A Perda da Inocência (Ideologia) III

A história não acabou, vide a rebelião grega
A história não acabou, vide a rebelião grega

 

Algumas coisas em minha vida são absolutamente paradoxais, por exemplo, na organização mais anti-estudo que participei, foi justamente o período que mais me aprofundei na teoria política e do conhecimento. Era justamente para ter me paralisado, deu-se o oposto. Aparentemente é uma contradição, estas coisas não são simples de explicar, tem um contexto histórico e pessoal que acabam ajudando a entender o que se vivia em cada momento de nossas vidas, em particular no tocante aos estudos, conhecimento, descobertas.

O início dos anos 90 são decisivos para quem quer entender o presente, isto tanto à Esquerda, quanto à Direita. Os eventos de 1989 com a ruína completa do Leste Europeu, trouxe ao mundo o fim de um época, as sete décadas anteriores a polarização política e ideológica foi marcante, desde a Revolução Russa o mundo se dividiu profundamente, independente do espectro que qualquer um se localize, é impossível não aceitar esta premissa como verdade. Até mesmo quando Hitler assumiu o poder e fez a guerra, que uniu Eua, Reino Undo à URSS, a separação era clara.

O pós-guerra aprofundou as diferenças, com a morte de Stalin, seus crimes amplamente conhecidos, não deu espaço para que abrandasse ou se aproximasse os dois campos. Em certos aspectos, os partidos de esquerda europeus se distanciaram do Leste, assumiram uma postura crítica à experiência dos dito países socialistas, mas sem construir nada sólido que pudesse se contrapor, ao mesmo tempo,  a ideologia capitalista americana e seu outro lado da URSS. A voz simplista dos trotskistas era de que, o leste viria a cair, mas a revolução seria retomada, mais ou menos ao período da NEP, antes dos expurgos stalinistas.

A realidade é que a queda do Leste, não trouxe uma revolução dentro da revolução,  não recuamos à 1928, ao contrário, voltamos à pré-revolução, uma restauração completa, todo o leste ruiu, houve um triunfo completo do império único. As relações daquele longínquo 1992 que teve em Fukuyama a voz dos vencedores “acabou a história e temos o último homem”. O impacto era enorme, as organizações, pequenas ou grandes, de esquerda, são tomadas pelo sentimento de que tudo ruíra, em primeiro lugar, a ideologia socialista.

O desarmamento não foi imediato, foi paulatino e contínuo, ano a ano, mesmo diante das crises que teimavam em reaparecer, as respostas era parciais ou sem convicção, a militância mais ideológica foi abatida, sem esperança ou força para reconstruir a sua Utopia. Aceitou, não pacificamente, mas de certa forma, tacitamente o retrocesso, como final. Os anos 90 o mundo foi sacudido por três crises graves ( tigres asiáticos, Russa e dívidas), mas sem reação, a ideologia do pensamento único prevaleceu.

Os anos 2000, iniciou-se com 11 de setembro, a reação ao império único foi dada, não por uma ideologia anti-capitalista, mas uma ação religiosa. A reação dos EUA fez crescer a pressão contra qualquer liberdade ou questionamento ao império. As invasões de países como Afeganistão, Iraque, ocupação do Paquistão e ações na África, demonstram que nada se contrapõe ao EUA. Senhor do mundo e dos destinos da humanidade. A sua força, mesmo que desmoralizada pela ousadia de Bin Laden, se tornou mais viva e presente no mundo.

Mas aí a hidra do Capital, nossa velha conhecida, a Crise de Superprodução, voltou a aparecer. O ano foi 2005, mas se preferirem, Lehman Brothers em 2008. É quase um renascimento de Marx, agora visto como visionário, quase profeta, não como um revolucionário, que questiona as bases do sistema capitalista. O nosso desmonte foi tão grande, que até é difícil encontrar referência e análises do significado da atual Crise.

Os Eua entraram na pior crise de suas história, desde 1929, a Europa que poderia contrabalançar o Capital, mergulhou num caos, mesmo assim continuamos desarmados. A ideologia, nosso fogo de Prometeu, nos foi tomada de volta por Zeus.  As experiências do Brasil, sem ser cair no umbigo local, é de longe a maior  reação à ideologia dominante, cheia de contradições, vacilos, traições de classe. Mas foi um dos poucos movimentos em que o Capital domina, mas não é seu projeto hegemônico que dirige os destinos de uma grande nação.

A nossa luta atual é para achar de volta nossa Utopia, será que é nesta geração? Do meu lado, faço um esforço teórico para discutir a atual Crise, com olhos marxista, no que denomino Crise 2.0, ao mesmo tempo trouxe ao debate, principalmente para os mais jovens, estas três partes sobre Política: 1)  A Perda da Inocência (Partido) I , 2) A Perda da Inocência (Revolução) II e este agora.

Tudo que fazemos é pouco, diante do que já perdemos.

One thought on “A Perda da Inocência (Ideologia) III”

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: