Crise 2.0: A questão do Poder na UE

 

Hollande x Merkel - O Poder da UE em Disputa

As grandes mudanças na Zona do Euro no último ano, foram acompanhadas aqui nesta série sobre a Crise 2.0, a decidida tomada de poder político pela Alemanha, já determinava a vida econômica, se deu de forma irresistível no ano passado. Até então a União Europeia dava impressão de uma aparente democracia, mesmo que os países mais fortes agissem com mais poder, mas sem que um determinasse. Porém com a crise, a Chanceler Angela Merkel, passou a comandar e decidir sobre os destinos de todos os demais países.

 

A Alemanha já na metade dos anos 80 era a economia mais dinâmica da Europa, mas encontrava freios de seu poder em dois pilares: Otan(EUA) com a paranoia da guerra fria e pela França, que era a segunda potência e lhe segurava o poderio econômico. Os compromissos por uma Europa unida ainda eram partilhados pela Inglaterra, com Tatcher que também se opunha a um domínio alemão. A Alemanha tinha a maior e melhor economia, a moeda mais forte, mas era limitada politicamente, não conseguindo se impor, o passado da guerra ainda era muito vivo, contribuindo como freio aos desejos da Alemanha, sua porção ocidental.

 

Com a queda do muro de Berlim e a possibilidade de reunificação, um amplo acordo foi costurado por Mitterrand e  Hemult Kohl, em troca da unificação, a Alemanha aceita o Euro, o BCE e UE. Os custos de unificação, pelos cálculos franceses atrasaria em muito o poder alemão, daria tempo para que o restante da Europa se equilibrasse para ter uma relação “igual” com a Alemanha. França, Inglaterra e Itália, desfrutariam de uma moeda comum, atrairiam outros países, quando a Alemanha finalmente concluísse a unidade, o poder seria limitado.

 

Em parte se cumpriu o que se previa, os custos da reunificação foram altíssimos, cerca de 1,3 trilhões de Euros, a Alemanha passou por longo período de sacrifícios internos, mas ganhou um acréscimo de 40% em seu território, mais 17 milhões de alemãs, língua comum, costumes, boa educação e fronteiras mais próximas do leste, rico em gás e petróleo. As indústrias sucateadas do leste, foram reformuladas, mas a mão de obra “mais barata” foi um combustível fundamental.

 

As reformas da agenda 2010 do Governo Social-Democrata de Schroeder foram fundamentais, para preparar a nova Alemanha, a flexibilização do trabalho, as mudanças no padrão produtivo, foram feitas no momento de baixa, que a resistência era pequena, uma imposição à classe como única saída. Do lado europeu a primeira dissensão foi da Inglaterra, que não aceitou a moeda única, tornando a Zona do Euro menor, com menos equilíbrio. A França perde assim um importante aliado no jogo de equilíbrio, para futuros enfrentamentos com a máquina alemã, que vai ressurgindo pós-unificação.

 

A tática  Alemã, de ocupação de posição até se tornar hegemônica veio sendo plantada ao longo do tempo, contou com a queda paulatina, não apenas da economia de vários países, mas principalmente das lideranças mais significativas. O país que mais se afastou do centro do poder, por sua posição econômica, foi a Itália, a longa instabilidade interna com governos de pouca credibilidade, foi se arrastando e tomou forma definitiva com Berlusconi, que transformou o poder italiano em circo de horrores. O País foi levado a uma crise econômica sem fim combinada com crise política, agora vive sob intervenção “branca”, com um governo fantoche de tecnocratas imposto pela Alemanha.

 

Quando estoura a crise nos Eua em 2008, a Zona do Euro, que até ali só conhecia crescimento, expansão, passa a ter um novo problema, os países que aderiram ao Euro, sem economia sólida, são os primeiros a sentirem os impactos da crise global, mesmo os primeiros pacotes para irrigar a economia do BCE, não foram suficientes, vindo à tona a situação de endividamento estatal, desequilíbrio dos anos de farta circulação de capital. No fim de 2010 a crise aporta de vez no velho continente.

 

É neste ambiente que a Alemanha, através da ambiciosa liderança de Merkel se impõe,  primeiro recruta o fraco Presidente Francês, com o país em crise, mas com status de segunda economia, achava que, como fizera Mitterrand, seria o interlocutor da Alemanha, com força de barganha. Rapidamente foi posto no devido lugar pela Chanceler Alemã, acaba aceitando ser seu coadjuvante. As portas foram arrombadas, sem mais qualquer defesa, o poderio alemão, fez estragos, um atrás do outro.

 

Diretamente, algumas vezes, Merkel deixou claro que tipo de economia a Alemanha quer na Europa, os países mais frágeis são brutalmente aviltados, com imposição de governos fantoches, os líderes são obrigados a seguir os terríveis planos de austeridade, ou expulsão. Através da Troika( BCE, UE e FMI), Merkel decidiu a vida da Grécia, Portugal Irlanda, Espanha e Itália. Sem nenhum pudor avançou nas ameaças políticas e econômicas, criando constrangimento, inclusive, nos poderes instituídos de Bruxelas.

 

Fez aprovar, sem respeitar o Comissário da UE, o português Barros “Durão”, medidas punitivas aos países que estiverem fora das metas fiscais, inclusive, com direito a suspensões ou expulsões da Zona do Euro. Rompeu com a Inglaterra, numa espécie de ultimato, usando Sarkozy como cobaia no embate. Enquanto todas as economias encolhem, tem problema de desemprego, a Alemanha encontra-se no auge. A balança comercial é a maior prova do fracasso da Zona do Euro, que sente o peso da economia alemã sobre os demais.

 

É neste ambiente de poder estabelecido, com a Alemanha no comando, que surge uma nova liderança francesa, um socialista como Mitterrand, um dos principais artífice da UE, poderá ele rearticular e obstar o poder de Merkel? ontem escrevemos sobre o pós-Sarkozy, Crise 2.0: O Pós-Sarkozy, hoje somos informados que a Alemanha já sentiu o golpe, deixando claro que não renegocia NADA. O que parece interessante, antes nem dava satisfações, agora manda recados.

Segundo o Site alemão DW, assim se pronunciou Merkel:

“Acredito que o pacto fiscal seja correto e, em segundo lugar, acho que não podemos simplesmente reabrir para discussão tudo o que já acordamos, após eleições em um país pequeno ou grande”, afirmou Merkel. Tudo isso seria discutido com Hollande de maneira amigável quando ele visitar Berlim.

A chanceler federal destacou que se vem trabalhando há tempos no contexto da UE em impulsos ao crescimento adicionais para a economia europeia. “O progresso só é realizável com finanças sólidas somadas ao crescimento, isso já é tema de discussão no Conselho Europeu e na União Europeia há muito tempo
.” A consolidação dos orçamentos estatais seria, para tanto, uma condição necessária. Merkel disse ser contra “programas conjunturais gigantes”. (DW, 07/05/2012)

 

Parece-nos que estamos de novo frente uma nova conjuntura, as mudanças acontecem, algumas até invisíveis, mas acontecem. A Grécia, teimosa deu seu não à Austeridade, a Itália dará o seu não. O mundo fica mais interessante, acompanhemos, com muito interesse.

0 thoughts on “Crise 2.0: A questão do Poder na UE”

  1. Nassif diz hoje que Dilma sentiu Das Führer “bastante curiosa em relação a fórmulas alternativas de enfrentar a crise fiscal”. Não ouvi falar disso, vc ouviu? Pelo que lembro foi um encontro formal. Diz também que a vitória do Hollande ecoou no partido socialista alemão. Otimismo às vezes atrapalha. Há enorme diferença entre a França de Sarkozy e a Alemanha de Merkel. Bem, mas isso é com o senhor de todas as coisas, o tempo.

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