Crise 2.0: O Estado Gotham City

 

A sombria Gotham City, paradigma do "Novo Estado"

 

Em março deste ano, fiz um longo artigo aqui na série sobre a Crise 2.0, tratando da questão do Estado e atual crise  Crise 2.0: Uma tese, o papel dele, até desembocar na explosão do neoliberalismo,mas acabei mostrando uma visão macro, mas de vez em quando há necessidade de compreender sua melhor definição, ou como atua de forma mutante, sempre a serviço do Capital, ou da fração do Capital que domina e dá a dinâmica da economia. As reflexões não fecham o quadro geral, mas apontam algumas tendências, e são estas que mais nos interessa.

 

O Estado, que surge desta crise, começou a ser gestado nos anos 80, e teve na queda do muro de Berlim, seu maior ganho. Desde ali,  não mais preocupado em atender as demandas sociais, ou fazer contraponto, ao leste europeu, sem estas obrigações amplas, a diminuição dele, o corte das garantias, virou a obsessão do Capital. A redefinição do papel do Estado, seu tamanho, alcance, foi paulatinamente sendo trabalhado, tanto do ponto de vista econômico, como político, mais ainda sobre o aspecto ideológico.

 

Esta redefinição é bem clara, uma parte da burocracia é cortada, as empresas privatizadas, preservando-se apenas o aparelho repressivo, na maioria dos países ele permanece intacto. Até a indústria armamentista, de composição majoritária estatal, foi “terceirizada”, o controle do processo é do Estado, por óbvio, não se perde a força maior, da coerção e ameaça. Saúde e Educação, foram fortemente atacadas, nos países mais periféricos, que ainda começava um incipiente estado de bem estar social, nem tiveram inteiramente implementado, já sofreram o baque do “novo modelo”. Nos países centrais o desmonte se deu de forma mais lenta, principalmente na Europa Central.

 

Mas, na atual crise, este desmonte virou regra geral, os volumes de recursos gerais do Estado com centralização, arrecadação de impostos, forma integralmente entregue aos grandes bancos e empresas, apenas os EUA gastaram cerca de 5 trilhões de Dólares para “salvar” a economia, com uma ampla ampliação da base monetária, mesmo assim patina, mas com tudo o Senhor Larry Summers, um ideólogo dos Democratas, que assumiu o liberalismo extremado diz, sobre as funções do Estado: “Além disso, se não houver uma regulação punitiva, as inovações na tecnologia de informação, as redes sociais e as novas descobertas de petróleo e gás natural parecem ser fontes de investimento e criação de empregos”.

 

O que assistimos na Europa, é um indício claro da selvageria do “novo Estado” que passo a chamar de Estado Gotham, o esvaziamento das funções sociais, com cortes gigantescos na Saúde e Educação, o paradigma, hoje, representado por Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda. Alguns dirão, mas estes nunca foram do clube dos ricos, ou tiveram estado de bem estar social, concordo, mas o que dizer de Itália, que caminha para mesmas medidas de austeridades da Troika? Ou a agenda 2010, imposta a Alemanha pelos Social-Democratas, que os fez perder o poder para direita de Merkel. A expressão deste estado Gotham é clara. Fiz alusão a ela no post Batman: Capitalismo ou Barbárie?

 

“A visão ultraliberal do roteiro de Miller, coincide com a Direita radical dos Estados Unidos, que se mostrou recentemente no Tea Party, o Estado é “inimigo” do povo, serve apenas para manter uma burocracia corrupta e falida. O heroísmo individualista, que pune os corruptos, não os levando ao julgamento legal, ou tribunais, no limite, os elimina fisicamente. A inspiração da “Liga das Sombras”, ainda mais radical que propõe a limpeza total e ampla de Gotham City(EUA), como se fosse purificar a humanidade, de tão corrupta e decadente civilização. A doutrina do império, mesmo com seu liberalismo exacerbado não tolera os radicais, ainda que coincida o diagnóstico de que Gotham e a civilização precise de uma limpeza.

 

O Batman é a expressão de um estado de exceção, a Lei Dent, equivale ao Patriot Act 1, que regeu os EUA pós a queda das torres gêmeas, todas as garantias individuais estavam suspensas, o aparelho estatal visível nos filmes coincide também com a do império, só se enxerga a polícia e o poder coercitivo do Estado. As fundações privadas comandam as redes sociais de proteção, não o Estado, a Fundação Wayne sustenta hospitais, escolas e creches. A prisão de Blackgate, pode ser a mesma de Guatánamo, os presos tanto numa como em outra estão sujeitos ao regime de exceção, não cabendo progressão de pena, revisão, ou qualquer prerrogativa de Direitos Humanos.

 

A metáfora vai mais fundo, se no segundo episódio o caos total assombrou Gotham, assim como as queda das torres gêmeas assustou Nova York, o hiato de 7 ou 8 anos de uma aparente “paz” forçada pela lei Dent/Act 1, só terminará simbolicamente com a queda da bolsa de valores, a quebra dos bancos alimentadas pela ampla especulação, ou no filme a invasão direta, com transferências de valores, da maior empresa: Wayne Enterprise. A arte imita a vida, o herói é novamente chamado, para evitar a queda total. A leitura do conflito é bem definida, o poder do capital, também pode destruí-lo.

 

Poucas vezes um filme de ação, aventura conseguiu ser tão instrutivo. Bane, o anti-herói toma o poder em nome do povo, uma caricatura de “socialista” ou dos “Occupys”. Todos são convidados a tomarem o poder, mas ali, na visão tipicamente de criar um caos, uma barbárie, com tribunais de exceção com um louco, Crane, como juiz supremo, a condenação se dá em segundos, morte ou morte, pois o exílio é o caminho da morte.  A bomba de Neutro, apocalíptica é armada. Nada ou ninguém será capaz de desmontar, a redenção de Gotham/Nova York, é certa, nem que seja pela sua destruição completa”.

 

A receita parece clara, de como agirá o Capital, minha dúvida é: Como reagirá o outro lado?A Classe trabalhadora, o povo em geral mais massacrado, vai tolerar, esta combinação de exclusão, repressão, sutil ou aberta, contra si, ameaçando, muitas vezes, em alguns países, até a sobrevivência mínima? O que faremos?

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