Crise 2.0: O Paraíso Perdido

 

(Gustave Doré – Adão e Eva expulsos do Paraíso)

“A justiça eternal tinha disposto

Para aqueles rebeldes este sítio:
Ali foram nas trevas exteriores
Seu cárcere e recinto colocados,
Longe do excelso Deus, da luz empírea,
Distância tripla da que os homens julgam
Do centro do orbe à abóbada estrelada.
Oh! como esse lugar, onde ora penam,
É diverso do Céu donde caíram!”

( Paraíso Perdido – John Milton )


Agora ficamos sabendo o que realmente pretendem Alemanha e França para combater a Crise 2. 0, os anúncios vagos anteriores sobre “Refundar”a Europa, do Euro ou do Bloco Europeu, ontem se materializou numa proposta mais direta e clara feita pela Alemanha e respaldada pelo sócio menor, França.

A rigor, não temos qualquer novidade, apenas uma volta ao projeto inicial do Euro. Analisando o que acertaram como a “Nova” UE, se tem a nítida impressão que houve apenas um jogo de cena, para “legalizar” uma situação incômoda: Todos dependem da Alemanha, este é o problema central do Euro, vai muito além das dívidas e falências locais.

Vamos primeiro ver as novidades velhas trazidas por Merkel e Sarkozy:

1)      Regra de Ouro – Exigirá equilíbrio fiscal de todos os países, que seja colocado em suas constituições. Nossa, imagino a força que isto deve ter. Apenas para refrescar a nossa memória em 1992 isto já era regra, nenhum  país podia ter déficit de contas superior a 3% e que sua relação dívida vs. PIB superasse 60%. Ninguém cumpriu esta regra, nem a Alemanha;

2)     Orçamento fiscalizado – é a velha mania de transferir para judiciário as questões políticas e administrativas dos países, tutelar juridicamente os países através dos tribunais;

3)     Governo – a Comissão Europeia vira o governo econômico, o que seria isto? Os agentes públicos, políticos, viram tecnocratas das finanças, perdem poder político e garantem a eficiência da banca;

4)     Fundo de resgate – Antecipado de 2013 para 2012, ora, vejam só o que realmente fizeram senão reconhecer os cerca de 1,2 trilhões que já aplicaram no “salvamento” do Fundo de Estabilização;

5)     Calote – Proibir que algo parecido ao exemplo grego não seja permitido. Ou seja, não confiam nas medidas anteriores (itens 1, 2 e 3), ou pior, já sabem que elas vão falhar, então trabalham com a ameaça direta;

6)     Eurobônus – Merkel não avaliza, mas se BCE quiser eventualmente e seletivamente fazer para alguns países e em nome dos 6 países com triplo A, ela “fecha” os olhos, uma concessão menor ao sócio Sarkozy, entusiasta da proposta, pois salva os bancos franceses os maiores prejudicados com o calote geral grego, português, espanhol e italiano;

 

O Ultimato Franco-Alemão

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Mas as entrelinhas é que são realmente significativas, entre estas as duas que mais me chamou atenção, como sempre vinda de Merkel: A) exclusão imediata dos que descumprirem a regra de ouro; B) Aceita quem quer o acordo, um aviso ao Reino Unido, quem não aceitar pode se desligar do Bloco Europeu, pois quem está sob o Euro não pode discordar. Nada como ler as palavras diretas de Merkel, trazidas pela Dow Jones (via Estadão):

“Nós precisamos de mudanças estruturais”, comentou Merkel. “Mudanças estruturais que vão além dos acordos e que também significam que nós precisamos de mudanças nos tratados, no sentido de limites compulsórios para dívidas que sejam padronizados na Europa e cuja forma pode ser verificada pelo Tribunal de Justiça Europeu, para garantir que cada país será obrigado a cumprir esses critérios, mantendo o pacto de estabilidade e crescimento como um todo. Não é possível fazer isso na estrutura dos tratados atuais”.

O que foi prontamente complementada por Sarkozy no ultimato: “Preferimos um acordo com os 27 (países da UE). Mas estamos prontos para aprová-lo com os outros 17 países que usam o Euro”.

Ontem ouvindo Delfin Neto, ele diz mais ou menos assim “o problema do Euro é que a Alemanha é virtuosa: tem grande produtividade, padrão econômico, enquanto os outros países não têm o mesmo, então se cria uma situação complicada, pois estes vivem sempre uma relação deficitária com ela”. Foi mais além “sem uma federação, sob liderança alemã, não se combate estas distorções orçamentárias”. Explicou ainda que a Alemanha usou desta situação para se consolidar como força única, mas que a longo prazo , ela própria não se sustentaria, sem uma revisão dos acordos do Euro.

O anúncio que prometia “salvar o Euro” teve ar fúnebre, os dois atores vestiam preto, um que de seriedade, roupa apropriada para velório, mãos dadas, olhares cúmplices como manda o figurino. Mas nenhuma novidade “nova”.

 

 

0 thoughts on “Crise 2.0: O Paraíso Perdido”

  1. Chute, pq entendo quase nada, mas acho que item 3 (“governo”) não se cumpre, salvo se Merkel for coroada Imperadora (Napoleão de saias?) à força (das armas, dentre estas o tal Tribunal de Justiça Europeu), inviabiliza os outros itens. Somente sufocando as populações e a política local completamente.

  2. Que maravilha, em breve teremos crise política (aliás, já temos, né?, com personagens eleitos sendo depostos tranquilamente, governos de direita assumindo, as populações ou “ocupando” ou em paros gerais…) e os “poderes econômicos” reagirão como? A saída da Europa é a crise americana acabar rapidinho, ou teremos um sambalelê. Ou melhor, um bundalelê. A droga é que 2012 é ano de eleição nos EUA, santa mãe de deus…! Quero me mudar pra Kleber 22-b urgente!

  3. Agora, que tristeza essas mulheres no poder na Europa, hein??? Quando não é a Lady No é a Lady Chororô! Ô Dona Thatcher, que legado! Só queria saber se Mme Ségolène Royal teria sido essa vassala da Führer como é o Sarkófago!

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