Algumas das Razões da Renúncia do Papa

 

Papa agradece saudações de cardeais, ontem  Foto: Alessandra Tarantino/ AP

 

Meus outros posts sobre A Renúncia do Papa Bento XVI e As Cinzas da Quarta e a Sucessão do Papa, buscavam as razões mais amplas sobre a renúncia, a cada dia o quebra-cabeça vai se montando. O espetáculo da sucessão papal começou oficialmente em 2005, pois o mandato de Bento XVI sempre foi considerado “tampão”, uma espécie de solução de continuidade em que os grupos antagônicos não tinham clara maioria, optaram por um nome que representasse um compromisso de manter as coisas como estavam, sem causar estragos maiores se qualquer lado assumisse, inclusive um cisma à direita. Esta é a leitura que consegui fazer à época, que se provou na prática, nestes anos.

 

A opção foi bem pragmática, com 77 anos, saúde já abalada, o papado não seria longo, além do que a sua debilidade faria com que cada lado buscasse uma melhor localização para o novo confronto, 5 ou 10 anos numa instituição de 2000 anos não é nada, as correntes internas sabiam bem disto. A cada frase solta que Ratzinger pronuncia hoje, se traveste de mensagem direta aos grupos que se digladiam. Nada parece de graça, no texto da Folha de S. Paulo de hoje, “Bento 16 disse que a divisão no clero e a falta de unidade “desfiguram o rosto da Igreja” e pediu a superação de “individualismos e rivalidades” durante a Quaresma, o período cristão compreendido entre a quarta-feira de Cinzas e a Páscoa. Sobre o assunto, o pontífice disse que Jesus denunciou a “hipocrisia religiosa, o comportamento de que buscam o aplauso e a aprovação do público”. “O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou ao público, mas ao Senhor, de maneira singela, simples e generosa“.

Mas a chave da questão é o  livro “Sua Santidade, cartas secretas do Papa”, escrito por Gianluigi Nuzzi, que recebeu centenas de documentos internos de comunicação do Papa com seus principais assessores, demonstra que ele estava consciente de todas as armações e podridão que o cercava. Numa matéria da France Press de maio de 2012, podemos ler que as cartas eram comprometedoras demais “o secretário do papa recebeu por fax todos os detalhes do chamado “escândalo Boffo”, a operação para desacreditar o editor do jornal “Avvenire”, jornal da “Conferência Episcopal italiana”, mediante acusações falsas de assédio homossexual e homossexualidade contra o jornalista Dino Boffo”.

A matéria dizia mais que “tais cartas resumem o clima recente de guerra ocultada pelo poder dentro do governo central do Vaticano, a influente Cúria Romana, que minou a credibilidade da Igreja. O nome do atual secretário de Estado, o cardeal Tarcisio Bertone, mão direita do Papa e número dois da Santa Sé, está presente em muitos dos documentos e é afetado de forma negativa, sendo possível que o livro seja uma operação midiática para atacá-lo.O jornal italiano “Libero” também publicou comentários sobre o livro. Nuzzi chegou a comentar sobre o difícil ano vivido com os “corvos” do Vaticano, que lhe passaram os documentos entre “silêncios, longas esperas e precauções maníacas”.

 

A luta pelo poder e o nível de agressividade, sem dúvida explicam a declaração de ontem, de Bento XVI de “não ser capaz de promover o Ministério de Pedro com a força física e o espírito que ele requer”. Mesmo sem ser surpresa, causou mais irritação nos grupos mais conservadores, o competente jornalista do Estadão, Jamil Chade, entrevistou um do principais vaticanistas, o italiano Marco Politi, que acaba de publicar um livro sobre o pontificado de Bento XVI, e também lança mais luzes sobre a Renúncia, alguns trecho da conversa:

“Como foi a reação dentro do Vaticano diante da renúncia?

Os conservadores temem a decisão. O temor é de que isso possa causar uma desmistificação do papel do papa. E que, no futuro, um papa possa ser colocado sob pressão para se demitir em determinadas situações. Mas a decisão foi muito lúcida e muito bem planificada. Foi um gesto revolucionário – a única grande reforma de seu pontificado, um exemplo e um estímulo à reflexão. Na Alemanha, há cardeais que já falam abertamente de que seria justo colocar um limite de idade para o papa. Bento XVI completou a reforma de João Paulo II, estabelecendo idades para cardeais e sua participação no conclave. Agora, mandou a mensagem de que um papa pode, sim, renunciar. Nos tempos modernos, não se pode permitir um papa doente.

Fala-se muito de que a renúncia foi um ato político. Como o sr. avalia isso?
Foi um gesto de realpolitik e de reconhecimento da incapacidade sua de cuidar da Igreja, pois não basta ser um intelectual ou teólogo. Para guiar a instituição de 1 bilhão de fiéis, ele precisava de um pulso de governador.

[…]

Quais são as perspectivas para o conclave, diante dessa situação inédita?

Dentro do conclave, todas as cartas estão embaralhadas. Será um conclave muito complicado. Em 2005, havia um grupo forte de apoio e de mobilização pela candidatura de Ratzinger. Mas ele era o único ator mais forte. O cardeal Martini seria uma opção, mas estava doente. Hoje, temos vários candidatos. Mas nenhum deles tem um pacote de votos claro. O vencedor será um candidato de centro. Não poderá ser alguém de continuidade de Ratzinger. Mas não sabemos se essa pessoa está disposto a fazer as reformas que a Igreja precisa para enfrentar seus desafios.

Quais são esses desafios?
O primeiro é a crise de padres. Não há padres para todas as paróquias. Outro é o papel das mulheres dentro da Vaticano. Há ainda o tema da sensualidade no mundo moderno, o homossexualismo, o divórcio. Finalmente, há a questão do papel do papa”. (Estadão, 14/02/2013)

 

A luta pode não ser aberta e definitiva, mas ganhou olhos e mentes mais interessados do que em 2005, a facilidade de acompanhar e debater é bem maior. Acompanhemos.

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