Crise 2.0: A "Nuvem" Financeira

 

 

 

dorme à vontade, mas fica sabendo:

as dívidas que hoje me atormentam

a ti atormentar irão um dia.

(As Nuvens – Aristófanes )


Ano novo continuamos na velha série sobre a Crise 2.0, agora tentando aprofundar alguns conceitos, e combater velha cegueira, quase um misticismo entre nós, ao analisamos as Crises de Superprodução do Capital.

Quando olhamos o conjunto do PIB mundial e o comparamos com a “Nuvem” especulativa, em geral, somos tomados pelo impressionismo de que há uma autonomia entre Produção e Circulação do Capital versus Capital Especulativo. Na excelente obra de Martins e Coggiola que indicamos em outros posts, eles vão ao cerne da questão:

“Interpretar a situação econômica tomando primordialmente, como base, os indicadores financeiros, pode conduzir ao impressionismo e ao exagero – em um sentido apologético ou catastrofista – da relevância das cifras consideradas. Que tantos milhões de circulem em tal ou qual direção não quer dizer que o movimento do capital seja regido ao acaso (como se fosse um jogo de azar ou “cassino”). Tem de se ver o fenômeno em sua lógica produtiva. E para isso convém distinguir o curto prazo – onde os processos financeiros têm grande autonomia – do longo prazo, que está sempre configurado pelas tendências produtivas. A crença de que a instabilidade da economia moderna deriva da volatilidade da moeda, da “preferência pela liquidez” e das práticas financeiras arriscadas, é própria do pós – keynesianismo. Esse enfoque tende a refutar a imagem neoclássica de um equilíbrio intrínseco entre a produção e a circulação, que seria alterado apenas transitoriamente por desajustes em qualquer um dos dois setores. Nessa questão esquece-se que a superfície monetária não é geradora, mas receptora dos desequilíbrios reais do capitalismo”.

 

Por mais robustos que sejam os números da especulação financeira, as lições do velho Marx se mantêm cada dia mais atuais, a lógica da “nuvem” ou costumeiramente chamada de “mercados”, ao contrário do pensamento vulgar, não marxista, obedece a lógica geral da reprodução ampliada do Capital. Recorremos mais uma vez uma longa e esclarecedora dos autores citados acima:

 

“O peso inédito do capital financeiro foi decisivo, sim, na concentração empresarial mundial. Nunca se deve esquecer, porém, que, em última instância, o ciclo do crédito se contrai e se expande seguindo o ciclo industrial, os bancos concentram e redistribuem a mais-valia gerada no processo de produção, e inclusive os capitais fictícios emitidos sem contrapartida real dependem das atividades industriais. Qualquer que seja a sua separação da produção, os capitais financeiros não são “puros papéis”, enquanto o mercado lhes reconhecer algum preço. O mesmo vale para os títulos públicos. O que explica a circulação de qualquer forma de dinheiro é a existência de valores surgidos de atividades reais e direitos derivados da geração de mais-valia já criada ou a ser criada”.(grifo nosso)

 

Quando nos afastamos da linha e passamos a pensar pela lógica dos “mercados” a coisa toda, inclusive nossas analises, desanda. Capital. A Crise deflagrada em 2008 é exemplar neste sentido.

 

 

PIB Mundial X Especulação Financeira

 

 

A “Nuvem” que atingiu em títulos algo como 3 vezes o total do PIB mundial algo em torno de 140 trilhões de Dólares contra 46 trilhões de PIB, teve papel fundamental na imposição de uma nova realidade de relações econômicas mundiais. A rapidez com o Capital vai de país a país, impondo seus desejos de lucros transforma o estado/nação em mero intermediário do Capital global.

Mas atentem bem que quando irrompe a Crise em 2008, esta “Nuvem” controlada fundamentalmente por grandes bancos, como Goldman Sachs, HSBC, Mitsubishi, BNP Paribas, UBS e outros, passou por grandes fusões e quebras impressionantes como Lehman Brothers, a seguradora AIG e muitos outros que trabalhavam com taxas de alavancagem de até 40 vezes sobre seu patrimônio líquido.

Apenas de 2008 para cá cerca de 25 trilhões de dólares foram literalmente “queimados” na “Nuvem”, apenas em 2011 com o repique da Crise foi de 6,7 Trilhões de dólares. O que mais uma vez nos lembra Marx sobre : “a crise restabelece brutalmente, ao preço de grandes sofrimentos, as condições de rentabilidade do capital e de retomada da acumulação”.

Apenas para não deixarmos escapar a função do crédito ainda no volume III de O Capital:

“O crédito acelera as erupções violentas da contradição -crise- e, portanto, os elementos de desintegração do antigo modo de produção. O sistema de crédito aparece como o principal nível de sobre – produção e super – especulação no comércio somente porque uma maior parte do capital social é empregado por pessoas que não são seus proprietários e que, conseqüentemente, vêem as coisas de maneira diferente do proprietário… Isso demonstra simplesmente que a auto-expansão do capital permite um livre desenvolvimento real apenas até certo ponto, de modo que, de fato, constitui um freio e uma barreira iminente à produção que são continuamente transgredidos pelos sistemas de créditos”.

 

A “nuvem” ou os “mercados” que seduz de forma tão violenta os analistas do capital como Miriam, Sardenbergs, não pode também causar espécie entre nós, o rigor, a necessidade estudar os fenômenos sem nos deixar seduzir pelos dois lados: o da “expansão financeira” como fim último do Capital, escondendo o mais importante que é a reprodução ampliada do Capital e sua busca vital pela recomposição da Taxa de Lucros. Nem pelos dogmáticos da “crise permanente” que apenas enxergam (sic) o declínio do Capital, mas não explicam a sua recuperação e sua expansão entre uma crise e outra.

 

Este é um caminho muito difícil a percorrer, pois, para manter a coerência ideológica e a cabeça sempre pronta a pensar e analisar cada lance da luta de classes é um duro desafio, o modismo seduz de forma mais simples, parece dá resultados mais rápido e conjuntural.

 

 

0 thoughts on “Crise 2.0: A "Nuvem" Financeira”

  1. Verdade verdadeiríssima, sem a mais-valia num rola capital! E esse texto é bom pra lembrar o porquê da explosão: muito empréstimo sem lastro na mais-valia! (Aliás, meu caso no momento: vou me endividar pra mudar, por causa de uma cachorrada incontrolável, aiai… tomara que eu não exploda tipo 3.0…)

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