Pensar a felicidade,

Pensar a felicidade,

“eis que nos pinta a felicidade do sábio: dos templos serenos da sabedoria, contempla a seus pés a agitação dos homens, as suas inquietas, ambiciosas e egoísticas rivalidades; é simples e sem necessidades; estende-se à borda de um regato, à sombra de uma árvore, para se deliciar com o encanto e a paz da natureza; sabe que os cuidados não cedem ante o esplendor das águas, nem ante o poder e a magnificência terrestres; só a luz da razão os pode dissipar”. (Tito Lucrecio Caro – Da Natureza)

Cerca de duas semanas atrás fui almoçar com meu amigo Alessandro Nogueira, dia do aniversário dele, minha filha fazendo ENEM e ficamos por horas conversando. No meio do papo entramos em temas espinhosos, entre os quais a Felicidade e sobre a razão de se viver, nas imensas lutas para manter a dignidade e o que é ser feliz nos dias atuais? Aquela conversa ficou ali rondando minha cabeça, como digerir e escrever algo como forma de ampliar o debate.

O dia corrido de ontem acabou me trazendo de volta o tema do que é ser feliz, onde, tempo, condições, no meio da chuva um música pauleira acabei resumindo assim: “A felicidade pode lhe sorrir apenas tocando “Rock and Roll”, mesmo num dia ruim”.(Cinza de São Paulo e Rock and Roll). Depois disso a questão da Felicidade passou a me dominar completamente, fiquei ruminando e comecei a remoer um pouco mais,  procurando a Razão Lógica(ou não) sobre Felicidade, ouvi uma sequência enorme de músicas antigas, velhos boleros que são melancólicas, onde podemos mergulhar no oposto e pensar no fundamental.

Eis que me deparo com Santo Agostinho e uma formulação essencial em que diz que “o homem não tem razão para filosofar, exceto para atingir a felicidade”.(Cidade de Deus – Santo Agostinho). Imediatamente escrevi no Facebook uma frase para tentar provocar mais debates: O passado manda mensagens, o difícil é decodificá-las com os “olhos” do presente. Deve haver uma razão simples sobre a Vida e a Felicidade, né? Obtive uma ou outra resposta, mas o debate não se estabeleceu, parece que TODOS nós desejamos a Felicidade, mas não discutimos o que é, nem as razões de sermos Felizes ou Infelizes.

Em casa fui buscar um velho livro de Aristóteles – Ética Nicômaco, para lembrar de algumas formulações que lembrava de cabeça sobre a questão da Felicidade, mas queria um pouco mais de consistência para entender aquelas “mensagens do passado”. Como não tem como simplificar, resolvi recortar alguns conceitos e definições do grande filósofo grego, para aceitar a proposição de Santo Agostinho, vamos filosofar ou remoer antigas lições. Inicialmente, Aristóteles faz uma definição genial e genérica sobre Felicidade, para depois ir descendo aos vários conceitos associados ao principal.

Quem tiver paciência e vontade, acompanhe-me, nas longas citações comecemo com o escopo, proposto em diz, o mestre, que  “procuremos determinar, à luz deste fato de que todo conhecimento e todo trabalho visa a algum bem, quais afirmamos ser os objetivos da ciência política e qual é o mais alto de todos os bens que se podem alcançar pela ação. Verbalmente, quase todos estão de acordo, pois tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem ser esse fim a felicidade e identificam o bem viver e o bem agir como o ser feliz”.

Logo depois vai seguimentando o pensamento vulgar, do filosófico, sem entretanto menosprezar o primeiro, o que  “Diferem, porém, quanto ao que seja a felicidade, e o vulgo não o concebe do mesmo modo que os sábios. Os primeiros pensam que seja alguma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as honras, muito embora discordem entre si; e não raro o mesmo homem a identifica com diferentes coisas, com a saúde quando está doente, e com a riqueza quando é pobre. Cônscios da sua própria ignorância, não obstante, admiram aqueles que proclamam algum grande ideal inacessível à sua compreensão. Ora, alguns têm pensado que, à parte esses numerosos bens, existe um outro que é auto-subsistente e também é causa da bondade de todos os demais. Seria talvez infrutífero examinar todas as opiniões que têm sido sustentadas a esse respeito; basta considerar as mais difundidas ou aquelas que parecem ser defensáveis”.

Avança mais que  “A julgar pela vida que os homens levam em geral, a maioria deles, e os homens de tipo mais vulgar, parecem (não sem um certo fundamento) identificar o bem ou a felicidade com o prazer, e por isso amam a vida dos gozos. Pode-se dizer, com efeito, que existem três tipos principais de vida: a que acabamos de mencionar, a vida política e a contemplativa. A grande maioria dos homens se mostram em tudo iguais a escravos, preferindo uma vida bestial, mas encontram certa justificação para pensar assim no fato de muitas pessoas altamente colocadas partilharem os gostos de Sardanapalo”.  Sardanapalo é um Rei mítico Assírio que tinha na sua lápide a inscrição em que dizia: “Eu Sardanapalo, construi Anquial e tarso em um dia. Comi, bebi, vive em orgias. Todo o resto na vale isso”.

Os prazeres da vida não se constitui na Felicidade, sendo apenas parte dela, não a central, para Aristóteles, que intuia que “A felicidade é, portanto, algo absoluto e auto-suficiente, sendo também a finalidade da ação”. Logo a seguir vem a definir o que são estas ações, com as quais concorda “Outra crença que se harmoniza com a nossa concepção é a de que o homem feliz vive bem e age bem; pois definimos praticamente a felicidade como uma espécie de boa vida e boa ação. As características que se costuma buscar na felicidade também parecem pertencer todas à definição que demos dela. Com efeito, alguns identificam a felicidade com a virtude, outros com a sabedoria prática, outros com uma espécie de sabedoria filosófica, outros com estas, ou uma destas, acompanhadas ou não de prazer; e outros ainda também incluem a prosperidade exterior”.

Vem depois aprofundar a questão da Felicidade e Virtude dizendo que “Também se ajusta à nossa concepção a dos que identificam a felicidade com a virtude em geral ou com alguma virtude particular, pois que à virtude pertence a atividade virtuosa. Mas há, talvez, uma diferença não pequena em colocarmos o sumo bem na posse ou no uso, no estado de ânimo ou no ato. Porque pode existir o estado de ânimo sem produzir nenhum bom resultado, como no homem que dorme ou que permanece inativo; mas a atividade virtuosa, não: essa deve necessariamente agir, e agir bem. E, assim como nos Jogos Olímpicos não são os mais belos e os mais fortes que conquistam a coroa, mas os que competem (pois é dentre estes que hão de surgir os vencedores), também as coisas nobres e boas da vida só são alcançadas pelos que agem retamente”.

O que fica claro que a virtude pressupõe ação, não apenas contemplação, pois senão não é felicidade, o excelente exemplo da arte dos jogos olímpicos e seus participantes, não vence o mais belo e forte, mas aqueles que competem, ou seja, os que efetivamente agem. Sendo também a busca da nobreza outro fundamento essencial e “A felicidade é, pois, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo”. 

Mas de onde vem, ou surge a Felicidade? a isto responde Aristóteles que “também se pergunta se a felicidade deve ser adquirida pela aprendizagem, pelo hábito ou por alguma outra espécie de adestramento, ou se ela nos é conferida por alguma providência divina, ou ainda pelo acaso. Ora, se alguma dádiva os homens recebem dos deuses, é razoável supor que a felicidade seja uma delas, e, dentre todas as coisas humanas, a que mais seguramente é uma dádiva divina, por ser a melhor”. Mas uma vez conquistada “nenhuma função humana desfruta de tanta permanência como as atividades virtuosas, que são consideradas mais duráveis do que o próprio conhecimento das ciências. E as mais valiosas dentre elas são mais duráveis, porque os homens felizes de bom grado e com muita constância lhes dedicam os dias de sua vida; e esta parece ser a razão pela qual sempre nos lembramos deles”.

Para aquele distante Século IV A.C., nada mais genial do que se olhar para passado/presente e dizer “Em verdade, o futuro nos é impenetrável, enquanto a felicidade, afirmamos nós, é um fim e algo de final a todos os respeitos. Sendo assim, chamaremos felizes àqueles dentre os seres humanos vivos em que essas condições se realizem ou estejam destinadas a realizar-se — mas homens felizes”.

Por fim voltemos ao mestre Santo Agostinho que nos responde de forma brilhante a questão de onde tiramos a ideia de Felicidade “Não sei como conheceram a felicidade, nem por que noção a apreenderam. O que me preocupa é saber se essa noção habita na memória. Se lá existe, é sinal de que algumavez já fomos felizes. Eu agora não procuro indagar se fomos todos felizes individualmente, ou se fomos somente naquele homem que primeiro pecou, em que todos morremos, e nascemos na infelicidade. O que eu quero saber é se a vida feliz reside ou não na memória. Se a não conhecêssemos, não a podíamos amar”.

E para você, que me leu até aqui, o que é a FELICIDADE? Se quiser e puder deixe seu comentário, já peço a autorização para republicá-los em futuro post sobre a continuidade do tema.