Crise 2.0: Espanha, outra Grécia?

 

Ontem retomei a série Crise 2. 0, num artigo ( Crise 2.0: Panorama Geral)  tratando de visão global do conjunto de elementos conjunturais que forma este intricado quebra-cabeça da Economia mundial. Busquei localizar os principais vetores da Crise e a situação dos principais atores: EUA, Zona do Euro e os BRICS.  Anteriormente tinha escrito sobre algumas tendências, em dois artigos:

Crise 2.0: Algumas Tendências I

Crise 2.0: Algumas Tendências II

 

Esta retomada será feita com artigos que aponte os rumos globais e as principais tendências e desdobramentos da Crise. O que está escrito em toda série já dá uma visão, a minha, bem precisa de como a economia capitalista está funcionando. As armas usadas pelo Capital para sobreviver, a questão do Estado, da ideologia e poder. Busquei fazer um corte marxista para ajudar a entender de forma global os eventos aparentemente ilógicos.Pelo menos, para mim, de certa forma esta série respondeu.

 

A Questão espanhola

 

Agora é centrar fogo em situações que explodem ou grandes mudanças de rumos, neste três posts algumas situações se repetem, em particular o agravamento da crise na Espanha, assim descrita:

 

“A Espanha precisa claramente ficar mais competitiva; talvez as reformas no mercado de trabalho que ela está tentando implementar façam o truque, embora eu tenda a ser cético; se não, a questão será de deflação relativa gradual – ou saída do euro e desvalorização”. (Paul Krugman, citado em Crise 2.0: Algumas Tendências I)

“A tendência agora é que as baterias se voltem para a península Ibéria, a combalida Portugal e a claudicante Espanha, estes países, que saíram do foco da Troika, durante a crise grega, voltarão ao centro, numa repetição da crise do ano passado.” (Crise 2.0: Algumas Tendências I )

 

“A Espanha continua sendo fonte de alta preocupação, em particular, porque sua economia está estagnada e em queda desde início de 2011, piorando a situação do emprego. Hoje, cerca de 25% da população espanhola vive em situação de pobreza, dados compatíveis com a países em desenvolvimento, mas impensáveis para um país da Zona do Euro”. (Crise 2.0: Algumas Tendências II)

E ontem:

Espanha aprovou todo o pacote radical de ajustes do Governo da Direita, enfrentou uma greve geral com muitos distúrbios, prisões e feridos. Mesmo assim se discute um pacote de salvamento emergencial de 200 bilhões de Euros. (Crise 2.0: Panorama Geral )

 

Em vários outros posts tratei sobre Espanha, a mudança de Governo, do PSOE( com programa de capitulação neoliberal) ao novo governo de Direita, mais próximo ainda da Extrema-Direita radical, que mistura política com religião( vinculação com clero extremista). A própria vitória de Rajoy , que lhe deu ampla maioria no parlamento, rapidamente fez aprovar o mais drástico pacotes de medidas, mas nada aplaca a “fome” do “deus mercado”.

 

Os últimos dias têm sido de derrotas seguidas para o Governo Espanhol, a vigorosa greve, demonstrou o total descontentamento dos trabalhadores frente as medidas impostas, os direitos elementares são atacados, mesmo assim a economia só retrocede. Quando assumiu o governo, Rajoy prometeu cortar 16,5 Bilhões de Euros do orçamento, agora, três meses depois, aumenta o pacote para 27 bilhões. No dia 02 de abril, assim, Rajoy definiu, segundo o EuroNews:

“Espanha está face a uma tarefa gigantesca mas não renuncia ao objetivo de redução do défice público”: as palavras são do primeiro-ministro Mariano Rajoy, numa declaração que visa acalmar a sociedade espanhola e recuperar a confiança dos investidores.

Na véspera de apresentar ao parlamento o orçamento de extremo rigor, Rajoy afirmou: “Não estou aqui para dar boas notícias aos espanhóis. Agora, é o momento de criar as bases para a retoma da economia espanhola para que, em breve, possa começar a criar emprego”. (EuroNews 02/04/2012)

 

Já no dia 03 de Abril a apresentação do Orçamento geral ficou claro qual o caminho escolhido:

“orçamento preparado pelo governo não tem nada de novo para os espanhóis: é austeridade, austeridade e mais austeridade.O documento revelado hoje tem o objetivo muito claro de reduzir o deficit de 8,5 para 5,3% em 2012, por exigência de Bruxelas.

O ministro do Orçamento, Cristobal Montoro, disse aos jornalistas que se trata de “um orçamento extraordinário em termos da redução da despesa pública e do aumento da receita, em consonância com a situação que a Espanha está a atravessar”. (EuroNews 03/04/2012)

 

Mesmo assim a emissão dos novos títulos foi um grande fracasso, o Governo preparou toda a cena de mais corte e austeridade, mas o “Mercado” não acreditou. Espanha só tem rolado sua dívida com títulos de curtíssimo prazo, no início de março com relativo sucesso fizera leilão de títulos de 12 e 18 meses, estes foram turbinados pelos mais de 600 bilhões de Euros tomados ao BCE por bancos privados. Naqueles dias as compras foram com juros “baixos” . Porém, ontem, ao lançar os Yelds, obrigações de 10 anos, os juros foram de 5,7%, para 3,5 bilhões de Euros.

 

Uma conta rápida, a captação privada em Fevereiro junto ao BCE foi 1% ano, em títulos de 3 anos, mas agora o Governo Espanhol tem que vender seus títulos a valores quase 6 vezes que estes mesmos bancos pegaram do BCE. Fica claro que os banqueiros vão estocar moeda/títulos, mas não emprestarão à países em derrocada. Todos os esforços, toda sorte de sacrifícios impostos ao povo espanhol, em particular aos trabalhadores, pelo governo de Direita, parece em vão.

“O prêmio de risco da Espanha – medido pela diferença entre o yield dos bônus espanhóis de 10 anos e o equivalente da Alemanha – superou 400 pontos-base pela primeira vez desde dezembro. Os bônus espanhóis haviam se beneficiado no começo do ano com as operações de refinanciamento de longo prazo (LTRO, na sigla em inglês) f
eitas pelo Banco Central Europeu (BCE), que forneceu alívio para os mercados. Mas os receios com relação ao orçamento para 2012 apresentado pelo governo, que prevê mais austeridade, levaram os investidores a se afastarem dos papéis, como se viu no fraco leilão de bônus espanhóis realizado ontem”.

 

As draconianas medidas não salvam o país da crise, que rumo ao caos grego. As perspectivas de curto prazo são de piorar acentuada, não há nenhuma medida que aplaque ou vise aliviar a situação do povo espanhol, o empobrecimento é acelerado, o desemprego bateu recorde histórico, 23,8% e chega aos 50,4% entre os jovens. Cada vez mais as metas do subserviente governo Rajoy com a Troika, se tornam distantes. É uma armadilha, corta o orçamento, flexibiliza, mas o país está literalmente parado.

Como diz um analista ao EuroNews:

“O analista Pablo de Barrio defende: “Nesta situação faz falta uma ajuda adicional do Banco Central Europeu. O risco do novo orçamento de austeridade é reduzir as despesas e aumentar as receitas, mas estas podem ser inferiores ao previsto pelo governo se a atividade económica contrair muito”. (EuroNews, 04/04/2012)


“Hoje não trabalhamos, hoje não consumimos” era o canto dos trabalhadores e reflete bem o que se passa na sociedade espanhola, um sentimento de derrota, depois da intensa euforia com o Euro e uma riqueza que não se repartiu, algumas grandes empresas espanholas foram as grandes beneficiárias do anos dourados, como Telefônica, Santander, enquanto o povo foi relegado e agora é “convidado” a pagar a conta.

 

 

 


 


 



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