Crise 2.0: Espanha ajoelhada diante da Troika

 

 

Sobrou o NÃO, como resistência

Hoje cedo comecei a escrever sobre a crítica situação da Espanha, de como chegou ao precipício, no post Crise 2.0: O caminho do desastre espanhol, historiei, mais uma vez os movimentos da maior crise desde 1929, que por coincidência iniciada nos EUA, depois explodida na Europa, o pequeno hiato de dois anos, entre elas. Procurei demonstrar a relação entre os empréstimos abundantes oferecidos pelos países mais ricos da UE, antes e depois da introdução do Euro, assim como a relação de dependência criada, desde este movimento do Capital.

 

Os bancos e empresas de Alemanha e França, inundaram os países mais “pobres” do sul da Europa com seu dinheiro e produtos, numa falsa perspectiva que estes países se tornassem “consumidores” com o mesmo poder de compra do que eles. Enquanto havia crédito fácil, esta farra se intensificou, nada parecia deter este enriquecimento (sem causa), a ilusão tomou conta de amplas massas, o endividamento foi de cima à baixo, as burguesias locais eram sócias minoritárias nesta nova expansão. Não por acaso, os “novos ricos”, preventivamente não podiam crescer dentro da UE, saíram pela América Latina, comprando empresas nos loucos anos das privatizações. Poucos sabem, mas uma empresa como Telefônica, não era permitido participar do leilões na Alemanha, portanto, se expandia na América Latina, Leste Europeu e África.

 

Os bancos portugueses e espanhóis tomavam dinheiro da banca francesa e alemã, e financiava as suas armadas privatizantes pelo mundo, casos como Santander, Portugal Telecom ou da própria Telefônica, se tornaram maiores fora de seus países do que internamente. O Estado Português, Espanhol, era fiador tanto de endividamento na UE como incentivador na corrida ao mundo para “gastar”. A crise pegou estes países de calças curtas, com um grande endividamento e com poucas soluções  de continuidade internas, além da imensa bolha imobiliária criada no auge do dinheiro fácil. Sem lastro, Portugal, Irlanda e Grécia, caíram com muita rapidez, a Espanha vai pelo mesmo caminho, numa marcha insana. Em pouco mais de 2 meses a Espanha ruiu.

 

O caminho rumo ao desmoralizante resgaste da dívida, o que significa a perda total de soberania e autonomia parece inevitável, o El País, trouxe uma longa matéria que mostra o temor do resgate, como a derrocada final do fracassado Governo da Direita, liderado pelo “insosso” Rajoy, o artigo dize sem meia palavra: “Resgate. A palavra que o governo não quer ouvir ou pronunciar, mas os burburinhos repete o tempo todo. O Eurogrupo concedeu, ontem  o resgate  para recapitalizar o sistema bancário, mas os mercados são muito claro de que a Espanha vai precisar de um resgate total. Ao mesmo tempo, a Comunidade  valenciana tornou-se o primeiro a solicitar o resgate à administração central . “no hay dinero”. Essas três palavras, pronunciadas por um ministro, é jato de combustível no fogo. É a frase que foi repetida na semana passada Cristobal Montoro. E os investidores tomaram nota. Também não há dinheiro para a Espanha, dizem os mercados, ontem, a dívida pública, experimentou seu dia mais dramático e arrastou o mercado acionário como um acidente”.

 

Esta situação é muito parecida com o que viveu a América Latina no começo dos anos 80. Os anos 60 e 70 com créditos fartos financiando as ditaduras locais, países como Brasil, Argentina e México, se endividaram freneticamente, a Crise do Petróleo foi o sinal vermelho de que a situação mudara, mas apenas por volta de 1980, quando Paul Volcker assume o FED efetivamente há um extremo aperto, e os países da América Latina, foram caindo, um a um, no Default, com pedidos de moratórias, de México e Brasil. Passando mais de 20 anos sem crédito ou permissão para voltar ao “mercado”, banidos como Adão e Eva do “Paraíso”. Escrevi sobre este fenômeno no post Crise 2.0: Uma tese, ainda em Março, antes da queda espanhola.

 

Ainda aqui, na série sobre a Crise 2.0, escrevi sobre os males terríveis que foi na América Latina os planos de Austeridades do FMI e Clube de Paris, no post Crise 2.0: Austeridade(As Fúrias), o que sabemos é o que espera se a Espanha em caso de resgate total. Portugal, Irlanda e Grécia, experimentam já a receita amarga, a grande diferença é o tamanho e significado de uma queda da Espanha, que arrastaria consigo a Itália. No gráfico que hoje publicou o El País sobre os últimos vinte anos da economia espanhola, que vamos usar mais uma vez para ilustrar nossa análise, fica claro que em 5 meses de governo Rajoy, o prêmio de risco dobrou, o que justifica a canção dos manisfestante “Mariano, Mariano no terminas el verano”.

 

Espanha em queda - Gráfico do El País

 

 

O El País assim descreve: “A desconfiança sobre Espanha atingiu níveis recordes, com uma deterioração sem precedentes nos últimos meses contra o governo o que dá uma sensação de que o desamparo aumentou. Ontem, o prêmio de risco (retorno extra necessário para a dívida espanhola a 10 anos contra o alemão, considerado seguro) pela primeira vez ultrapassado o euro foi de 600 pontos base (6 pontos), o que não ocorreu até mesmo em nos últimos seis anos da peseta. Por exemplo, quando José Maria Aznar chegou ao poder em 1996, o prêmio de risco foi inferior a 300 pontos-base”. E aponta bem claro o culpado, o Governo Rajoy:” O atraso na aprovação de orçamentos (que durou duas semanas ), os erros nas relações com a Europa, a crise do Bankia ( primeiro que foi não sendo gerido pelo Banco de Espanha, mas a partir do Governo, com o resultado conhecido), o estigma do pedido de resgate para a Europa para recapitalizar os bancos, a incapacidade de reduzir significativamente o déficit apesar dos cortes e da perspectiva de que a recessão se prolonga (em parte por esses cortes) causaram fuga dos investidores da Espanha, como nunca antes”.

 

Apenas sob gestão Rajoy, mais de 200 bilhões de Euros saíram da Espanha, uma fuga sem precedente, no pior momento que mais se precisa de Euros. O desemprego aumentou fortemente, as medidas que o governo acertou
com a UE, secretamente, que agora se tornaram pública no Tesouraço, revoltou a população, até setores médios e burgueses perceberam que a solução da Direita vai jogando a Espanha no limbo, de forma irresistível e rápida demais. O pedido de falência de Valência, é apenas um sinal grave de que outras províncias podem pedir resgate a um governo que não tem fundos, todo seu esforço foi para tentar salvar os bancos. A Bolsa de Madri caiu 5,8% apenas ontem, segunda que vem passou a ser o dia D. O próprio FMI condenou o resgate do Bankia, no seu relatório diz que o Governo o fez, para esconder o PP do escândalo maior, um de seus maiores quadros Rodrigo Rato( Ex-chefe do FMI), presidia o banco.

 

O apelo do governo é desesperado para que o BCE dê sinais de apoio à Espanha, para que ela não caia, um ministro chegou a chamar o BCE de “Banco Clandestino” pois não agia diante do caos. A resposta do Mario Draghi (ex-Goldman Sachs), presidente do BCE, foi dura e jocosa: “O BCE não existe para resolver os problemas financeiros dos Estados”. O que é uma flagrante inverdade, pois este mesmo BCE abria as “burras” para ajudar banqueiros, com seus empréstimos a juros baixíssimos, estes viram atravessadores, pois utilizam este dinheiro para fazer aumentar o prêmio de risco de países como Itália ou da própria Espanha. Ora se BCE, que centraliza as operações europeias não serve para ajudar os Estados em crise, para que serve então?

 

Como sempre fazemos, neste 1 ano de trabalho nestas análises, é acompanhar e tentar tornar palpável o que se passa nesta grande Crise, dá um norte na crítica econômica e política, com um corte de classe. Sem nos iludirmos, sem falsa expectativas, extremamente preocupados com o desenrolar dos acontecimentos, não apenas na Espanha, como na Grécia, mas as suas implicações no mundo e aqui no Brasil. Ninguém está imune ao que se passa na Europa, mas hoje, eles experimentam o remédio amargo que tomamos por tanto tempo, servidos pelos mesmos “médicos”, liderado pelo mesmo “especialista”, o FMI, lá numa composição com a UE e BCE, conhecida como Troika. Só resta ver e torcer para que a sociedade reaja, resista e derrote o governo neofascista de Rajoy e seus “patrões”, representados pela Troika.

 

Fechamos mais um capítulo, nesta madrugada fria de domingo em São Paulo, mas sempre falta algo a dizer. Uma nota boa, o fanfarrão do Rei Juan Carlos, o caçador de elefantes foi destituído da ONG WWF de que era presidente de honra.

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