Crise 2.0: Desafios de Hollande

 

Hollande e seus partidários - Remy Mauviniere/AP

Os efeitos da vitória socialista na França ecoam forte na Europa e no mundo, nosso  Crise 2.0, tem dedicado um material já significativo sobre a mudança na liderança francesa, que pode ser lida nos posts abaixo:

  1. Crise 2.0: Caminhos para França
  2. Crise 2.0: A nova França
  3. Crise 2.0: O Pós-Sarkozy
  4. Crise 2.0: A questão do Poder na UE
  5. Crise 2.0: França x Alemanha
  6. Crise 2.0: Austeridade x Crescimento

 

Este conjunto de artigos ajuda a compor uma visão do significado das eleições francesas, procuramos mostrar vários ângulos da questão, e principalmente apontar quais expectativas e limites de um Governo que pega um país numa profunda crise.

 

Lendo o primoroso artigo de Gilles Lapouge ( A eleição de Hollande traz novos ares para a Europa) de hoje, percebemos como as transformações no mundo são limitadas pela crise, ele descreve com brilhantismo os  bastidores das eleições francesas, o desprezo que os líderes mundiais tinham para com Hollande, até domingo, agora hipocritamente se voltam para o “novo amigo”, mas vai além nos contando como vive a França de Sarkozy e sua herança maldita:

“Quando um novo presidente assume o poder, instaura-se aquele “estado de graça”. Por algumas semanas, a paisagem parece sorrir. Para Hollande, porém, não haverá “estado de graça”. Ele recebe um país deteriorado e em frangalhos, com uma economia em desordem, uma alta taxa de desemprego, déficits comerciais cada vez maiores e um endividamento vertiginoso.

Qual o motivo de tamanha catástrofe? Em parte, por causa da gestão caótica de Sarkozy, mas também por causa da crise e da deterioração da Europa toda, particularmente dos países que compõem a zona do euro: Grécia, Itália, Espanha, Irlanda e até a Holanda.

As primeiras semanas de Hollande serão, portanto, inteiramente dedicadas a tapar os buracos por onde o barco faz água. Como lançar novos programas quando todos os fundamentos da economia estão ameaçados? Por outro lado, ao mesmo tempo, Hollande será obrigado a compartilhar cada uma das suas iniciativas com seus parceiros europeus, os da União Europeia, do euro e do Ocidente atlântico”.

 

O que ele descreve é irretocável, mais ou menos o que vivemos a repetir neste espaço, que muitas vezes é solenemente ignorados, até pela esquerda local. No final ele faz os mesmos questionamentos que fez Paul krugman no artigo que comentei ontem:

“Será que Hollande conseguirá impor suas ideias numa Europa paralisada por dois anos de operações de salvamento inúteis e desastrosas para a Grécia? Nada garante uma política de “relançamento” em um continente em recessão (exceto na Alemanha).

Deve-se esperar, pelo menos, o surgimento de um novo pensamento político-econômico, de um pensamento diferente do de madame Merkel. Alguma coisa que permita rearrumar o terreno do jogo e substituir o “pensamento único” imposto por ela e por Sarkozy. Um pensamento diferente, colorido, contraditório, diversificado, certamente mais criativo, mais perigoso e mas mais fecundo”.

 

O espaço de manobra é curtíssimo, as notícias de ontem da Espanha  e de  hoje da Grécia tornam o desafio mais complicado, o Euro está num momento de ruptura interna, a política de austeridade se provou inútil, tendo piorado mais ainda a vida dos trabalhadores e do povo, em particular nos países mais pobres, afeta de forma forte até países médios e grandes, como Espanha e Itália, a saída proposta pela Alemanha fracassou. O que fazer agora?

 

Ontem dissemos que o governo da Direita espanhola estava diante de um enorme problema, a crise bancária local, não tem mais como adiar, o quarto maior  banco do país, o Bankia, ontem pediu que o governo assumisse seu controle, como única forma de salvar os correntista. Há menos de quatro anos, o governo espanhol já injetara 4,5 bilhões de Euros neste mesmo banco, agora será convidado a contribuir com mais 10 bilhões.

“O Bankia é o banco espanhol com maior exposição ao setor imobiliário, com créditos ao setor estimados em € 37,52 bilhões, dos quais € 17,85 bilhões são considerados problemáticos. Falando a repórteres em Lisboa, depois de uma reunião com o também conservador primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, o primeiro-ministro Mariano Rajoy afirmou que “o governo gostaria de enviar uma mensagem para tranquilizar os depositantes do Bankia, e é claro, o governo garante a estabilidade de todo o sistema bancário”. (Dow Jones, 10/05/2012)

 

Chega a ser um insulto, o governo que propões imenso sacrifício ao povo, com enormes cortes sociais, aqui incluídos, por uma mera coincidência, os 10 bilhões tirados de saúde e educação, agora são revertidos para salvar um banco falido. Que tipo de compromisso se estabelece? Onde estão as vozes liberais, que condenam os gastos sociais, mas se calam diante do resgate à banqueiros falidos? Miriam, Sardenbergs(são vários), Maílson, agora fazem cara de paisagem?

 

Mas os problemas espanhóis, que vão além do enorme desemprego, falência das famílias, encontra na Grécia uma terra arrasada, os novos índices de desemprego e produção industrial falam por si, aqui descritos pela agência Dow Jones:

A taxa de desemprego na Grécia subiu para o novo recorde de 21,7% em fevereiro, do dado revisado de 21,3% em março, informou a Elstat, a agência de estatísticas do país. A taxa de fevereiro, que é sazonalmente ajustada, é a mais alta desde que o indicador começou a ser acompanhado, em 2004. O número total de desempregados no país atingiu 1,07 milhão. Os jovens continuam sendo os mais prejudicados pela profunda recessão grega, com 53,8% das pessoas entre 15 e 24 anos sem
trabalho em fevereiro, um forte aumento em comparação com a taxa de 40,3% registrada no mesmo mês do ano passado. Entre as mulheres a taxa de desemprego ficou em 25,7%, de 18,8% na mesma comparação.

Indústria em baixa

A produção industrial da Grécia caiu 8,5% em março, ante março do ano passado, depois de recuar 8,3% no ano em fevereiro, segundo dados da Elstat. A produção de eletricidade diminuiu 8,9%, enquanto a do setor de manufatura declinou 8,8% e a de mineração caiu 7,9%. As medidas de austeridade introduzidas como parte do pacote de ajuda internacional oferecido ao país estão tendo um pesado impacto sobre a economia grega. (As informações são da Dow Jones, via Estadão 10/05/2012)”.

 

É neste meio de catástrofe que começa a se mover Hollande, a Europa, exceto a Alemanha, está mergulhada na crise, a maior do pós-guerra, mas sem ter um Plano Marsall para savá-la. Nos parece que Hollande, se constitui, entre os líderes atuais, a voz mais lúcida e sensível para arrumar uma saída para o imenso desastre que se aproxima.

0 thoughts on “Crise 2.0: Desafios de Hollande”

  1. Que Hollande consiga mesmo encontrar esta saída. E que esta saída sirva de exemplo aos outros países, porque não se pode curvar à visão de Merkel relativo ao mundo. Não é pelo sacrifício que se irá resolver este problema, mas certamente exigirá uma visão política e estratégica quase mágica.

  2. “Um pensamento diferente, colorido, contraditório, diversificado, certamente mais criativo, mais perigoso mas mais fecundo”. Genial! #Lulaestejaconvosco!

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