1989 – Um Ano que Não se Fechou (I)

 

Lula vai ao segundo turno, Covas e Brizola o apoiam (Chico Ferreira – 13.dez.1989/Folhapress)

Aquele ano começou diferente, logo em janeiro os agrupamentos regionais do Coletivo Gregório Bezerra, uma das muitas rupturas do PCB puxadas pela saída de Carlos Prestes, fez um congresso de unificação. Era o coroamento de um processo de 4 anos de idas e vindas, de abnegados quadros que buscavam um novo partido de esquerda, fora do PT, dentro da CUT e do Movimento Estudantil(UNE e UBES). Parecia que dali surgiria uma grande mudança, uma afirmação marxista e classista.

O mundo vinha sendo sacudido desde 1985 com a subida de Gorbachev ao poder na URSS, era uma nova burocracia que propunha a Perestroika, as reformas da economia e Glasnot, a abertura política. Naqueles quatro anos seguintes toda a geração de burocratas do leste europeu caiu, foi trocada, mas as agitações não iriam parar apenas neles. No começo de 1989, não se sabia bem o que acontecia de verdade no bloco “socialista”.

O ano era especial, também no Brasil, pois haveria a primeira eleição presidencial em 25 anos, depois do processo constituinte dominado pelo centrão a luta era aberta na sociedade, o PT, os sindicatos e a CUT se afirmaram como polo político mais dinâmico da luta de classes, teriam em Lula o seu candidato, era a primeira vez que a esquerda se uniria em torno dele, PC do B e PSB definiram seu apoio. PC do B depois de anos gravitando dentro e/ou aliado ao PMDB iria compor a Frente de Esquerda. Nosso agrupamento, a exemplo do que fizera na CUT, saíra com candidatura própria, desde que conseguisse registro legal, o que não aconteceu.

Mas aquele ano, que nunca acabou, ou pelo menos não se fechou, pulsava nervosamente em todos os campos, não apenas na política, mas na música, na TV. Uma politização inédita tomou conta do Brasil, os artistas tomando posição, se engajando nos debates. A  Globo que manipulara mais uma vez uma novela, criando o Sassá Mutema, como o contraponto ignorante ao movimento de massas, para justificar a candidatura de seu “caçador de marajás”, o Pachá, Collor de Mello. Não satisfeita, pôs no ar a novela “Que Rei Sou Eu”, era guerra sem fronteiras. Contraditoriamente, o seu programa mais revolucionário, a TV Pirata, aderiu em peso à candidatura de Lula.

Na música, Cazuza fazia grande sucesso com Burguesia, entretanto o disco daquele ano foi do Legião Urbana “As Quatro Estações”. Era uma ruptura e maturidade do grupo, os discos anteriores eram mais politizados e engajados com o momento do país, em sintonia com o mundo e com as ruas, refletia os momentos finais da ditadura, da constituinte e do Brasil que estava por surgir. Neste era diferente, o tom é de reflexão, distanciamento, ouvindo hoje, parece que ele é o disco que representa o ano que não fechou. A fluidez ideológica posterior aos 1989 é bem descrita naquele registro. O individualismo, as relações menores, em oposição aos movimentos coletivos.

De memória em memória vamos contando aquele ano que continua até hoje. Do que você se lembra daquele ano, meu amigo que chegou até aqui? Quais as suas lembranças, identificações, surpresas, emoções e dores? É um desafio, conte um pouco, uma frase, um depoimento, tudo vale.

Legião Urbana – As Quatro Estações

Imagem de Amostra do You Tube

38 thoughts on “1989 – Um Ano que Não se Fechou (I)”

  1. O que me lembro claramente era o preconceito diante de Lula, ali começou o boato nojento que ele era milionário com uma casa no Morumbi, que continua até hoje…

  2. Era meu primeiro voto. Votei no Covas e depois no Lula. Tinha entrado na faculdade de engenharia e parece que o tempo parou por 5 anos, porque eu insistia em preencher datas de documentos com “1989” até que chegou 1994. Estava começando a perceber a existência do PIG.

  3. Estive no Rio de Janeiro para ver o último show que fez o Legião Urbana. A casa de SHOW havia sido inaugurada na sexta-feira com o Show de Diana Ross, era o ano de 1994. 5 anos depois da grande FRENTE BRASIL POPULAR. Comprei o Livro de Fernando Morais, OLGA para presentear um amigo meu. Os livros sobre internet eram todos em inglês, No Rio de Janeiro ela estava burbulhando no Fundão. Meu irmão jogava aos sábados e eu o acomnhava. Muita coisa pra contar!! O Show do Legião, o último que fizeram juntos foi para o lançamento do disco DESCOBRIMENTO DO BRASIL. Se eu partir hoje meu caro amigo, tenho boas recordações e faria tudo de novo, com algumas exclusões que não vale citar!

  4. Em 1989 fui barrado na portaria da Sede de uma estatal onde trabalhava como mecânico porque estava recheado de bottons e estrelinhas na jaqueta. Quase fui preso por tentar forçar a entrada. O CHEFE da Segurança era um ex-coronel do Exército. Ao final de meia hora eu entrei, com minhas estrelas e bottons, para sentar com o tal coronel e negociar uma saída para um impasse (minha atuação como grevista). Não tinha estabilidade, mas os sindicalistas e um advogado foram comigo. Não perdi o emprego, mas quando perdemos a eleição de Lula fiquei meio amargurado. Naquele ano tive outro embate e escrevi “AO SILÊNCIO”, http://www.youtube.com/watch?v=NyYqlnGTOos e esses versos até hoje representam o que sou.

  5. Assistimos juntos, um grande grupo de amigos e colegas dos jornais do Rio, ao debate entre Lula e Collor. A metade de nós era petista, a outra metade era brizolista e havia aderido à candidatura de Lula no segundo turno. Eu pertencia ao segundo grupo, mas, tendo saído do PT poucos anos antes, não via o partido como adversário. Quando Lula começou a demonstrar nervosismo e Collor passou a dominar o debate – menos pelo conteúdo do que dizia e mais pelo efeito que obtinha – os briziolistas ficaram irritados. Como Lula, logo ele, tão competente como comunicador, podia ser dominado por um candidato fake? Lula perdeu o debate e saímos do encontro convencidos de que perderia a eleição.

  6. Quer dizer, alguns são… Outros, como eu, estão meio em estado de HD sendo despejado… Ahahah. Mas eu me lembro de quantas estrelas eu vendi. Talvez tenha vendido as minhas próprias (as do destino), Pena que o depois ficou tão sem estrelas mesmo.

    1. Carlos Emílio,

      1989 é tão devastador no imaginário da esquerda, que justificou o fim de quase todos os PCs no mundo, os PSs se tornaram neoliberais e experiência como PT entraram de cabeça no vale tudo, inclusive aceitando o jogo sujo, que redundou no “mensalão”. Nossas feridas continuam abertas, acredito, enquanto aquele ano não se fechar.

      Arnobio

  7. Vi aquele debate com o coração na mão. Não acho que Lula tenha exatamente perdido, ele só não suportou o sensacionalismo do caçador de marajá. Todo o debate foi manipulado enquanto ocorria, imagine depois nas edições criminosas do Hoje e do JN da noite de sábado… Alguém disse na redação que Collor tinha posto a mão sobre uma pasta que conteria um dossiê com segredos de Lula e PT, o que teria feito tremer e calar meu amado Lula (votei no Brizola no 1º turno). Tudo baboseira. Não foi isso que provocou a derrota, foi a união organizada da direita e das elites. Tanto que logo depois derrubaram o caçador de marajá e Lula perdeu as eleições seguintes, mesmo já mais preparado etc.

    Fui comuna do PCB por 15 anos e na minha humirde 1989, tirando a derrota do PT, foi um ano bom para a esquerda, sim. Ela apenas ainda não entendeu isso. Um dia entenderá que a União Soviética e os países do Leste europeu eram uma aberração do marxismo. Vivi dois anos lá e sei. Amei (ainda amo) profundamente o país e o esforço socialista, mas tenho certeza dessa aberração. Nem todo mundo ficou sem chão, viu? .

  8. Exigi, aos berros de “traidores” e lágrimas, a expulsão de amigos e camaradas que se articularam para “rachar” o PLP e não apoiar o Lula no segundo turno das eleições presidenciais.

    1. Carlos,

      Naquela famosa plenária no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, quantas amizades e camaradagens desfeitas pela nossa pouca sabedoria e experiência. Alguns, nunca mais, se reconciliaram, basta lembrar os episódios do Grupo “Fortaleza dos Anos 80”. Mera coincidência, que 24 anos depois permaneceu no imaginário e no espírito,
      Fraternal abraço, meu camarada e irmão,

      Arnobio

  9. Em 1989 eu era do Centro Acadêmico de História na UFPA, minha irmã, que participou da Fundação do PT no Pará e tinha sido Presidente do DCE da UFPA, coordenava núcleo de campanha e quase toda família se envolvia. Outra irmã tomava conta da lojinha do PT, onde também ajudei vendendo camisetas e estrelinhas. E até hoje me emociono quando ouço Lula lá. Foi a primeira vez que votei.

  10. Sou Petista de carteirinha. Naquela época, embalados pela campanha do Lula, ajudava a organizar diretórios do PT e a campanha do Lula. Como havia sido demitido do meu trabalho, vivia de vender livros usados num Sebo que eu tinha na cidade de São Leopoldo. Também foi o tempo em que sustentamos uma parte ca campanha vendendo estrelinhas, adesivos etc…Valeu a pena. Se tu dizes que 1989 não acabou, mas pelo menos serviu para sinalizar ao país inteiro que a luta de classes existe. E foi alí, naquela eleição que o PT

    1. E foi alí naquela eleição que o PT se colocou como alternativa concreta ao que a burguesia nacional tinha apresentado até então no pós ditadura. E o resultado daquela eleição onde o PT se colocou pela primeira vez como alternativa, sentimos hoje, com a melhora das condições sociais do nosso povo, como nunca antes na história do país. Falta muito. Mas o caminho para o futuro continua em construção.

      1. Luiz,

        Meu companheiro, que tendo gloriosos aqueles, nos afirmamos como alternativa à direita, precisamos ainda provar nosso valor a cada dia. Mas temos que construir nossa memória deste tempo, a juventude não tem ideia do que vivemos,

        Arnobio

  11. Fala Arnobio. Para mim o ano de 1989 é o ano de rupturas e tomadas de posição. Para mim foi o primeiro ano do resto de minha vida. O ano foi marcado pelo engajamento na ETFCE, a campanha do Lula, a formação de uma consciência de esquerda e o agrupamento de amigos que são até hoje meus grandes companheiros. Até a SBPC em Fortaleza foi marcante. Sem falar do primeiro acampamento que fiz. Tudo naquele ano.

    1. Fernando,

      1989 foi minha despedida da ETFCE, tinha sido presidente do grêmio reconstruido depois da ditadura. Em 1988 o Edvaldo assumiu e eu fui para UMES, em junho terminou o mandato e também meu tempo de ETFCE.
      Aquele SBPC foi demais, ainda lembro como se fosse agora, um debate com os presidenciáveis na Concha acústica, todos nós do CGB(PLP) nos escrevemos para perguntas, dei sorte de ser chamado, mas desci o pau no Bob Freire que estribuchava de raiva das questões. Éramos ousados demais.

      Arnobio

  12. Meu filho nasceu em 1989, frequentei muitos comícios do PT com ele e havia uma enorme solidariedade entre militantes e bebês: na praça Charles Muller, já muita gente no entorno, o carrinho de bebê foi levado mão a mão até o centro da praça onde abriram um espaço em que pudemos acampar (meu marido, o filho e eu). Votei no Lula nos dois turnos. Foi o ano também em que desliguei a tv Globo da minha vida. E chorei, pela primeira vez, chorei por causa das falcatruas do PIG. Quando Lula se elegeu em 2002, a família estava maior e fomos fazer, juntos, farra na Paulista.

  13. Em 89 eu terminei meu mandato de Coordenador Geral do DA de Ciências Sociais, da UFPE. Na época das eleições eu trabalhava de garçon num bar (estudando manhã e tarde era a forma de conseguir me manter), onde eu repassava material de campanha enquanto atendia as mesas . Vi de perto a esperança nos olhos das pessoas, as passeatas gigantes, os comícios que acabavam com a cerveja no centro da Cidade. Eu já era militante do PT há 6 anos (comecei a militar aos 15). Foi uma campanha maravilhosa, de massas, de esquerda. Usar estrelinha tinha deixado, definitivamente, de ser ação underground de sindicalistas e militantes. Sim, o fim foi bem distópico, mas foi semente, a “intenção da semente” de Henfil.

  14. EM 89 morava em São Paulo, na Alves Guimarães, entre a Teodoro e a Arthur de Azevedo.

    Trabalhava em um laboratório de análises clínicas, de um dos fundadores do Delboni, Auriemo e Santos, o Santos, que ficava ali na Itapeva.

    Participei como deu, pró- Lula, ou seja, alguns comícios, aquela passeata em que acabou dando rolo envolvendo a Marília Pera, qdo a mesma passou em frente ao teatro em que ela encenava peça.

    Comício na Charles Miller que teve a participação de Lobão, é, Lobão, ainda não elaborado nesse reacionarismo atual…

    Frequentava muito um botequim, de um amigo portuga, onde encontravam-se as mais diversas classes sociais e onde travava “altos” debates sobre as possibilidades políticas naquela eleição, defendendo, claro, a esquerda e Lula, mais especificamente.

    Muito frustante a derrota naquela ocasião, creio ter a edição do debate, pela Globo, modificado em algum grau o resultado final da eleição, com tbém um certo vacilo do pessoal da organização do PT, ter colocado Lula em comício na Bahia, imediatamente antes deste último debate, onde ele chegou “mortaço” de cansado e com desempenho bem abaixo de seu normal.

    Particularmente, um ano especial, pois foi o ano em que fui morar junto com a mulher que amava e com quem me casaria, dois anos depois, e que se tornou mãe de meu filho, que veio dali mais 4.

  15. 1989… ano marcante na minha vida. Morava em Santa Maria – RS e votei no Lula no primeiro turno. Dizia que se Collor vencesse eu ia morar no Uruguay… No segundo turno após finalizar minha separação tinha me mudado para Floripa e não pude votar… Convenci minha mãe, que não precisava mais votar a votar por mim no Lula… Disse que não me perdoaria se ele perdesse por um voto… Ela jura de pé junto, até hoje que votou… Mas perdemos e foi muito difícil entender como o povo brasileiro tinha engolido aquele “caçador de marajás”…

  16. Arnabio,votei no Lula no 1º e 2º turno. Lembro que chorei muito no debate entre ele e Collor. Não me conformei com o ataque de Collor,sobre Lula não saber ler.Aliás,tenho muita honra de dizer que “sempre votei em Lula para presidente”.Não o fiz em 2010,pois não era candidato. Votei em Dilma.Fato do qual não me arrependo.Ao contrário de muitos “petitas”.rs Abs.

  17. eu estava nesse comício, o maior evento que já fui em toda minha vida. Eu não me esqueço nunca. Sou Lula até hoje, e acho que sempre serei. Pena não encontrar registros fotográficos desse momento.

  18. . Naquela época eu morava em Cubatão e era metalúrgico. Cheguei na praça por volta das duas da tarde. Lula atrasou-se muito. Chegou por volta das onze da noite.lembro do Chico cantando “gota d’água” com a guitarra emprestada do Djavan que cantara “oceano”. foi marcante. Aquele comício foi acima de tudo a FESTA DA ESPERANÇA. principalmente para a minha geração. Pena que a minha geração, diga-se de passagem, geração de lutadores, foi traída pelos seus heróis.

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