Batman vs Bane (O Gigante Coxinha?)


Ano passado no calor da estréia da última parte da trilogia do Batman, o Cavaleiros das Trevas escrevi o post Batman: Capitalismo ou Barbárie? Centrado na narrativa política em torno do personagem principal, o que foi fundamental para que escrevesse o capítulo final do meu Livro Crise Dois Ponto Zero – A Taxa de Lucro Reloaded, e a tese que dele saiu, o novo Estado gestado na Crise 2.0, que passei a denominar Estado Gotham City.

Ontem revi com mais calma o grandioso filme de Christopher Nolan, realmente é a melhor adaptação de quadrinhos da história do cinema, além de ser uma ousadia completa de debater a realidade dos EUA, um panorama cruel que tem em Gotham a metáfora perfeita. Entretanto, deixei muita coisa escapar, em particular a construção do personagem do inimigo do Batman, o monstruoso Bane, uma aberração mascarada, aqui é o detalhe fundamental, Bane é na medida certa o “anônimo” ou o Gigante Toddynho das recentes manifestações.

De alguma forma tinha tido, em parte, este insight no post anterior quando disse que “Bane, o anti-herói toma o poder em nome do povo, uma caricatura de “socialista” ou dos “Occupys”. Todos são convidados a tomarem o poder, mas ali, na visão tipicamente de criar um caos, uma barbárie, com tribunais de exceção com um louco, Dr Crane, como juiz supremo, a condenação se dá em segundos, morte ou morte, pois o exílio é o caminho da morte“. Mas a ideia está incompleta, Bane é muito mais, ele é a ideologia recente do “novo” do “anônimo”, do herói digital, aliás, ele mesmo, assim se define: “Ninguém se importava quem eu era até que eu pus a máscara”. Ora, a máscara, já analisamos na questão do herói, a nova identidade como traço essencial, não restando duvida que a indumentária é para chamar para si todas as atenções.

O herói vindo do oriente, do estrangeiro, vem para conquista de uma cidade, para, em tese, libertá-la e que ela se devote ao seu culto, o que é parte mais ampla  do mito do herói, tema recorrente da mitologia grega, romana ou oriental. O próprio Bane reflete e fala que “Assumir o controle de sua cidade. Eis o instrumento de sua libertação!” e complementa dizendo “Não importa quem nós somos… O que importa é o nosso plano”. No diálogo com seu aliado rumo ao poder ele é bem mais direto quando o milionário percebe o tamanho de suas ambições ele diz: “Você é pura maldade!”  calmamente, Bane, retruca: “Sou o mal necessário”.  Aliás, ele se apresentará como o “purificador”, o salvador daquela cidade corrompida, daquela sociedade egoísta e miserável.

Mas a parte mais intensa e o cerne do filme é como Bane se torna o herói dos revoltados, o líder das massas, aquele “anônimo” que convoca os coxinhas contra os políticos, contra o Estado, contra a corrupção, contra tudo, adesão é instantânea e irrefletida, o brilhante discurso é feito em frente à prisão Blackgate (Guantanamo?) símbolo da violência e do Estado de Direito em nome da “guerra ao terror”, ali se prendeu sem direito a julgamento justo, revisão de pena ou progressão de regime, então Bane vai lá e faz seu palco teatral, é perfeito, primeiro destrói o antigo “herói”, Harvey Dent, desmascarando-o, depois convocando as massas para destruir o poder real e formal, ouçamos:

“Vocês foram presenteados com um falso ídolo para impedi-los de destroçar esta cidade corrupta. Deixe-me contar-lhes a verdade sobre Harvey Dent, nas palavras do comissário de polícia de Gotham, James Gordon: ‘O Batman não assassinou Harvey Dent; ele salvou meu filho e depois assumiu a culpa dos terríveis crimes do Harvey para que eu pudesse, para minha vergonha, construir uma mentira em torno deste falso ídolo. Eu louvei o homem que tentou matar meu próprio filho, mas não posso mais viver com minha mentira. É hora de confiar ao povo de Gotham a verdade e é hora pedir minha exoneração. ‘ E vocês aceitam a demissão deste homem? Aceitam a demissão de todos esses mentirosos? De todos os corruptos?”. “Nós tomaremos Gotham dos corruptos! Dos ricos! Dos repressores de gerações, que as oprimiram com mitos de oportunidade, e a devolveremos a vocês… o povo. Gotham é sua! Ninguém irá interferir. Façam como quiserem. Comecem invadindo Blackgate e libertando os oprimidos! Apresentem-se, aqueles que desejam servir. Pois um exército será formado. Os poderosos serão arrancados de seus ninhos decadentes e lançados no frio mundo que nós conhecemos e suportamos. Tribunais serão convocados. Despojos serão repartidos. Sangue será derramado. A polícia irá sobreviver, aprendendo a servir à verdadeira justiça. Esta grande cidade… ela perdurará. Gotham sobreviverá!”

Em cena paralela, o Comissário Gordon, assiste a cena perplexo, enquanto John Blake, o futuro Robin, o censura por ter participado daquela farsa, em nome de que? Jim Gordon dá uma resposta que estaria na boca de qualquer militante hoje, a governabilidade é o motivo e ele diz que um dia Blake poderia estar na mesma situação e diz “Eu espero que você tenha um amigo (Batman) como eu, que mergulha as mãos no lixo para que você possa se manter limpo!” A democracia tem caminhos e situações limites, mas as consequências podem ser terríveis, inclusive o surgimento de poderes paralelos, fora do estado, como a Liga das Sombras e anti-heróis, como Bane.

A situação política de Gotham City parecia apaziguada a Lei Dent (Patriot Act 1) em tese limpara as ruas, mas era apenas aparente, a Crise 2.0 atingiu a sociedade, e como diz Selina Kyle/Mulher-Gato, “um vento estranho se aproxima, que pode varrer tudo e todos, que as riquezas não se sustentariam, aquela opulência pagaria caro”. O que efetivamente se concretiza, nos subterrâneos da cidade, uma força foi sendo gestada, lentamente preparada nos esgotos, nos guetos, que passou completamente despercebido pela “inteligência” policial e política, quando ela explode, nada pode deter, tomando o poder com facilidade. A revolta explodiu pela eficiência da mensagem de Bane, o “Gigante” acordou e passou a apavorar a cidade, publicamente diz que vai limpar a cidade e entregar o poder ao povo, nas falas internas, ele apenas buscava o caos.

Uma visão messiânica que vê em Gotham City o símbolo do pecado, uma espécie de Sodoma ou Gomorra, que a “Liga das Sombras” ou seus herdeiros, acham que sua destruição vai “purificar”  e reequilibrar a humanidade, uma compreensão política muito parecida com os extremistas estilo Tea Party ou grupos que negam a democracia, os partidos e as organizações sociais. Impressionante como Bane tem identidade com as “ordens” anônimas  que surgiram na internet nos últimos tempos, os valores e a revolta são similares, as soluções, também.

Provavelmente voltarei ao filme, ainda há muita coisa a ser analisada, a riqueza de detalhes é enorme.

The Dark Knight Rises – Bane Blackgate Prison Speech

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=tzK97Aaj_U8[/youtube]

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4 thoughts on “Batman vs Bane (O Gigante Coxinha?)”

  1. Vi o filme no cinema e só não vi esses dias, pois passava “O Cangaceiro” no mesmo horário, na TV Justiça, este é o tipo do artigo que tenho de ler mais vezes e confesso que vou ficar pensando nele por um bom tempo….

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