Sete – e as Superstições

 

 

Outro dia estava lendo um trecho delicioso do mestre Junito de Souza Brandão sobre o Número 7 ( Sete), suas famosas relações mítica e mística, quase copiei para cá aquele achado. Acabei perdendo o momento, outras ocupações e urgências me fizeram esquecer o assunto. Porém, ontem, chego em casa estava rolando a balada soul do Stevie Wonder “Supestition”, que é impossível ouvir e ficar parado, a música te leva à “pista”, eis que imediatamente o texto, sobre o 7, voltou à minha cabeça.

Comecemos com o longo e espetacular texto de Junito que nos mostrará uma ampla visão do significado do número Sete, começando com o nascimento de Apolo, que ocorreu no dia 7, do mês défico Bísio (correspondente à segunda metade de março e a primeira metade de abril). Daí iniciamos uma série de fatos relacionados ao Sete, tendo  se estabelecido para Apolo que “suas festas principais celebravam-se no dia sete do mês. As consultas ao Oráculo de Delfos se faziam primitivamente apenas no dia sete do mês Bísio, aniversário do deus. Sua lira possuía sete cordas. Sua doutrina se resumia em sete máximas, atribuídas aos sete Sábios. Eis aí o motivo por que o pai da tragédia, Ésquilo, o chamou augusto deus Sétimo, o deus da sétima porta (Sept., 800). Sete é, pois, o número de Apolo, o número sagrado”

Junito faz uma síntese de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, sobre o Sete, com uma afirmação forte de que “Apolo é o augusto deus Sétimo. O sete é, pois, o número do senhor do Oráculo de Delfos, o que não é mera casualidade, pois que o sete se constituía para os antigos numa síntese da sacralidade”. Abre-nos um longo e maravilhoso relato, para supersticiosos ou não que vale ser lido na íntegra, primeiro a definição geral de que o “Sete corresponde, de saída, aos sete dias da semana, aos sete planetas, aos sete graus da perfeição, às sete esferas celestes, às sete pétalas da rosa, aos sete ramos da árvore cósmica e sacrificai do chamanismo, mas alguns setenários se ampliam e tornam-se símbolos de outros: a rosa de sete pétalas evoca os sete céus e as sete hierarquias angélicas, todos conjuntos perfeitos. Desse modo, sete designa a totalidade das ordens planetárias e angélicas, a totalidade das mansões celestes, a totalidade da ordem moral, a totalidade das energias, sobretudo na ordem espiritual, constituindo-se, assim, para os egípcios no símbolo da vida eterna, uma vez que configura um ciclo completo, uma perfeição dinâmica. Cada período do ciclo lunar dura sete dias e os quatro (número também perfeito) períodos do ciclo (4 X 7) fecham o mesmo.O filósofo judaico, Filon de Alexandria (séc. I p.C.), observa, a esse respeito, que a soma dos sete primeiros números (1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7) chega ao mesmo resultado: 28″.

A importância central do número é enorme na Grécia antiga pois o “Sete indica o sentido de uma transformação após um ciclo completo e de uma renovação positiva. Sete não é na Grécia tão-somente o número característico de Apolo, pois que surge ainda com freqüência em outras denominações: as sete Hespérides, as sete Portas de Tebas, os sete chefes, os sete filhos e sete filhas de Níobe, as sete esferas, as sete cordas da lira”.

Mais vai além do mundo helênico, o que Junito assim enfileira, “As circum-ambulações de Meca compreendem sete voltas. O hexagrama, como o Selo de Salomão, desde que se lhe acrescente o centro, torna-se um sete inteiro. A semana (< do baixo latim septimana, 7 dias) possui seis dias ativos e um dia de repouso, figurado pelo centro. No cômputo antigo, o céu tem seis planetas: o sétimo é o sol, que está no centro. O hexagrama, como a palavra indica, tem seis ângulos, seis lados ou seis pontas de estrelas, figurando o centro como sétimo; as seis direções do espaço possuem um ponto mediano ou central, que forma o número sete, donde se conclui que sete simboliza a totalidade do espaço e a totalidade do tempo. Associando-lhe o número quatro, que configura a terra com os quatro pontos cardeais e o três, que representa o céu, sete simboliza a totalidade do universo em movimento. O setenário sintetiza igualmente a totalidade da vida moral, acrescentando às três virtudes teologais, fé, esperança e caridade, as quatro virtudes cardeais, a prudência, a temperança, a justiça e a força. As setes cores do arco-íris e as sete notas da escala diatônica mostram o setenário como regulador das vibrações, as quais traduziam para muitas tradições primitivas a própria essência da matéria. Sete, já se observou, é o fecho de um ciclo e de sua renovação: Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, transformando-o em dia santificado, donde o sábado não é, na realidade, um repouso exterior à criação, mas seu coroamento, seu fecho na perfeição. É isto que evoca a semana, duração de um quarto lunar. Para o Ismaelismo o sólido possui sete lados, seis faces mais sua totalidade, que corresponde ao sábado. Tudo que existe no mundo é sete, porque cada coisa possui sua ipseidade e seis lados. Os dons da inteligência, afirmam igualmente os Ismaelitas, são sete, seis mais a ghaybat, o conhecimento suprasensível. Desse modo, o arco-íris não possui sete cores, mas seis: a sétima é o branco, síntese das seis outras.

Diz S. Clemente de Alexandria que emanam de Deus as seis durações e as seis fases do tempo e nisto consiste o segredo do número sete: o retorno ao centro, ao Princípio, no fim do desenvolvimento senário, completa o setenário. Símbolo universal de uma totalidade em movimento ou de um dinamismo total, sete é a chave do Apocalipse, onde aparece quarenta vezes: sete igrejas, sete estrelas, sete Espíritos de Deus, sete selos, sete trombetas, sete trovões, sete cabeças, sete pestes, sete reis. Sete é o número dos céus búdicos. O árabe Ibn Sina (Avicena, 980-1036) descreve os Sete Arcanjos príncipes dos sete céus, que são os Guardiães de Henoc e correspondem aos sete Rishi védicos. Estes habitam as sete estrelas da Grande Ursa com as quais os chineses relacionam as sete aberturas do corpo e as sete aberturas do coração. A lâmpada vermelha das sociedades secretas chinesas tem sete braços como o castiçal dos hebreus. Observe-se que o Ioga conhece igualmente sete centros sutis: os seis chakra e o sahasrârapadma.

Quarenta e nove (7 X 7) é o número do Bardo, o estado intermediário que se segue à morte, entre os tibetanos: tal estado dura quarenta e nove dias, divididos, no início ao menos, em sete períodos de sete dias. Acredita-se que as almas japonesas permanecem quarenta e nove dias sobre o teto das casas, o que vem a dar no mesmo.

O número sete é empregado com muita freqüência na Bíblia: só no Antigo Testamento aparece setenta e sete vezes, constituindo esta cifra, de per si, um número mágico. Temos, assim, no Antigo Testamento, entre outros exemplos: castiçal de sete braços; sete espíritos que repousam sobre o tronco de Jessé; sete são os céus, onde habitam as ordens angélicas; Salomão construiu o Templo em sete anos (1Rs 6,38). Não apenas o sétimo dia, mas também o sétimo ano era de repouso: todos os sete anos os servidores eram liberados, os devedores perdoados. Pela própria transformação, que inaugura, o número sete passa a ter um poder extraordinário: quando da tomada de Jericó, sete sacerdotes, que levavam sete trombetas, deviam, no sétimo dia, dar sete voltas em torno da cidade; Eliseu espirrou sete vezes e a criança ressuscitou (2Rs 4,35). Um leproso se banhou sete vezes no rio Jordão e saiu curado (2Rs 5,14); o justo cairá sete vezes e tornará a se levantar (Pr 24,16). Sete animais puros de cada espécie serão salvos do dilúvio. José sonhou com sete vacas gordas e sete vacas magras.

Sete, enfim, é o número querido e preferido da aritmética bíblica. Pelo fato de corresponder ao número dos planetas, sete caracteriza sempre a perfeição, o que a gnose denomina nkmmyw. (pléroma), pleroma, “o que está completo”. A semana tem sete dias em memória do tempo que durou a criação.Se a festa pascal dos pães ázimos cobre sete dias é certamente porque o Êxodo é tido como nova criação, a criação salvadora.

Zacarias (3,9) fala dos sete olhos de Deus. Os setenários do Apocalipse de João, como as sete lâmpadas que são os sete espíritos de Deus (o que quer dizer o espírito inteiro de Deus), as sete cartas às sete Igrejas (o que corresponde à Igreja inteira), as sete trombetas, anunciam a execução final da vontade de Deus no mundo”.

Junito nos leva ao outro lado da fé q diz que “sete é o número de Satã, que tudo faz para imitar e copiar Deus, “o macaco de Deus”. Por isso a besta infernal do Apocalipse tem sete cabeças. João, no entanto, reserva, as mais das vezes, aos espíritos do mal a metade de sete, três e meio, comprovando, dessa maneira, o fracasso total do Maligno, porque, reduzido à metade, suas forças deixam de atuar. O dragão não poderá ameaçar a mulher (a Igreja de Deus) por mais de 1.260 dias (Ap 12,6), isto é, três anos e meio. Também em Ap 12,14 se fala de três tempos e meio, para que a mulher fique fora do alcance da serpente”.

Vamos ainda mais explicações, na própria criação os dias necessários foram Sete, o que, “consoante S. Agostinho, sete mede o tempo da história, o tempo da peregrinação terrestre do homem. Se Deus elegeu este dia para repousar, é porque Ele queria se distinguir da criação, ser independente dela e permitir-lhe descansar no próprio Deus. De outro lado, o homem, através do número sete, que indica o repouso, a cessação do trabalho, está convidado a voltar-se para Deus e apenas em Deus descansar. Desse modo, para o Santo de Hipona, seis designa uma parte, porque o trabalho está na parte; só o repouso (sete) significa o todo, porque traduz a perfeição. Nós sofremos, por conhecermos tão-somente a parte, sem a plenitude do reencontro com Deus. O que é parte, um dia, se dissipará e o sete há de coroar o seis (De Ciuitate Dei, 11, 31)”.  Ainda, “segundo o Talmude, sete é símbolo da totalidade humana, macho e fêmea, simultaneamente, o que se explica pela adição de quatro e de três: é que Adão, nas horas de sua primeira jornada, recebeu a alma, que lhe deu a existência por completo, à hora quarta e, à hora sétima, recebeu sua companheira, permitindo-lhe desdobrar-se em Adão e Eva”.

Por fim, Junito cita uma quadrinha do folclore nordestino, que é, por sua vez, uma reminiscência de um episódio célebre da Sagrada Escritura (Tb 3,7-15; 7,1—10,13):

Sete vezes fui casada,

Sete homens conheci;

E juro por fé de Cristo,

Inda estou como nasci.

Que mulher se teria casado sete vezes e permanecido virgem? Trata-se, obviamente, da história de Sara, filha de Ragüel, de Ecbátana. Sara, conforme o relato bíblico, se casara sete vezes, sem consumar o matrimônio, porque os sete maridos haviam sido mortos, nas sete noites de núpcias, pelo demônio Asmodeu, que habitava o corpo da linda filha de Ragüel. Exorcizado por Tobias, Asmodeu tentou fugir, mas foi acorrentado pelo anjo do Senhor e levado para os desertos do alto Egito. Após três noites de oração, Sara e Tobias consumaram em paz e no amor seu casamento”.

O que mais dizer sobre o Sete? que ele alude às artes liberais: Gramática, Retórica Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. Os Sete Pecados Capitais, os sete anões… ou a Mística camisa 7 de Garricha e o supersticioso torcedor botafoguense e de tantos outros times, inclusive da própria seleção brasileira.

Ah, vamos ouvir e dançar com o som de Stevie Wonder.

Stevie Wonder ~ Superstition

Imagem de Amostra do You Tube

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