Meu Pé de Laranja Lima

Portuga( José de Abreu) e Zezé( João Guilherme Ávila) cena de “Meu pé de Laranja Lima – Divulgação / Imovision

As luzes do cinema se acendem e um silêncio ensurdecedor é quebrado por vários soluços, nossos e da maioria da sala, definitivamente, estamos absolutamente devastados. As palavras finais do filme “Meu pé de laranja lima”, coroaram o que vimos na telona, a dedicatória fortíssima de José Mauro Vasconcelos, para sua grandiosa história, transportada ao cinema,  poderia ser sintetizadas assim, o filme é, ao mesmo tempo: Belo e Cruel.

Voltei uns 30 anos, ao passado, de quando assistia a novela baseada no livro, que fazia grande sucesso da TV Bandeirantes. Era adolescente e vibrava com as peripécias do Zezé e luisinho, suas aventuras, os seus jogos de bola,  quebrar a janela da vizinha. Das surras que levava dos pais e da Jandira, das conversas de Zezé com seu “amigo” o pé de laranja lima. Depois a delicada relação do pequeno peralta com um velho português, que no começo parecia ser rabugento, mas que se revela uma figura paterna ideal, quase um avô, pois os netos são mais que filhos e avô é pai duas vezes, com espírito de perdão mais amplo.

A escolha que o diretor Marcos Bernstein fez foi muito oportuna, pois privilegiou a relação de Zezé (João Guilherme Ávila) com o Seu Manuel Valadares (José de Abreu), o Portuga, deixando o pé de laranja lima como subtema. O ambiente familiar destruído por um pai alcoólatra e desempregado, uma mãe que trabalha fora e deixa os cinco filhos abandonados à sorte. O Pequeno Zezé é uma criança ativa e cheio de peraltice, que tenta sobreviver neste caos, mas, ao mesmo tempo, ele é doce e amoroso, no meio de tanta brutalidade, brota uma esperança em flor. A cidade pequena, a pobreza em volta, apenas aquele português, com seu belo carro, parece não fazer parte do contexto. Por uma sorte do destino os dois mundo se cruzam, nascendo uma belíssima amizade, um salva ao outro, com suas vidas tão solitárias.

A história que é por demais conhecida, já tantas vezes filmada na televisão como novela ou série, mesmo sabendo o seu desenrolar, o filme surpreende pela qualidade da linguagem, as belas imagens de um país interiorano e embrutecido, mas que pode se redimir com a poesia e delicadeza das crianças sonhadoras, não importando o local em que vivam ou as condições miseráveis dos lares. Passamos o filme inteiro torcendo para que algo diferente surja, pois não aceitaremos o duro final, o destino que aguarda os personagens, mas a vida não pode ser diferente e, não é.

Um filme grandioso, profundamente triste, com uma mensagem dura, mas uma esperança maior de que mudemos e sejamos melhores. As lágrimas misturadas aos sorrisos, as lembranças de um tempo não tão longe. Uma adaptação digna, com excelentes atuações do garoto João Guilherme Ávila e de José de Abreu, um camaleão, que se transforma a cada papel, e está em plena forma, um dos maiores atores do Brasil. Vale muito ver.

 

Meu Pé de Laranja Lima – Trailer oficial

Imagem de Amostra do You Tube

One thought on “Meu Pé de Laranja Lima”

  1. Arnóbio, parabéns pelo texto; li o livro dua vezes, quando criança e já adulta é uma obra belíssima e você foi muito feliz na análise real do conteúdo e sobre o filme.

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