for para isso usado!
Vai, presunçoso, vai assim pensando”

(Paraíso Perdido – John Milton)


Comecei a escrever a série sobre a Crise 2. 0 quase sem querer, não tinha nem em mente fazer mais que quatro ou cinco posts, muito mais por curiosidade do que qualquer rigor científico. Aproveitando de algum pequeno conhecimento de algumas categorias de análise marxista, lembranças da antiga leitura do Capital, ainda da primeira metade da década de 90.

Naquela época, incentivado pelo amigo e mestre José Antonio Martins, que tanto me ensinou com as famosas “Análise de conjuntura econômica” do Núcleo de Educação Popular (NEP – 13 de Maio), criamos um grupo de leitura e estudo do Capital. Por volta de 94, 95, tentamos esta aventura, para variar terminamos ele e Eu, de um grupo de mais de 25 pessoas. Mesmo frustrante, valeu demais a experiência.

O impacto e a desmoralização da esquerda era visível depois dos eventos da queda do muro, as poucas energias se perdiam rapidamente, o peso da derrota  do leste era muito forte. Os trotskistas que acreditavam que haveria uma onda de revoluções no leste, umas reabilitações do velho Leon se viram igualmente abatidos, minha modesta opinião a maioria deles nunca se preparou política ou intelectualmente para assumir o debate da queda.

Lembro ainda de Robert Kurz um dos primeiros caras a levantar a necessidade de voltar à Marx, ler o Grundrisse, mais ainda o Livro IV do Capital, que praticamente a esquerda não conhecia. A revista que ele criou, Krisis, foi um veículo de um rico debate, mas que os estigmas (stalinista ou trotskista) trataram de afastar do centro do debate.

Enfim foi este percurso e ausência de uma leitura próxima ao velho Marx que me levou a ir em frente com esta série, porém ela esbarra em alguns aspectos bem peculiares da minha personalidade e formação (ou má formação) intelectual:

1)      Trabalho com Engenharia de Telecomunicações, mas especificamente com planejamento de redes. Então analiso números, comportamentos, algo bem concreto, quase exato;

2)     Este trabalho molda uma visão cartesiana, booleana, não tenho com fugir disto;

3)     Falta-me maior compreensão de Economia, detalhes de funcionamento do sistema como um todo, em particular do sistema financeiro;

4)     Falta-me conhecimento de mais categorias filosóficas, teoria da revolução e do conhecimento;

5)     Tenho pouco ou quase nenhum envolvimento com debates dos intelectuais hoje, isto cria déficits de conhecimento terríveis;

6)     Esta série é muito pouco comentada, dificulta na hora de aprofundar mais os temas;

7)     Por não ter vínculos orgânicos com Partidos, ajuda em não me moldar, mas dificulta em não debater coletivamente;

8)    Minha produção é basicamente “caseira”, durante intervalos do trabalho ou de casa, correndo os riscos e dissabores das críticas do trabalho e da família;

Tenho formação, por outro lado, humanista, literatura clássica, basicamente, o que me ajuda a incrementar, dar alguma beleza aos textos, tornar mais suaves, mas as minhas carências são maiores.

Este texto não é para auto-indulgência, apenas explica, justifica, o método de trabalho, como cheguei até aqui os limites, bastantes estreitos dele. Agradeço a ajuda e o incentivo, mas não esperem um algo mais, pois não tem mesmo, para mim, as respostas deveriam vir dos partidos, movimentos, academia, sou apenas um diletante, que fique bem claro.

 

0 thoughts on “Crise 2.0: Uma reflexão necessária”

  1. Então, agora você sabe porque estes textos são tão valiosos. Porque são uma análise singular, única, do panorama da crise. Quando lemos um Krugman, um Roubini ou mesmo Varoufakis, todos eles, na condição de especialistas têm um viés ideológico determinado e determinante sobre o entendimento da crise. Crise 2.0 tem a grande vantagem do desprendimento, da generosidade de partilhar algo que se gosta, ainda que, humildemente, não completamente compreendido. Isso é demasiado valioso, sem preço.

  2. Quando você faz estas digressões acaba nos ajudando a entender o que os especialistas escrevem sobre o assunto. Pode ter certeza que todo mundo que acompanha a série está em melhores condições de entender a Crise 2.0

  3. Ah! Arnóbio querido, concordo com Sergio Rauber…o bom dos teus artigos é que eles vão além da mesmice dos “especialistas’já completamente envolvidos com a “escrita das fundacites”,formatado, formalizado e já não conseguem escrever de forma humanizada, coisa que nos teus textos estão ali presentes e que p’ra mim são de total importância! São eles que ficarão na beira do caminho, ainda que tenham sua validade! bjs

  4. Discordo do Rauber, eu bebo esse diário da crise justamente porque tem o pé no comunolulopetismo. Se fosse “isento” eu não leria. :-))) E adoro, não passo sem.

    1. Eu me referia à ideologia da tekne, não política dos comentaristas. Do positivismo científico dos enunciados dos economistas, da racionalidade instrumental que eles carregam. Sim, o perfil político do posts do Arno também gratifica :)

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