A Árvore da Vida

 

Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? … Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?” (Livro de Jó )

Se fosse seis meses atrás dificilmente teria visto “O meu pé de laranja lima” (resenhado aqui – Meu Pé de Laranja Lima) menos ainda assistiria ao filme “A árvore da vida”, naquela época, com a vida em suspenso pelo tratamento da minha filha, estes filmes seriam pesados demais, ou melhor, sofridos demais, para uma alma tão atormentada, quanto a minha. Impressionante como o tema morte, perda, cala fundo em nosso ser, mesmo entendendo a dialética da vida, os seus estágios, entre eles a morte, ela é de difícil aceitação.

Consegui ver o filme “A árvore da vida”, digo logo diante mão, não é uma visão simples, transpor ao cinema uma dor dilacerante de uma perda, de um desencontro, da crueza das relações humanas perdidas e ainda ser poético tem que ser genial, como foi o diretor Terrence Malick, que contou com um surpreendente Brad Pitt em grande interpretação, um personagem que precisa ser seco e rude, a viver o dilema do homem comum, que nunca deu certo, criando três filhos de forma atormentada, cheio de culpas e dor.

O tema central do filme são as relações familiares, o pai autoritário, rude, que se ver fracassado em seus sonhos, que educa os filhos usando os clichês de como não serem fracassados como ele próprio. Mesmo que os garotos não entendam, ele insiste nestas lições, em particular o mais velho, Jack (Hunter McCracken/ Sean Penn), que é o fio condutor do filme. A revolta contra o pai rude, a disputa pela mãe, um Édipo clássico, o ódio por não matá-lo, nem físico e menos ainda psicologicamente. Mesmo adulto as relações da tenra idade lhe assombra. Mesmo aparentemente vencedor, um executivo rico, o pai, lhe atormenta a alma.

A profunda dor da morte do irmão completa a tragédia familiar, todo o desenrolar será feito para tentar explicar a razão de tão grande castigo, o deus que os abandonou, ou eles a deus. É sintomático o uso de tantas passagens do livro de Jó, o livro das provações da fé, da luta mais direta entre deus e o diabo. A dualidade humana a toda prova, a luz e a escuridão, o bem e o mal, o maniqueísmo extremado em que o homem é apenas um experimento da luta entre estas potências. Não pode haver espaço para felicidade.

O filme é aflitivo, mesmo com construções de imagens exuberantes, diretos da psique humana e com diálogos quase inteiros em off, com raras vozes ativas, torna o conflito ainda mais duro, pois o que é pensado é sempre mais cruel do que é dito. A prova mais dura para eles, assim como foi em Jó, é a perda de um ente familiar, recaindo sobre um elemento neutro no terrível embate, mas que causa dor profunda em todos os envolvidos, gerando uma culpa dilacerante, no pai, no filho e na mãe, principalmente, que nos desespero roga por ir para junto dele.

Não há possibilidade de reconciliação ou qualquer concessão, é o humano em luta com o divino, ou o divino contra o humano, visto sob uma ótica crua, fria e trágica. É uma visão de vida e mundo real, talvez comum a milhares de pessoas, com suas vidas entregues a mediocridade geral, atormentados pelas dificuldades de sobrevivência, que nem a fé lhe dar uma resposta, ao contrário, aprofunda suas dores.

A Árvore da Vida é a terra-mãe, é o home, a mulher, o filho e os conflitos de nossas breves existências, nosso ir e voltar, passado e presente, uma ideia de futuro. É o silêncio e olhar fixo da cena final.

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