Marina e o Medo do Golpe Comunista 2014

Marina e o Medo do Golpe Comunista 2014

“A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis”. (Teses sobre Feuerbach – Marx)

As palavras de Marina ainda ecoam na minha cabeça e se repetem: “A minha briga, neste momento, não é para ser presidente da República, é contra o PT e o chavismo que se instalou no Brasil“. O Diário do Centro do Mundo, Paulo Nogueira, escreveu um excelente artigo (Marina e o chavismo ) e diz tudo do ponto de vista de política de história, da aparente ignorância de Marina sobre Chaves e Chavismo. Voltei ao passado, o medo dos ” encarnados, os comedores de criancinhas”.

A questão é bem mais complexa, ela representa a conversão ideológica, Marina atravessou o rio, o seu Rubicão, foi para a outra margem, e o outro lado exige demonstração de fé ao novo credo, além de condenação cabal ao passado. Portanto, não acredito que a frase se resuma a uma retórica, um momento de raiva, ela foi calculada, palavra a palavra, e soltada num momento ímpar, toda mídia e holofotes captando o novo sentimento. Esta conversão se deu com Lacerda, César Maia, Gabeira, Bob Freire, que se tornam raivosos e anticomunistas, mas como o “comunismo” está fora de moda, o medo do Kapital é o Chavismo, o novo comedor de criancinhas, então a reestreia ideológica de Marina tinha que ser em grande estilo, apontando o seu ódio aos dois maiores inimigos do Kapital: o PT e o Chavismo. A tolice é que nenhum dos dois é anticapitalista, no máximo se interpõem ao setor hegemônico dele, o Kapital Financeiro e sua mídia canina.

É preciso lembrar que escrevi quando Chaves morreu (A Morte e As Mortes de Hugo Chávez ) que deixo claro que a “Minha visão sobre Chávez é de respeito ao que se propôs, mas ao mesmo tempo de crítica de não ter preparado sua saída, da busca incessante em se manter no poder, o que, naturalmente dá argumentos aos raivosos, de que não há democracia no país. Neste aspecto, Lula, aqui no Brasil, é referência, soube o seu limite, poderia intentar mudar a Constituição e se reeleger mais vezes, preferiu abrir a agenda para os novos nomes, para o amadurecimento de um processo coletivo, não individual”. Dito isto, tem que se reconhecer o legado dele para o povo venezuelano, longe dos ódios ideológicos, loucos, incentivados pelo Departamento de Estado dos EUA e tão bem assimilado pela mídia brasileira, agora também abraçado por Marina, o que é sinal definitivo de sua ruptura com qualquer anseio de esquerda ou popular.

O que me remete ao texto Aos Que Partem, Ideologicamente, Sem Avisar que escrevi sobre a fundação da Rede e adesão de militantes de esquerda, vindo do PSOL,  que assim caracterizei que “Passados 10 anos, da ruptura com o PT e fundação do PSOL, não sei o nível de luta internas no PSOL, exceto aquelas que se tornaram públicas, em particular a disputa pela candidatura presidencial, que acabou em duas conferência, pois as candidaturas de Martiniano versus Plínio de Arruda não tinham maioria clara no partido, não chegando a  acordo, pelo que viu, se dividiram no momento que deveriam se unir. O desgaste deve ter sido enorme, já naquela época Heloísa Helena sinalizava um apoio ao projeto Marina, que naquele momento estava no PV, com seu vice, o bilionário dono da Natura. Tudo muito estranho, ou não, para quem acusava o PT/Lula de aderir ao Capital”. 

Disse ainda que “agora, a coisa toma um corpo maior e mais complexo, Martiniano, seu grupo, pelas palavras ditas anteriormente, Heloísa Helena, vão se juntar de mala e cuia ao Projeto Marina, vejam que insisto, não é projeto político ou ideológico, é algo personalista, sem qualquer verniz de esquerda, apenas uma visão “diferenciada” do Projeto Burguês. Pelos nomes que vi, que irão se somar ao tal projeto, convenientemente chamado de REDE, é de se supor que é um projeto de centro-direita, com penduricalhos à esquerda, quase que de amizade, ou que caiba na crítica atual ao PT, ou qualquer um que seja anti-Petista, uma tristeza, uma pobreza intelectual que mistura moralismo pequeno burguês à pura desfaçatez”.

A ausência de ideologia e a dispersão partidária encontraram no ativismo via internet um novo servilismo político, ainda que aparentemente hostil, é o que há de mais sofisticado e devidamente permitido pelo sistema, a internet virou o campo mais fértil para esta onda, de aparente questionamento ao sistema, aliás, até incentivado por ele, já que de alguma forma a causa, a revolta, alivias as tensões. Por mais chato que seja, vou continuar a repetir, como mantra: Sem Teoria, sem conhecimento e sem ação, nada, ou quase nada se muda. Parece coisa século XIX e, é. Contudo, é uma questão inescapável, por mais forte e próximo(será mesmo) o “contato” via rede, sem saber o que queremos, ou por que nos contrapomos ao que nos cerca, é tudo em vão.

Nada se fechou ou se abriu, foi apenas um espasmo, no fundo é este o sentimento, não de superioridade, ao contrário, é de frustração de não termos sido capazes de despertar mais debate, mais conhecimento, mais teoria, mais ação. O deserto ideológico, já dura uma geração inteira, sem que apareça novos atores, que olhem o passado como fonte de saber, não com desprezo. A minha geração se conformou, se acoplou ao sistema, mas de certa forma lutou, deu o combate, mas foi incapaz de superar a queda do Muro de Berlim. Pensei que, com a queda do Muro de Wall Street, abriríamos um novo momento, por enquanto, nada. Ou talvez, enxergue muito pouco.

Ao ler e ouvir as palavras de Marina, vendo meus ex-companheiros sentados à mesa junto com Eduardo Campos, Bornhausen, Caiado e outros, dá um sentimento de derrota.