2095: A realidade devastadora dos seres humanos do centro de São Paulo.


Suplicy é um dos poucos homens públicos que se dispõe a mediar o caos do centro de São Paulo.

Ontem participei de uma manifestação na região da Luz, vulgarmente chamada de Cracolândia. Mesmo tendo ido lá várias vezes, parece que a cada nova ida, a dor aumenta, o sentimento de que a vida humana ali foi sequestrada, o cenário é desolador, os momentos tensos não foram devidamente processados, pela responsabilidade política, somos obrigados a nos abstrairmos de tudo.

Pela noite, bem tarde, na madrugada, fiquei me sentido devastado, todas as lágrimas contidas, a frieza de lidar com um possível e explosivo conflito e de me manter firme, tudo isso foi substituído por uma dor no peito, desespero e vontade de gritar, me maldizia de ter vivido e passado por uma cena de barbárie, é assustador como as pessoas ficam insensíveis diante da tragédia.

Aquelas vidas humanas, naquelas terríveis condições, nos expuseram ao ridículo de nossa existência fútil, mais uma vez ali, percebo como nossas vidas de competição de indiferença, do apego ao dinheiro, ostentação tola, é que efetivamente pouco tem valia.

A barbárie bateu forte, não apenas no Fluxo, na Cracolândia, ela se espalha pela cidade, a Praça da Sé é o “vale de lágrimas”, homens e mulheres, vivendo sem rumo, sem nada, expostos (as) ao sol, ou a chuva, frio e calor, sujeira, podridão, dependendo de uma caridade, de uma comida, um sopão da noite, uma barraca, um abrigo, e no outro dia, a mesma coisa, o vício, a bebida, qualquer coisa pode amenizar (ou não) as dores.

Nada mais sobrou, a percepção que tenho é que a degradação do centro velho de São Paulo, ou de várias cidades no Brasil, foi se aprofundando vertiginosamente nos últimos anos, tem uma relação íntima, com a questão política, os pornográficos ganhos do grande capital, pós golpe, mesmo na pandemia, estão em relação de gozo com a miséria das ruas, o empobrecimento das periferias, favelas e morros.

O que se arranhou de classe C e D, hoje se caminha para subdivisões mais pobres e miseráveis, a destruição do Estado, a perda de suas funções, o tal teto dos gastos conspira para que a barbárie se torne o comum, os muros serão mais altos, as milícias privadas serão a opção da parte da classe média que vai sobreviver, a pequena parte da burguesia tem sua polícia e exército, público e privado.

A questão exposta pelo Fluxo não é moral, não é de apelo religioso, é uma questão ética, humana e política, o enfrentamento do Fascismo, das soluções autoritárias.

O campo de concentração, que parece ser a “solução” da prefeitura de São Paulo, de levar os que sobraram da Cracolândia para fora da cidade e esconder as mazelas, primeiro, o balanço geral, de expulsão do Fluxo, perambulando pelas ruas e praças, e, com a pressão policial, associar o máximo que puderem ao crime, às facções, para que a sociedade aplauda a higienização, pura e simples.

É isso que se quer em São Paulo, no Rio de Janeiro, Salvador?

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