Espelho: A Dualidade do Ser

Um Narciso redivivo, assombra o ser humano.

“O coração lhe abrasa: vê no espelho
Das águas exprimida bela imagem,
E o mesmo vê-la foi, que logo amá-la,
Julgando corpo ser, o que era Sombra.
De si mesmo se espanta, e fica imóvel,
Revendo-se em si próprio, qual estátua
Em mármore de Paros esculpida”.
(Metamorfoses – Ovídio)

É na frente do espelho em que verdade e mentira se separam. Podemos nos esconder de qualquer coisa, mas não tem como fugir diante de nós mesmos, ali, inteiros, sem escapes, máscaras. Ora, se Narciso ficou encantado pelo que viu, ou pelo que acha que viu, toda sua beleza, quem sabe toda sua dor, a consciência abandona o inconsciente e se torna presente. Então paralisa, o mergulho no espelho, mata.

Diante do espelho, é de se notar que há uma inversão de si, quase por magia, que vai se materializar na imagem, não mais a projetada nele, mas a real, aquela que assusta, que nos assombra, é a beleza com todas as suas nuances que aparece em plenitude, o diálogo é cortante, sem mediações, tudo pode ser dito, ouvido e visto, a repartição do ser, em dois, ou tantos mais estarão ali.

Quase extensão do espelho, é a transferência, ou a projeção que se faz com os nossos espelhos, os continuadores do que somos, ou nem somos, mas que queríamos que fôssemos, embora que cada um de nós seja meio, pois ele espelha o anterior, nosso criador, viramos criatura e pela incessante dialética da vida, viramos criador, na ilusão que o próximo será melhor, e será melhor e melhor.

D’us primeiro criou o anjo mais belo, que não tardará vai desafiar o criador, assim como faz Cronos ante Urano, ou ele próprio por Zeus diante do pai, a sucessão ou o despótico destino, é sempre feito pelo espelho, é inescapável, o novo vem superar o mais antigo.

A luta para controlar a imagem, o poder, ou a verdade una, monolítica, deve cair com a inevitável sucessão, que passa a ser uma certeza, aquele que diz “que se faça a imagem e semelhança”, apenas olhou para dentro de si e criou, por que então tolher a criatura?

A dupla imagem formada pelo espelho, o uno se divide, torna-se dois (vários, múltiplos), ainda que queira aprisionar o que se viu, ele já se foi, se libertou e quando capturado, já não é mais o mesmo, pois a imagem virou apenas sombra do que se era, e não é mais, tornou-se outro, assim para sempre…

Ainda que pensemos que a realidade virtual seja algo novo, da internet, é mero desconhecimento dos mitos, da literatura, é que a second life, é um Narciso, sem espelho.

Quando vamos mergulhar no espelho, na nossa psiquê?

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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