Batman: Capitalismo ou Barbárie?

Batman, o Cavaleiro das Trevas ressurge.
Batman, o Cavaleiro das Trevas ressurge.

 

 

Neste fim de semana, finalmente vi a última parte da trilogia de Batman, O Cavaleiro das Trevas, a versão definitiva do herói adulto. Separando assim, os antigos seriados, quase comédia (O Batman “Gordinho” ), dos vários e irregulares filmes feito para cinema, desde final dos anos 80. Houve pelo menos três tentativas distintas de retratar o HQ, a primeira delas com um show de Jack Nicholson, que fazia o Coringa, depois Tim Burton, um ambiente gótico, mas não convincente. A última com Robin e uma representação mais juvenil.

Quando Christopher Nolan assumiu o comando de Batman, DC Comics estava decidida a enfrentar a legião Marvel com um herói mais “velho” com um apelo mais forte, buscou a versão mais carregada e destrutiva, uma visão de barbárie permanente, em alguma medida próxima dos conflitos de Wolverine e de X-Men. A reconstrução da origem da história de Bruce Wayne, com a morte dos pais, seu primeiro sumiço, com retorno no julgamento/absolvição do criminoso, parte dali sua descrença total na justiça estatal e no Estado de Direito.

Para uma melhor compreensão da minha visão sobre Batman, na série o Cavaleiro das Trevas, é preciso ler (ou reler) o texto A Questão do Herói , ali, com amplos detalhes, traço o conceito de Herói, desde seu nascimento, sua educação, seus ritos iniciáticos, de como assume “identidade secreta”, quando se torna protetor de sua cidade e/ou povo, as anormalidade físicas e espirituais, por fim sua queda e a morte. O conceito complexo da questão do Herói está presente em Batman, não aquele anterior “juvenil”, mas na sua mais ousada e plena forma, do Cavaleiro das Trevas.

Depois da primeira experiência de descida à caverna, um claro rito iniciático do pequeno Bruce, ele fará um novo mergulho, como numa segunda catábase, no oriente. Esta nova experiência, moldará definitiva o adulto, atormentado e amargurado Bruce Wayne.  Seu treino/ preparação pela Liga das sombras, com valores radicais de purificação humana, nem que para isto significa uma longa matança, indiscriminada, não identificando culpados ou inocentes, tratando a todos como um bloco único, apodrecidos pela corrupção, caos social e nenhuma perspectiva de saída política. A ordem e os planos da Liga eram caros demais ao jovem rico, de uma família que fazia da filantropia, uma tentativa de amenizar o caos.

Este novo Batman, quase conceitual, se deve graças ao desenho de Frank Miller quando recriou o herói com uma visão mais sombria, um homem atormentado psicologicamente, preso ao passado de culpas e desejo sádico de vingança. Que dar pouco ou nenhum valor ao Estado de Direito, agindo por conta própria, usando de seu poder para se tornar um “vigilante” social, que combate o crime a corrupção não respeitando ou reconhecendo os limites legais. Numa frase lapidar do filme dois, o Coringa sendo interrogado na prisão por Batman é bem direto: “Você e Eu somos foras da lei, não reconhecemos nenhum limite, somo iguais”. Aqui começa a problema conceitual de Batman.

A visão ultraliberal do roteiro de Miller coincide com o da Direita radical dos Estados Unidos, que se mostrou recentemente no Tea Party, o Estado é “inimigo” do povo, serve apenas para manter uma burocracia corrupta e falida. O heroísmo individualista, que pune os corruptos, não os levando ao julgamento legal, ou tribunais, no limite, os elimina fisicamente. A inspiração da “Liga das Sombras”, ainda mais radical que propõe a limpeza total e ampla de Gotham City (EUA), como se fosse purificar a humanidade, de tão corrupta e decadente civilização. A doutrina do império, mesmo com seu liberalismo exacerbado não tolera os radicais, ainda que semelhante com o diagnóstico de que Gotham e a civilização precisem de uma limpeza.

O Batman é a expressão de um estado de exceção, a Lei Dent, equivalente ao Patriot Act 1, que regeu os EUA após a queda das torres gêmeas, todas as garantias individuais estavam suspensas, o aparelho estatal visível nos filmes coincide também com a do império, só se enxerga a polícia e o poder coercitivo do Estado. As fundações privadas comandam as redes sociais de proteção, não o Estado, a Fundação Wayne sustenta hospitais, escolas e creches. A prisão de Blackgate pode ser a mesma de Guatánamo, os presos tanto numa como na outra prisão estão sujeitos ao regime de exceção, não cabendo progressão de pena, revisão, ou qualquer prerrogativa de Direitos Humanos.

A metáfora vai mais fundo, se no segundo episódio o caos total assombrou Gotham, assim como as queda das torres gêmeas assustou Nova York, o hiato de sete ou oito anos de uma aparente “paz” forçada pela lei Dent/Act 1, só terminará simbolicamente com a queda da bolsa de valores, a quebra dos bancos alimentadas pela ampla especulação, ou no filme a invasão direta, com transferências de valores, da maior empresa: Wayne Enterprise. A arte imita a vida, o herói é novamente chamado, para evitar a queda total. A leitura do conflito é bem definida, o poder do capital, também pode destruí-lo.

Poucas vezes um filme de ação, aventura conseguiu ser tão instrutivo. Bane, o anti-herói toma o poder em nome do povo, uma caricatura de “socialista” ou dos “Occupys”. Todos são convidados a tomarem o poder, mas ali, na visão tipicamente de criar um caos, uma barbárie, com tribunais de exceção com um louco, Dr Crane, como juiz supremo, a condenação se dá em segundos, morte ou morte, pois o exílio é o caminho da morte.  A bomba de Neutro, apocalíptica é armada. Nada ou ninguém será capaz de desmontar, a redenção de Gotham/Nova York, é certa, nem que seja pela sua destruição completa.

O filme é grandioso, como foram as primeiras partes da trilogia, mas é um aviso claro, não se trata de aventura, diversão, mas de ideologia, sem ideologia, uma surda luta, quase paranoica que diz: EUA estão mal, mas o que vem de fora é pior, a Liga das Sombras, similar a Al Qaeda ou qualquer coisa do gênero. Assim, Tea Party, Batman, o anti-Estado, se junta ao Comissário Gordon, Democrata, o Estado, para se livrar da barbárie. Mas o que sobrará disto tudo?

6 thoughts on “Batman: Capitalismo ou Barbárie?”

  1. Grane arno, ótimo texto.

    Já estava para comentar seu “Batman Gordinho” mas aguardei o lançamento do último epsiódio e de sua análise para fazê-lo.

    einhas referência de Batman iniciaram-se com o Gordinho mas se consolidaram, de fato, com a sequencia de Tim Burton. Para mim uma obra prima que funde elemebtos quase contraditórios: o gótico e um ambiente de quadrinhos mais, digamos, animado. Lembrando que o Gótico preconiza a escuridão, a penitência e a seriedade em seus ambientes. Mesmo com falhas, Jack Nicholson como Coringa e Michele Pfifer como Mulher-Gato foram escolhas perfeitas e a direção de Burton muito boa. Para mim as interpretações ajudaram a elevar os dois primeiro episódios a filmes, para mim, lendários.

    Não perdeirei tempo analisando os dirigidos por Joe Schumacher pois eles não valem nem para gastar o dedo digitando.

    Quando veio a sequencia de Nolan confesso que sequer fui ao cinema dado meu desencanto com os filmes anteriores. Optei por esperar o DVD.

    O primeiro filme da série, Batman Begins, para mim também foi épico. Bom casting, bem ambientação e um com Batman quase dialético, sempre expondo suas feridas.Com momentos quase Hegelianos, onde a espiral negativa toma conta do ambiente e parece que não há superação possível. Ainda sim, tendo a concordar com o aburguesamento do herói e aquele irritante tom conferido por Hollywood de que tudo deve terminar razoavelmente no final. Talvez isso deixe a obra incompleta

    Já em O Cavaleiro Das Trevas, a questão do Vigilante é colocada à mesa, assim como o controle social através de ferramentas teconológicas. No entanto, o “Bushismo” da prática é solapado no final do filme, quando Lucius Fox destrói a máquina que permite que permite ao Batman interceptar todas as ligações telefônicas de Gotham. Sem falar no enfrentamento com o Coringa, que tortura e quebra o herói, colocando-o em seu devido lugar, um humano empoderado mas muito contraditório. Creio que as mensagens do Dark Knight foram bastante profundas no campo ideológico.

    Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, embora o tom ideológico tenha ficado claro e você o descreveu muito bem, o fio condutor dialético negativo prossegue, com personagens sempre contraditórios e auto-destrutivos e onde vitória no campo material é apenas mais um estágio para outras crises que estão por vir.

    Portanto, achei a trilogia de Nolan muito boa. Ideologicamente melhor do que a Burton e com personagens mais conectados às nossas próprias contradições.

    Um abraço!

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