A condenação é dada como certa porque não julgamento, mas linchamento.

A condenação é dada como certa porque não há um julgamento, mas um linchamento.

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta”.
(Canto I – Os Lusíadas – Luís Camões)

É fato que estamos irremediavelmente vivendo sob uma nova época política, tão rapidamente transformada. As liberdades e as garantias; políticas, individuais e coletivas, estão por um fio, nada nos garante que em breve ele seja completamente rompido. O alerta não é conspiratório, apenas uma constatação do que se passa na sociedade.

A Democracia ruiu feito um castelo de cartas, em menos de três anos, das famigeradas jornadas de junho, pelo R$ 0,20, até a posse de um governo golpista. A construção da democracia pós-ditadura, consolidada com a Constituição e as eleições gerais, nomeadamente as escolhas pelo voto de presidentes, pareciam enterrar o sentimento golpista que está gravado no Etos da elite de Pindorama.

Mas eles apenas adormeceram, hibernaram, preparam pacientemente um golpe clássico, sem disparar um único tiro, mas engendrado pelo poder que jamais se renova, o judiciário, tendo como sócio menor, o legislativo. As instituições burocráticas do Estado funcionam para devorar o seu principal inimigo, o Povo e suas escolhas, certas ou erradas.

O segundo tempo que assistiremos em seguida será a condenação a jato do ex-presidente Lula, não vou entrar no mérito de culpa ou de crimes, pois nem mesmo os justiceiros de Curitiba conseguiram as tais provas, senão apenas suas convicções (políticas e ideológicas) de que houve crimes.

Parece-nos claro que há um norte, um objetivo: Criminalização da Política e da Democracia (tantas vezes tratadas por nós aqui). Sem respaldo constitucional ou nas leis, montou-se um Tribunal de Exceção, cujas teses orientadoras, são:

1 . Teoria do domínio dos fatos;
2. Teoria do Direito Penal do Inimigo;

Podemos fazer chover Habeas Corpus, representações, petições, que serão ignorados, a farsa está se fechando. O “julgamento” será a toque de caixa. Li quase todo o despacho do “juiz”, ele reproduz exatamente a sequência dos relatórios da PF e do MPF, apenas uma mera formalidade condenatória. Em muito do que escreveu, até parece uma sentença antecipada.

O recado é mais profundo: Ninguém mais pode fazer Política, em especial, a Esquerda. A condenação, com ou sem prisão, garantindo rapidamente de que Lula se tornará inelegível, com o PT sendo proscrito. Pela lógica, das teorias adotadas, desde o mensalão, não há defesa possível, é expressa a vontade de condenar, com ou sem provas, pouco importa.

Ao contrário do que se pensa não é Lula o punido, mas a sociedade democrática.

A Ditadura se impôs, bem-vindos ao Estado Gotham City, Curitiba é Blackgate.

PS: Vou espalhar Camões, é que me restou, no momento.

 

OS LUSÍADAS
Luís de Camões
Canto I
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.