A Renúncia do Papa Bento XVI

 

Ratzinger, envelhecido, sem poder, viveu Bento XVI, menor de quando era mentor de João Paulo II

 

O mundo acordou meio surpreso com a renúncia de Bento XVI ao seu papado, algo que não acontecia desde 1415, Gregório XII, com 90 anos, e um acordo para acabar com a crise do grande cisma do ocidente, a renúncia fez parte do processo de pacificação da igreja. A nova renuncia 598 anos depois, terá quais significados? Seria algo espontâneo? O que o levou a abdicar de um cargo que não exige qualquer “ato de grandeza” já que o papa é infalível?

Tenho formação cristã, com proximidade à teologia da libertação, uma das minhas referência de vida, ética e política é um tio padre, que com tenho grande afinidade. Ele  viveu em Roma nos anos 70 devido a ditadura brasileira. Várias vezes debatemos sobre os temas e desafios da igreja, sem jamais ele ter a preocupação doutrinária em relação amim, então facilitou muito a entender vários fenômenos da igreja, com boa conversas sobre os reais significados.

Efetivamente, para compreender o real significado da renuncia de hoje, é preciso recuar aos anos 60, em particular ao grandioso Concílio Vaticano II, o maior avanço da Igreja Católica em 200o anos, lá, primeiro sob a liderança de João XXI, depois com a conclusão já sob Paulo VI, a igreja se voltou para o povo, literalmente acabaram as celebrações de costas, o uso de apenas o latim, foram a face mais visível, mas a mudança era de fundamento, para quem a igreja deveria se voltar. A grande influência da América Latina fez com que a Teologia da Libertação tivesse presente em todas as decisões, com adesões de amplos setores da igreja na Europa, até o jovem Ratzinger, já figura destacada na Alemanha simpatizasse com o movimento.

As decisões do Concílio Vaticano II, são publicadas em 1965, sendo as mudanças efetivadas em 1969, porém um grupo de “tradicionalistas” começa a se insurgir contras as decisões, a burocracia do Vaticano começa a pesar e falar mais alto, Paulo VI, também não foi capaz de leva à cabo todas as mudanças, sua morte, o breve papado de João Paulo I, leva a um grande embate sobre que grupo iria dominar a igreja. O desconhecido Karol Wojtyla, polonês, jovem, 58 anos, é eleito papa. Um novo tempo se inaugurou, o que parecia impulsionar a igreja para o futuro, não aconteceu. Os grupos conservadores, já sob a batuta do Cardeal Ratzinger, chefe da Doutrina da Fé, tendo atravessado à margem ideológica, usa de todo seu poder para esmagar e calar a Teologia da Libertação. No front público, João Paulo II, era um sucesso, suas viagens pelo mundo, teve um peso simbólico fundamental, favorecia a “nova igreja”, era como se o modelo do Vaticano II fosse colocado em prática, porém, internamente o retrocesso era imenso.

O Cardeal Ratzinger foi papa de fato de 1981 à 2005, de direito 2005 a 2007, depois era apenas um “pato manco”, acabou vítima do esquema que montou quando não era papa, os grupos internos e a burocracia já não obdecem à autoridade papal, os escândalos de pedofilia, que fora escondido do público durante a gestão de João Paulo II, vieram aos conhecimento amplo, enfraquecendo a imagem de Ratzinger. A sua escolha, já representou apenas uma solução de continuidade, da renhida luta interna, com observa o El País “O alemão alma ortodoxa cardeal tridentina durante o seu mandato tem sido apenas um Papa, intelectual, fraco e se arrependeu dos pecados, sujeira e crime-  ele que usou essas palavras pela primeira vez da Igreja, e cercado por lobos famintos riqueza, poder e imunidade. A Cúria forjada em tempos Wojtyla foi uma reunião de pior em cada diocese, de fraudes fiscais a advogados pedófilos, para contrariar americano e fundamentalista do pior tipo. Essa Cúria, digna de O Poderoso Chefão III sempre foi desaprovada Ratzinger, que tentou fazer uma limpeza completa, enquanto que movimentos mais vigorosos e rentáveis, como os Legionários, Opus Dei e da Comunhão e Libertação torpedeavam completamente qualquer sinal de regeneração”.

Diante deste quadro, pouco ou nada, o antigo gladiador, agora velho e sem poder de fato, resolve dar sua última cartada,a renúncia, que a meu ver serve a três propósito: Primeiro, constranger os mais afoitos, segundo, delimitar limites de poder futuro e terceiro denuncia a solidão e isolamento do poder papal. O gesto, influenciará no futuro da escolha e da própria conduta interna. A igreja tem 2000 anos, a instituição mais perene do ocidente, mas que agora enfrenta um novo mundo, uma realidade muito mais complexa, a luta de 40 anos, sem dúvida não se resolverá neste novo conclave, mas, ao meu ver, dificilmente o novo papa será alguém que não esteja preparado para esta realidade. Há duas saídas claras: a primeira, eleger um Cardeal de no máximo 65 anos, com garantia de um papado mais longo, com mudanças já imediatas. A segunda, a mais crítica, sem nenhuma acordo, uma solução de continuidade de um papa na faixa do 75 anos pu mais, para que as forças continuem a luta, até uma maioria clara.

Vou acompanhar com interesse o conclave do cardinalato, hoje com 209 membros, sendo 92 impedidos de votar ou ser votado, por ter mais de 80 anos. Será a sucessão mais aguardada, desde Paulo VI. Acompanhemos.

 

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