A Democracia Morreu?

A Democracia numa época de extrema velocidade e manipulações.

Uma reflexão sobre o destino da democracia, aqui e hoje, em Atenas é de algum modo perturbante, porque obriga a pensar o fim da democracia precisamente no lugar onde nasceu”.(Agamben, palestra em Atenas, novembro de 2013)

No desassossego venho escrever, no silêncio da noite, de mais um domingo, que morre lentamente, o frio e dois documentários mexem com meus poucos neurônios acordados, aparentemente temas diferentes, mas são absolutamente complementares: Uma Nação Estressada (HBO) e o outro, Privacidade Hackeada (Netflix). São perturbadores e nos põe essa questão título: A Democracia Morreu?

A questão da privacidade hackeada não está ligada apenas a componente de tecnologia ou de manipulação de dados e informações pessoais, mas a um completo domínio da subjetividade humana, completamente capturada pelo medo, no sentindo amplo, de perder o emprego, de atentado, de violência, de que não ter o que comer, de não ter futuro algum, o que gera uma profunda ansiedade e estresse social.

O estresse nos EUA reduz a expectativa de vida, o país tem 4.7% da população mundial, mas consome 80% de todos os remédios contra estresse, ansiedade e depressão. É uma epidemia que atinge a classe trabalhadora, em particular, os brancos, que pela primeira vez em décadas, experimenta um empobrecimento, que se aproxima dos negros e latinos, numa escalada de mortes violentas, especialmente suicídio por armas.

Essa combinação explosiva de doenças com empobrecimento, incertezas com o futuro, sem que haja nenhuma ação do Estado, gera um amplo questionamento sobre a riqueza imensa gerada, ao mesmo tempo, a diminuição da renda, com a miséria, o subemprego, a uberização da vida, a desagregação social, com governos que não gestam políticas, pois a burocracia perene, imposta pelo Kapital, impede qualquer iniciativa que mude o status quo.

Em novembro de 2013, o filósofo italiano, Giorgio Agamben fez uma palestra em Atenas, e anunciou que era estranho está ali, no berço da Democracia ocidental, para dizer que não sabe mais se na Europa e nos EUA, como em boa parte do mundo, se o que se pratica é Democracia e se ainda existe política. A provocação é pouco respondida, ou quase sempre com slogans, como. pós-verdade, pós-democracia, sem ir ao âmago da proposição.

Por caminhos diferentes, chegamos ao mesmo ponto: O novo Estado tem como fim a destruição da Democracia e da Política, ainda que a forma não seja explícita, mas todas as ações são para consignar esse objetivo. Sob meu ponto de vista, a razão é a impossibilidade de conseguir pacificamente um novo arranjo de classe para que se inicie um amplo ciclo de expansão do Kapital.

Aqui as contradições próprias do capitalismo, combinadas com os avanços tecnológicos e da informação, não parece mais a simples imposição da força, especialmente para cortar de vez direitos conquistados nesse último século. O simulacro de eleições e de alternância, levou a um completo descrédito nas instituições, nos poderes da República, pois não se consegue mais transmitir que haverá mudanças e que as pessoas poderão ter melhoria em suas condições elementares de vida.

O reino da Democracia e da Política foi o caminho usado pelo Kapital para que os trabalhadores aderissem ao Estado de bem-estar social, em contraposição ao “leste europeu” autoritário. As significativas melhorias de suas condições de vida serviram para aumentar a coesão e/ou coerção durante boa parte do século XX, principalmente pela “ameaça” do comunismo. Em meado dos anos de 1980 há uma virada profunda, com o avanço do neoliberalismo e principalmente com a queda do leste europeu.

Essa mudança de paradigma alterou o caráter do Estado, mas ainda convive com o híbrido de restos do Estado de Bem-estar social, em particular na Europa. Com o advento da Crise de 2005/2008, talvez a mais profunda desde 1929, a recomposição da taxa de lucro exigirá um profundo ataque aos direitos dos trabalhadores e do povo, não sendo mais possível as políticas compensatórias como de antes.

O conflito se impõe, espertamente um novo “inimigo”, o terrorismo, surgiu para justificar medidas de força, baseadas no Medo, como perfeitamente descreve Giorgio Agamben

As saídas autoritárias, por vias eleitorais, conquistadas na forma de manipulação de mentes, fakenews, nos lembra o alerta Agamben sobre o totalitarismo hoje: “O estado de emergência não é um escudo que protege a democracia. Pelo contrário, ele sempre acompanhou as ditaduras e até forneceu um quadro jurídico para as atrocidades da Alemanha nazista.”.

Depois deixa claro Estado de Exceção, não tem nada de provisório, pois o caráter é de uso permanente, pois, “O estado de exceção era um dispositivo provisório para situações de perigo. Hoje, converteu-se em um instrumento normal de governo. Com a desculpa da segurança frente ao terrorismo, ficou generalizado. A exceção, por isso se chama estado de exceção, é norma. O terrorismo é inseparável do Estado porque define o sistema de governo. Sem o terrorismo, o sistema atual de governo não poderia funcionar. 

E alerta para o uso da tecnologia como fundamental na nova dominação autoritária: “Há dispositivos como o controle das pegadas digitais, que lhe escaneia nos aeroportos, que implantaram para controlar criminosos e agora se aplica a todos. Na perspectiva do Estado, o cidadão se converteu em um terrorista em potencial. Do contrário, não se explica o cúmulo de câmeras que nos monitoram em todas as partes. Somos tratados como criminais em potencial. O cidadão é um suspeito, numerado, como em Auschwitz, onde cada deportado tinha o seu número”. E o mais grave: “Depois de Auschwitz, o presente”.

Por fim relaciona a questão do Estado exceção com a perda de legitimidade do poder “Isso acontece em muitos Estados: há legalidade, porque se cumprem as leis, porém não legitimidade. Como consequência, os cidadãos confiam menos nas urnas e cresce a abstenção. Na Itália, nas últimas eleições, a participação foi quase tão baixa quanto nos Estados Unidos: uma abstenção de 40%. Um fenômeno que não se havia produzido antes, e que está relacionado com o fato de as pessoas terem se dado conta que os Governos não são verdadeiramente legítimos. Legais, sim: mas não legítimos”.

O uso da força, em substituição da política e da democracia, lembra o governo nazista de Hitler e cria um fenômeno de claro recuo civilizatório, há definhamento intelectual, a volta de crendices bizarras, como a terra plana, a mamadeira de piroca, vontade divina em escolhas, refletem a confusão mental e política que assola o planeta, que facilita figuras sem nenhuma empatia humana, chegar ao governo, como Trump, Bolsonaro, Duterte, Macri, Macron e tantos outros, nesses ventos terríveis, nesse quadrada mundial.

A situação se deteriorará rapidamente, diz Agamben, que “é a mudança do estatuto político dos cidadãos e do povo, que deveria ser o titular da soberania. No Estado de Segurança, há uma tendência irrepreensível ao que só pode ser chamado de uma despolitização progressiva dos cidadãos, cuja participação na política é reduzida às urnas. Esta tendência é particularmente preocupante e até havia sido teorizado por juristas nazistas, definindo o povo como elemento essencialmente apolítico, cujo Estado deve garantir a proteção e o crescimento”.

Todo esse conjunto de medidas, de mudança do caráter do Estado não é possível sem a quebra do Estado de direito, aqui o judiciário dará a contribuição fundamental com “a transformação radical dos critérios que estabelecem a verdade e a certeza na esfera pública. Registra-se, acima de tudo, a um observador atento às atas de crimes de terrorismo, a renúncia total do estabelecimento da certeza jurídica.”

Nos lembra o filósofo que “compreende-se, em um Estado de direito, que um crime só pode ser comprovado por um inquérito judicial, sob o paradigma de segurança devemos nos contentar com o que dizem polícia e os meios de comunicação que dela dependem – ou seja, duas instâncias que sempre foram considerados pouco confiáveis. Daí as imprecisões incríveis e as contradições patentes nas reconstruções apressadas de eventos, que conscientemente iludem qualquer possibilidade de verificação e falsificação e que mais se parecem com fofocas do que com inquéritos. Isto significa que o Estado de Segurança tem um interesse em que os cidadãos – cuja proteção ele deve assegurar – permaneçam sem saber o que os ameaça, pois incerteza e medo andam juntos”.

O mais perturbador de tudo que lemos de Giorgio Agabem, é que mesmo quando se refere ao caso recente da França, o nosso sentimento é de que ele descreve o Brasil dos últimos anos. E, mais ainda, o recente Golpe Institucional, das ações da chamada “República de Curitiba”, ou do casamento entre Polícia e Mídia, como “fontes” (não) confiáveis do que está a investigar. A quebra do estatuto político, aqui, se deu com o sequestro de 54 milhões de votos, por um congresso dominado por um réu de tantos processos, mas que a suprema corte se negou a julgar.

Esses tempos estranhos, o Kapital, controlado pela fração do Kapital financeiro, com a orgia praticada pela nuvem de trilhões que se move pelo mundo destruindo economias, povos, nações e histórias, não nos surpreende que abertamente pregue, para seus acólitos, que a democracia e a política já não são importantes, que no fundo atrapalha o “crescimento econômico” e sua capacidade, individual, de ser rico, por seu mérito.

A meritocracia como ideologia sequestrou corações e mentes, em especial, das classes médias urbanas. O exemplo do Brasil, a selvageria pós-2013, põe em xeque aqueles que acreditavam que as jornadas de junho, traziam uma renovação e uma perspectiva alternativa ao PT, PSDB e as velha política dos caciques regionais e seus acertos congressuais.

O caráter da catarse geral do “Outono Brasileiro” precisa ser investigado em várias frentes, o debate  deve começar por questões objetivas, da estrutura da Economia, com seus reflexos na Política, entender a lógica por trás da rebelião, e depois as consequências funestas, com o congresso dominado pelo que havia de pior na política, que levou ao impeachment, o governo do golpista-menor, Temer, por fim a ruptura completa da racionalidade, com a vitória de Bolsonaro, o pior entre os piores.

Porém, a questão não se resolve somente com uma análise objetiva ou estrutural, ela deve, necessariamente, descer para um outro nível, mais subjetivo, que é o entendimento psicológico que envolve uma explosão social de massas. A releitura  Wilhelm Reich, que produziu, um dos melhores textos analíticos sobre o fenômeno do Fascismo, de como surge e suas principais características, em particular a catarse de massas, de movimento contra tudo e todos, que esconde um profundo reacionarismo político.

A questão da morte da Democracia, não é mera especulação, pelo menos de como a conhecíamos, seus ritos, formas, acertos e acordos. Essa ruptura põe em revelo, um choque de gerações e de como a Política foi concebida e praticada. O tempo, no sentido da velocidade e circulação de informações (falsas ou verdadeiras) modifica o modo de se fazer política.

Essa nova lógica parece nos escapar, o repensar e o agir, nesse campo democrático, que vai além da Esquerda, precisa se adequar, para que a morte simbólica da Democracia, não se torne real e de fato. A alternativa que se apresenta e ganhou, não importa como, corações e mentes, é próxima ao fascismo, aproveitando de elementos de barbárie e de refluxo das lutas, para se impor de forma radical.

Uma verdadeira barbárie conduzida por judiciário, polícia e, principalmente, pela mídia, transformando tudo em espetáculo, escondendo quem comanda o massacre, o grande Kapital, sem meias palavras.

Uma tragédia!!!

Post scriptum

Alguns fios para uma nova reflexão.

MORTE

O suicídio por armas, mata mais que o enfrentamento por armas, mortes violentas e em massa. No fundo a angústia é produzida pelo:

MEDO

E o medo é a arma para se renunciar a direitos, em nome da Segurança. São consequências e são políticas manietadas pelo Kapital.

Morte e Neoliberalismo: Necropolítica

Essa lógica produze um lado B terrível. Os EUA tinham a maior expectativa de vida até a virada dos anos 70, coincidentemente nos governos Reagan começam a cair de forma constante, hoje é o mais baixo entre os países mais ricos, virou uma epidemia crônica, estresse e angústia, seguido de morte.

A Necropolítica, na metrópole, se antes atingia quase exclusivamente a população negra e latina, nos anos 2000, pegou a classe trabalhadora branca e as classes médias brancas, e isso se tornou explosivo.

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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